F a s c í c u l o   1 3  -  C r i s e   d e   6 4   e   P o s t e r i o r   P a z
O Golpe de 1964

Confroto e Rede de Investigação no RN

A radicalização entre esquerda e direita atingiu também o Rio Grande do Norte.

A causa esquerdista, no Estado era defendida por Djalma Maranhão e seus correligionários e, ainda, por grande parte dos estudantes e de operários. Essas forças defendiam os ideais do nacionalismo e lutavam contra a direita.

Quando a crise ideológico-militar explodiu no Sul, o prefeito Djalma Maranhão, de imediato, ficou solidário com João Goulart. Foi mais além, transformou o prédio da prefeitura como sendo "o quartel-general da legalidade e da resistência".

O governador Aluízio Alves divulgou uma nota, onde dizia que o governo "pede ao povo que se conserve calmo, evitando atos ou manifestações que aprofundem as divisões desta hora em que todos os esforços devem ser feitos para a restauração da paz e preservação da democracia".

Começou, então, a fase de investigações com a Comissão Geral de Investigações instalada pelos militares e mais duas comissões criadas pelo Ato Institucional nº 2.

No dia 1º de abril, Djalma Maranhão publicou uma nota oficial, do governo municipal do Natal, concluindo com as seguintes palavras: "a legalidade é Jango!".

No dia 2 de abril foram presos, o prefeito Djalma Maranhão e o seu vice. Luís Gonzaga dos Santos. Foram levados para o QG da Guarnição Militar de Natal. Depois, foi comunicado aos vereadores que os dois, sendo comunistas, não poderiam exercer os seus mandatos. Como a comunicação foi verbal, a Mesa da Câmara solicitou ao comando militar que fosse enviado um ofício, para dar um caráter administrativo à questão. A Câmara Municipal ficou reunida, esperando a comunicação oficial, que chegou por volta das 22 horas. Os vereadores declararam o "impeachemet" de Djalma Maranhão e de Luís Gonzaga dos Santos. O vereador Raimundo Elpídio assumiu, em caráter interino, a função de prefeito. Mais tarde, os vereadores elegeram, em definitivo, o almirante Tertius César Pires de Lima Rebelo como prefeito e Raimundo Elpídio, vice-prefeito.

Os vitoriosos consolidaram o movimento no Rio Grande do Norte, porém, deixando profundas marcas no seio da família potiguar, como demonstra o desabafo da escritora Mailde Pinto Galvão: "Por uma suspeita absolutamente infundada e sem sentido, invadiam as residências, prendiam pessoas e expunham as famílias ao vexame das investigações na vida pessoal e profissional. Perdia-se a privacidade, o direito de defesa e a estabilidade nos empregos".

Para José Wellington Germano, "na verdade, não foi esboçada nenhuma tentativa concreta de resistência. As forças principais trataram logo de ocupar, na manhã do dia 1º de abril, os principais pontos da cidade, cercado alguns sindicatos, e na noite do mesmo dia, intervindo e dissolvendo uma assembléia de estudantes que se realizava no restaurante universitário da Av. Deodoro; também foi desfeito o QG da legalidade pelas próprias forças militares que penetraram no edifício da prefeitura".

O mesmo autor ainda informa que os sindicatos marítimos de Areia Branca e Macau entraram em greve, a Federação dos Trabalhadores Rurais colocou à disposição do presidente da República cerca de cinqüenta mil camponeses e a União Estadual de Estudantes lançou um manifesto.

O prefeito Raimundo Elpídio da Silva, no dia 3 de abril de 1964, exonerou o professor Moacyr de Góes da função de secretário de Educação. A função foi assumida, posteriormente, pelo capitão-de-corveta Tomaz Edson Goulart do Amarante.

No dia 7 de abril, foi realizada a "Marcha da Família, com Deus, pela Liberdade", para comemorar a vitória do golpe militar.

O novo governo municipal demitiu vários funcionários, considerados perigosos: "Omar Pimenta, da diretoria do Ensino Municipal; Mailde Pinto, da diretoria de Documentação e Cultura; a professora Maria da Conceição Pinto de Góes e, ainda, o professor Geniberto Campos, respectivamente dos cargos de diretor e vice-diretor do Ginásio Municipal", narrou José Wellington Germano.

Uma grande preocupação dos novos detentores do poder foi a de eliminar livros que, para eles, continham ensinamentos de uma ideologia marxista. Para realizar tal missão, invadiram bibliotecas, destruindo muitos volumes.

E como sempre acontece nesses casos, alguns militares, por excesso de zero ou por ignorância, cometeram arbitrariedade. Exemplo: quando invadiram a casa do professor Moacyr de Góes, colocaram uma metralhadora na cabeça da mãe do ex-secretário de Educação, já bastante idosa e que merecia, portanto, maior respeito".

Vários inquéritos militares foram instaurados, dos quais resultaram diversas prisões: Hélio Xavier de Vasconcelos, Omar Fernandes Pimenta, Moacyr de Góes, Vulpiano Cavalcanti de Araújo, Eider Toscano de Moura, Danilo Bessa, Marcos José de Castro Guerra, Carlos Alberto de Lima, Luiz Ignácio Maranhão Filho, etc.

Nas prisões, houve uma série de torturas. Como disse Moacyr de Góes, "é fácil implantar o terror numa cela. Fácil e covarde. Basta que os carcereiros empreguem a força bruta no espancamento dos prisioneiros em sucessivos interrogatórios. Ou então que aos mesmos carcereiros seja permitido criar condições tais de insegurança para os prisioneiros que estes sintam o real risco de não sair do cárcere com vida".

 

 

p r i n c i p a l