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a s c í c u l o 8 A maioria dos estudiosos cita um livro de Gonçalves de Magalhães, "Suspiros poéticos e saudades", de 1836, como a primeira obra do Romantismo brasileiro. Mas há quem garanta que o estilo literário começou aqui antes disso, em 1825, com a publicação de "Poesias avulsas", de José Bonifácio de Andrada e Silva, no mesmo ano do início do movimento em Portugal. Se foi em 1836 ou em 1825, o certo é que chegou ao Brasil com anos de atraso (texto adiante). Bem diferente dos autores do século XVIII, que, nas palavras de Cecília Meirelles, confundiam a paisagem brasileira com os bosques da Arcádia, os românticos da primeira fase, nacionalista, cantaram todas as cores da terra. É o caso de Araújo Porto Alegre e do maior poeta do período, Gonçalves Dias, nos famosos versos de "Canção do exílio": Minha terra tem palmeiras/ Onde canta o sabiá/ As aves que aqui gorjeiam/ Não gorjeiam como lá. O nativismo foi atenuado pelos sombrios poetas da segunda fase, como Álvares de Azevedo e Casimiro de Abreu. Nesse grupo, em que quase todos morreram muito cedo, os poetas tinham como principal característica a morbidez. O ingênuo Casimiro de Abreu é mais saudosista, como no melancólico "Meus oito anos": Oh! que saudades que eu tenho/ Da aurora da minha vida/ Da minha infância querida/ Que os anos não trazem mais. Álvares de Azevedo não é recomendado para pessoas depressivas: Só levo uma saudade - é dessa sombra/ Que eu sentia velar nas noites minhas... Na terceira fase, a partir de 1860, os poetas vão abandonar o individualismo e a choradeira amorosa por versos mais engajados política e socialmente. É a época de "O navio negreiro", de Castro Alves, o mais importante poeta desta tendência e um dos mais populares até hoje: Basta de covardia! A hora soa.../ Voz ignota e fatídica revoa, que vem... donde? De Deus. Definir tendências e estilos na prosa romântica, iniciada em 1844 com "A moreninha", de Joaquim Manuel de Macedo, é ainda mais difícil. Bernardo Guimarães ("A escrava Isaura"), Visconde de Taunay ("Inocência") e Franklin Távora ("O Cabeleira") são considerados sertanistas. Manuel Antônio de Almeida, com suas "Memórias de um sargento de milícias", já fazia acenos para o realismo urbano da geração seguinte. O grande escritor do período, porém, foi o cearense José de Alencar - líder até hoje nas listas de material escolar e em adaptações para telenovelas. Nos romances de Alencar, que também escreveu poesias e peças de teatro medianas, desfila uma variada gama de personagens. São índios, virgens, aventureiros, heróis e fidalgos. Tendo publicado seu primeiro livro, "Cinco minutos", em 1856, Alencar lançou alguns clássicos da literatura brasileira, como "O guarani", "Senhora" e "Iracema" - esta, considerada uma obra-prima por Machado de Assis. A literatura de Alencar é repleta de mitos e heróis, como o idealizado índio Peri, de "O guarani", que, com suas atitudes nobres de cavaleiro europeu, nem de longe lembra os índios da vida real. Segundo o crítico Alfredo Bosi, Alencar, assim como Gonçalves Dias, tentava "fundar em um passado mítico a nobreza recente do país" - aquela que, para revolta dos portugueses, ia buscar em nomes indígenas seus títulos, forjando fidalgos como o marquês de Maricá e o barão de Paranapiacaba. Como outros autores do Brasil independente, José de Alencar era um exemplo marcante da conjugação de literatura com imprensa. Curiosamente, o progressista Alencar (quando se tratava de literatura) adotou, ao se aventurar pela política, posições radicalmente conservadoras, como a de escravocrata. Trafegando entre a História e a lenda, o urbano e o sertanejo, Alencar escreveu 21 romances. Morreu de tuberculose aos 48 anos, em 1877, mais de uma década antes da Abolição e da República. O biógrafo Luís Viana Filho, ao afirmar que o escritor cearense foi quem melhor equilibrou vida política e vida literária no Brasil, lamentou: "Sempre é cedo para morrer. Para Alencar, era cedo demais". |