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a s c í c u l o 1 5 - U m P
o u c o M a i s S o b r e C u
l t u r a Sabedoria e Arte Conservadas Pelo Povo Segundo Cascudo, "esse nome FOLK-LORE foi criado por um arqueólogo inglês, William John Thoms (1803-1885), propondo a denominação num artigo com esse título, publicado na revista Rhe Athenaeum, de Londres, a 22 de agosto de 1846, com o pseudônimo de Ambrose Mertor". Folk-Lore seria "the lore of the people", a sabedoria do povo. Tornou-se universal e comum. Mas o que vem a ser, na realidade, folclore? É o próprio Cascudo quem responde: "Todos os países do mundo, raça, grupos humanos, famílias, classes, profissionais, possuem um patrimônio de tradições que se transmite oralmente e é defendido e conservado pelo costume. Esse patrimônio é milenar e contemporâneo. Cresce com os conhecimentos diários desde que se integram nos hábitos grupais, domésticos ou nacionais. Esse patrimônio é o FOLCLORE". O folclore potiguar é uma conseqüência de tradições portuguesas, nativas e africanas. Com o passar do tempo essas tradições se misturaram, provocando uma danças. Uma dessas tradições mais antigas é a vaquejada, cuja origem é desconhecida. Hoje, a vaquejada se transformou num esporte, praticado pelos filhos dos fazendeiros, juntamente com seus vaqueiros. É a festa popular, com distribuição de valiosos prêmios. A vaquejada tem por principal objetivo derrubar o touro, puxando o animal pela cauda. Dois cavaleiros correm, de maneira paralela, um procurar levar o boi numa determinada direção, o outro tenta derrubá-lo. Quando o objetivo é alcançado, aplausos. Caso contrário, vaias.... As festas populares mais conhecidas do Rio Grande do Norte pertencem ao ciclo junino (Santo Antônio, São João e São Pedro) e aquelas que fazem parte do ciclo natalino. Nos festejos de São João, comemorados com mais intensidade, predominam iguarias de milho: canjica, pamonha, milho assado, etc. Com fogueiras, fogos, adivinhações, bandeiras de papel, iluminação com muitas lâmpadas, com destaque para a dança chamada quadrilha. Essa festa, antigamente, era realizada nas fazendas. Atualmente, a quadrilha foi transportada para a cidade, quando se realizam os "arraiás" em ruas interditadas especialmente para os festejos juninos. Campina Grande, na Paraíba, se transformou num grande centro de festas juninas do Nordeste, atraindo milhares de turistas, inclusive, potiguares. Do ciclo natalino, se destaca uma festa bem tradicional que durante os anos vinte monopolizava as atenções da cidade do Natal, como mostra o testemunho de João de Amorim Guimarães: a festa dos Santos Reis. Narra o poeta e cronista: "Desde a tarde da véspera começava a chegar gente. Iniciavam-se os "terços", respondidos por todos e repetidos a noite inteira (...) Na hora da missa às nove horas da manhã, a praia estava apinhada de devotos, ricos e pobres, pretos e brancos, abstêmios e bêbados. "Depois da missa a festa continuava. Orquestra sem conta, tocando em bailes improvisados; cantores anônimos deliciando o povo, acompanhados de violões dengosos, sentimentalizando, cantando, chorando, nos sons deliciosos do instrumento que soube sempre seduzir o coração e almal... "Ali almoçava-se, bebia-se, deliciava-se o espírito e o coração, o dia todo, tudo dentro do respeito e da consideração recíproca, de um povo feliz, que se compreendia e se estimava...". Pertencente ainda ao ciclo natalino existem alguns folguedos populares. Um dos mais conhecidos é o Boi Calemba (Bumba meu Boi), que se exibe no período que vai de novembro até o início de janeiro. As primeiras exibições datam do século XVIII. Segundo Deífilo Gurgel, o Boi Calemba se diferencia dos outros brasileiros e não tem enredo, por ter se descaracterizado, "limitando-se o brinquedo hoje, pelo menos em Natal e em São Gonçalo, quase só as danças e cantigas". Do elenco se destaca o Mestre que, quase sempre, é o dono do espetáculo. De;ífilo Gurgel conta que "os antigos Mestres de Boi Calembra de Ceará-Mirim e São José de Mipibu vinham a Natal contratar seus espetáculos empunhando uma espada desembainhada", porque a espada simbolizava o poder. Outro personagens: os Galantes são em número de quatro a oito. As duas damas são, na realidade, dois meninos vestidos de mulher. Os mascarados possuem os seguintes nomes: Mateus, Birico e Catirina. Entre as figuras, podem ser citadas: Burrinha, Bode, Cheque, Gigante e sua mulher Dra. Maria Zidora da Conceição Pia. Como disse Deífilo Gurgel, "O Boi é a figura central do folguedo. É o último que se apresenta. Depois que ele sai de cena, cantam-se as despedidas". Já o Pastoril tem por objetivo louvar o menino Jesus, representando a visita que os pastores fizeram ao estábulo de Belém. É formado por várias jornadas, com dois grupos de pastoras: o cordão azul e o cordão vermelho, ambos possuem os seguintes personagens: Diana Mestra, Contramestra, Cigana, etc. Antigamente, o Pastoril era representado diante de um presépio, com imagens de santos. Renato Almeida, citado por Câmara Cascudo, diz o seguinte: "O que tem maior significado no pastoril é constituírem as pastoras o elemento básico na função coro, tomado como personagem. Ele é que tem o papel dramático". O Fandango não existiu em Portugal, porém, as músicas receberam influência européia, cujos temas, como diz Câmara Cascudo, foram organizados "anonimamente no Brasil". Consta de vinte e quatro jornadas. Os personagens vestem "fardas" da marinha. É a história da "Náu Catarineta", justificando, assim, a presença de um barco. Alguns personagens do elenco: Capitão, Piloto, Imediato, Médico, etc. A Chegança, que em Portugal era dança, ao chegar no Brasil se transformou em um auto. Como disse Câmara Cascudo, "a chegança é representada com cenas marítimas, culminando pela abordagem dos mouros, que são vencidos e batizados". Em 1745, a Chegança foi proibida por D. João V, em Portugal, por ser considerado indecente. Segundo Câmara Cascudo, essa dança não tem nenhuma relação com o auto brasileiro que "é dividido em partes e não há acompanhamento musical ao canto que decorre ritmado pelos tambores, caixas-de-guerra, em rufos incessantes". Os Congos ou Congadas, pelo nome, denunciam influência africana. No enredo, lutas de africanos, buscando sua autonomia contra os portugueses. Não foi, contudo, importado da África. Surgiu no Brasil, invenção dos escravos negros. Principais personagens: Rei Cariongo, Príncipe Sueno, Secretário-Sala, Rainha Jinga e o Embaixador. Encontram-se, na atualidade, em decadência. Segundo Tarcísio Medeiros, "em Caicó e Jardim do Seridó, entretanto, conservam, por ocasião das festas à Nossa Senhora do Rosário". Os Caboclinhos se apresentam durante o carnaval. Não chega a ser um auto. Os seus integrantes fazem, apenas, coreografia, fantasiados de nativos. Como afirma Tarcísio Medeiros, eles "desfilam pelas ruas ao som do batuque dos seus tambores, gaitas e chocalhos, dançando em cordões que evoluem de acordo com as cenas representadas pelo caçador ferido, manifestações de feitiçaria do Pajé e o culto dos deus Tupan, carregado num andor, tudo sob as ordens do Cacique, que imprime sua vontade por meio do toque de um búzio". Bambelô é uma dança, com o grupo formando um círculo, e no interior da "roda", dançam um ou dois dançarinos. É, ainda, Tarcísio Medeiros, quem diz que o "cantar", geralmente, é improvisado; o refrão ou segue a estrofe ou se intercala nela. Poeticamente, apenas, o refrão é fixo, constituindo o caracterizado do coco". Em Alagoas a dança é conhecida pelo nome de "Coco". Em Natal, duas sociedades continuam dançando o Bambelô: Araruna e Asa Branca.
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