F a s c í c u l o   8
O olhar feminino e detalhista das aventureiras européias

As expedições estrangeiras chegaram ao Brasil carregadas de homens estudiosos, ansiosos por conquistas, aventuras, bravuras. Por trás dos maridos, suas mulheres: foram muitas as donas-de-casa que deixaram o aconchego do lar europeu para enfrentar intempéries em alto-mar, riscos de naufrágio e uma certa selvageria sugerida nas entrelinhas das promessas de um país tropical. Para tanto, travestiram-se de homens, burlaram autoridades pouco afeitas a mulheres metidas a aventureiras e fizeram de tudo para manter a classe no balanço do mar ou em terra firme.

Rose Marie Pinon de Saulces de Freycinet (1794-1832), por exemplo, cismou que acompanharia o marido Louis-Claude nos três anos de expedição de circunavegação a bordo do "Uranie". Ele era o capitão; ela, moça burguesa de saúde frágil que estava prestes a se tornar a primeira mulher francesa a dar a volta ao mundo. Apoiada pelo marido, Rose Marie cortou os cabelos, vestiu-se de marinheiro e saiu de casa à noite, sem avisar a família. Fraquejou em certos trechos e foi corajosa em outros, aproveitando para registrar tudo em diários de viagem que contêm delícias e delírios de uma dondoca francesa no Brasil do século XIX.

São esses diários, pesquisados por Miriam Moreira Leite em seu "Livros de viagem - 1803/1900", o grande legado das viajantes. Algumas sobreviveram enquanto seus homens sucumbiam. Foi o caso de Langlet Dufresnoy, que chegou a vestir-se de homem para adentrar o sertão do Brasil e, já em Cuiabá, quando o marido morreu afogado, confeccionou chapéus e empalhou pássaros até voltar à Europa.

Para além das aventuras dessas desbravadoras, sua contribuição é analítica. São curiosas suas observações sobre as brasileiras. A baronesa de Langsdorff implicou com o silêncio reinante entre senhoritas, perguntando-se "se essas naturezas já estão mortas, ou se chegaram a viver".

Ida Reyer Pfeiffer (1795-1858), única viajante a vir sozinha, criticou o costume de deixar crianças aos cuidados dos escravos: "A sensualidade das negras é bastante conhecida para que só este fato seja suficiente para explicar uma corrupção geral e muito precoce". Ida chegou ao requinte de dar dicas de viagem, aconselhando as mulheres de seu tempo a levar roupa de cama de cor para o navio, pois, "como é um marinheiro o encarregado da lavagem de roupa, imagina-se facilmente que não ficará bem alvejada". A dica é um indício do inevitável: o Brasil retratado pelas viajantes teria fatalmente o filtro da moral européia, branca e burguesa.


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