F a s c í c u l o   9
Na década de 1880, a nova fase foi anunciada por um certo Brás Cubas, aliás defunto

Machado de Assis é uma unanimidade. Não a unanimidade burra que Nelson Rodrigues criticava, mas um consenso entre os maiores intelectuais dos dois últimos séculos. É verdade que conheceu detratores em seu tempo, liderados pelo crítico Sílvio Romero, magoado desde que tivera alguns versos medíocres arrasados por ele. Mas Romero - que considerava o ensaísta e poeta sergipano Tobias Barreto, este sim, o verdadeiro gênio - perdeu feio. Machado, o autor de "Dom Casmurro", chega ao fim do século XX mais jovem do que nunca, como referência máxima de estilo, sutileza psicológica e refinamento intelectual nas letras nacionais.

A origem de tanta glória remonta a 21 de junho de 1839, quando Joaquim Maria Machado de Assis nasceu no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro, filho de um pintor de paredes e de uma açoriana da Ilha de São Miguel. O pai, mulato livre descendente de escravos, legou-lhe a pesada herança da cor numa sociedade metida a européia. Nascido quase 50 anos antes da Abolição, Machado construiu vida e obra à margem de suas raízes, ou antes como forma de superá-las - o que já lhe valeu inúmeras acusações de covardia política e conservadorismo.

Não há como negar que sua imagem pública era fria em relação à política, mas suas crônicas - um dos gêneros em que foi mestre - e um conto como "Teoria do medalhão" mostram um crítico afiado da sociedade brasileira no que ela tem de mais profundo: a mediocridade condecorada, a troca de favores como motor básico das relações sociais, a hipocrisia, tudo aquilo que perduraria para além da troca de regime. Machado de Assis era cético e profundo demais para subir em palanques.

A imagem clássica de Machado, em vestes impecáveis, com um pincenê a sofisticar-lhe o semblante, é o retrato do homem que se elevou acima das circunstâncias. Supõe-se que o gosto aristocrático tenha surgido na infância, no convívio com sua rica madrinha e protetora, nos fundos de cuja propriedade os pais tinham uma casa. O percurso de sucesso profissional se iniciou em 1855, quando um Machado adolescente, de 17 anos incompletos, publicou os primeiros versos na revista "Marmota Fluminense". Três anos depois, embrenhou-se na Imprensa Nacional num trabalho perfeito para um jovem deslumbrado com a intelligentsia: aprendiz de tipógrafo. Ali conheceu o escritor Manuel Antônio de Almeida, autor de "Memórias de um sargento de milícias".

Escreveu contos, ensaios, poemas, peças de teatro e críticas. Colaborando com inúmeras publicações, acabou por se esmerar num gênero que ajudaria a tornar nobre em nossa literatura: a crônica, em que se haviam aventurado José de Alencar, Joaquim Manuel de Macedo e outros. Em 1860, já era um intelectual de prestígio. Tanto que o consagrado Alencar o convidou para, como "nosso primeiro crítico", divulgar a obra do jovem Castro Alves. Em 1864, lançou o próprio Machado um volume de poesia, "Crisálidas", bem recebido.

Em 1869, o casamento com uma portuguesa de boa formação intelectual, Carolina Augusto Xavier de Novais, consolidou seu novo status social e criou as condições de calma reclusão doméstica que lhe permitiriam se lançar como romancista. Quatro anos depois, a estabilidade de um emprego público no Ministério da Agricultura reforçou esse quadro. A década de 1870 foi de intensa produção romanesca - embora essa primeira fase seja considerada menor por quase todos os críticos. Era ainda um autor apegado às fórmulas românticas o que lançou "Ressurreição" (1872), "A mão e a luva" (1874), "Helena" (1876) e "Iaiá Garcia" (1878).

Durou até 1879 o período que a crítica italiana Luciana Stegagno-Picchio, em sua "História da literatura brasileira", chama de fase de "preparação", em oposição à seguinte, de "realização". A passagem de um a outro Machado - marcada por um período em que suas crises de epilepsia se intensificaram e ele temeu morrer - está mais para uma radical ruptura. Foi em 1881 que Machado de Assis começou a se tornar o gigante que é, com a publicação de "Memórias póstumas de Brás Cubas". Começava sua fase madura, reflexiva, irônica, cheia de um humor amargo e muito, muito irreverente. Basta dizer que o narrador Brás Cubas é um defunto-autor. No ano seguinte veio a público a coletânea de contos "Papéis avulsos", que incluía o célebre "O alienista".

A década de 1890 começou com "Quincas Borba" (1891), que tem como um dos protagonistas um cachorro. Em 1897, Machado se tornou o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, que ajudara a fundar. Era já uma lenda viva, mas ainda estava por lançar sua obra-prima: em 1899 saiu "Dom Casmurro", sobre o infeliz casamento de Bentinho e Capitu - a maior personagem feminina de nossas letras. O clímax não foi o epílogo: viriam "Poesias completas" (1901), "Esaú e Jacó" (1904) e "Memorial de Aires" (1908). Machado morreu em 29 de setembro de 1908.


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