F a s c í c u l o   9
Ressuscitado, o rei voltaria para acabar com a miséria

A fome e a miséria geradas pela seca no sertão ajudavam os pregadores na tarefa de juntar os rebanhos em busca de algo semelhante à "terra sem males" pela qual os índios tupinambás ansiavam. Aconteceu em Canudos como ocorrera na Pedra do Reino, em Pernambuco, onde o sebastianismo teve sua manifestação mais violenta. Não foi à toa que José Lins do Rego, em "Pedra bonita", e Ariano Suassuna, em "Romance da Pedra do Reino", contaram o trágico episódio ocorrido a quase 500 quilômetros de Recife, em 1838.

Esse louco capítulo da história brasileira foi protagonizado pelo mameluco João Antônio dos Santos, um lunático que dizia saber o local onde ficava o reino de d. Sebastião. Dois enormes rochedos funcionavam como santuários e outra rocha era a mesa do holocausto. Segundo Roger Bastide, em "Brasil, terra de contrastes", os místicos cantavam hinos, fumavam uma erva santa e bebiam o alucinógeno suco de jurema - um parente distante do Santo Daime.

Antes de desaparecer sem deixar vestígios, passando o "reinado" a seu irmão José Joaquim, João Antônio teve relações sexuais com todas as mulheres casadas da Pedra do Reino: elas tinham que passar a noite de núpcias com ele. A influência do místico foi crescendo e atraiu até não-miseráveis, como fazendeiros da região.

Para abrir as entranhas da terra e deixar passar d. Sebastião com toda a sua corte, José Joaquim pregava ser necessário derramar muito sangue. E todos seguiram à risca a recomendação. Durante dias, houve na região uma matança maior do que muitas chacinas do século XX. Primeiro, sacrificaram os cachorros, que deveriam voltar como dragões na comitiva do rei. Depois foi a vez de homens, mulheres e crianças, num total de cerca de 30 pessoas, até a chegada da polícia.

Não era o primeiro caso do gênero. Em 1819, o ex-soldado Silvestre João dos Santos já tinha tentado fundar um reino sebastianista na Serra do Rodeador, a 180 quilômetros de Recife. Dos cerca de mil adeptos, mais da metade morreu atacada por uma força militar enviada pelo governador Luís do Rego, que depois incendiou o arraial.

Pregações como essa corriam os sertões por gerações. Desse modo chegaram aos ouvidos de Antônio Vicente Mendes Maciel, filho de um comerciante do Ceará, que abandonou a família e tornou-se peregrino em 1876, já com o nome de Conselheiro, fixando-se depois no Arraial do Belo Monte, que rebatizaria de Canudos. Fez aliados e inimigos - estes, inclusive na Igreja Católica. Detido para interrogatório, não se intimidou, voltando ao arraial. De 1893 a 1896, Canudos ganhou cinco mil casebres, abrigando de 20 a 30 mil pessoas. Tinha virado uma ameaça.

A maior fonte de informações sobre Canudos é "Os sertões", livro que Euclides da Cunha escreveu com base em suas próprias reportagens (texto adiante). No centro do arraial, um terreno irregular, cheio de colinas e barrancos, ficava o santuário do Conselheiro. Embora fossem pacíficos no início, os moradores de Canudos passaram a fazer saques nas redondezas. Os prejudicados reclamaram ao governador baiano, Luís Viana, que enviou uma força policial para sondar o terreno. Eram 30 homens, que acabaram atacados e vencidos por grande número de jagunços. Em seguida, a primeira expedição estadual preparada para um conflito teve 100 pessoas, mas também foi derrotada.

Em janeiro de 1897 entrou em cena o governo federal. A expedição chefiada pelo major Febrônio de Brito levou mais de 500 soldados, armados de canhões e metralhadoras, mas foi esmagada. Logo depois, o confiante coronel Moreira César liderava, de peito aberto, sua tropa de 1.300 soldados e 16 milhões de tiros. Foi um dos primeiros a morrer, junto com 1.100 soldados.

Aí virou guerra mesmo. Mais de 4 mil homens seguiram para lá, liderados pelo general Artur Oscar. A devastação foi total: o arraial de Canudos foi pulverizado em outubro de 1897. Conselheiro morreu, mas há controvérsias sobre a autenticidade do cadáver dado como seu. No livro "Canudos: o povo da terra", o escritor Marco Antônio Villa diz que o corpo desenterrado era o do médico Manuel Quadrado, que lá trabalhava como voluntário: entre as evidências que apresenta está o reconhecimento do cadáver pela filha de Quadrado.

O messianismo voltaria a marcar a história republicana no século XX. A revolta do Contestado, entre 1912 e 1915, na divisa entre Paraná e Santa Catarina, foi um dos mais ferozes exemplos de fanatismo religioso do Brasil. Tendo começado por razões sócio-políticas (grileiros contra uma multinacional de extração de madeira), teve como figura principal um beato, o "monge" José Maria, que morreu logo no início dos conflito. Os revoltosos, muitos deles operários desempregados de uma ferrovia, lutaram contra 8% do Exército brasileiro. Cerca de 20 mil pessoas morreram.

Além de a pregação de José Maria ter fumaças de sebastianismo, ele próprio assumiu, ao morrer, ares de Sebastião tupiniquim: os fiéis acreditavam que ressuscitaria. Mais uma prova da força de um mito que o escritor português Antônio Machado Pires aborda com espanto: "Na história universal da demência humana, ainda não apareceu nem aparecerá um delírio semelhante".


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