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O Governador dos Índios

Tradição de Bravura Vai de Pai Para Filho

A simples existência de uma aldeia com o nome de Meratibi, em Pernambuco, não significa que essa aldeia tenha sido a povoação à qual dom Antônio Felipe Camarão se referiu em seu testemunho. E mesmo que o historiador pernambucano estivesse certo, a palavra que se encontras no documento citado é "residia" e, claro, existe uma diferença entre "residir" e "nascer". Esse documento, portanto, não prova que o chefe potiguar tenha efetivamente nascido em Pernambuco...

Meratibi é o nome de uma aldeia pernambucana com grafia semelhante à de outra aldeia potiguar chamada de Merebiti ou Meretibi. O escritor Mário Mello aproveitou essa semelhança para forjar a sua teoria de que Felipe Camarão teria nascido em Pernambuco.

Outro aspecto que se deve destacar: Luís da Câmara Cascudo provou que existe no Rio Grande do Norte uma tradição popular sobre dom Antônio Felipe Camarão entre pessoas iletradas, no interior e na época em que ele realizou a pesquisa, na década de trinta. As mulheres que foram consultadas desconheciam totalmente a controvérsia sobre Felipe Camarão. Disse Câmara Cascudo: "Essa tradição popular da naturalidade de Camarão é um ponto de referência de singular força argumentadora. Nenhum outro Estado disputante de seu berço pode empregar as mesmas armas. Essa tradição oral só existe no Rio Grande do Norte, onde dom Antônio Felipe Camarão é tido como conterrâneo".

Caso Felipe Camarão tenha morado realmente na Mirituba pernambucana - Pedro Moura provou que não -, ele já havia nascido e se encontrava na idade adulta, dirigindo o seu povo. Foi assim que ele deixou o Rio Grande para lutar contra os holandeses em Pernambuco.

Falta ainda comentar outro argumento a favor da tese pernambucana. Em uma carta, Henrique Dias disse o seguinte: "Meus senhores Olandeses, meu Camarada o Camarão não está aqui, porém eu respondo por ambos. Vossas Mercês, saibam que Pernambuco é sua pátria e minha, e que já não podemos sofrer tanta ausência d'ella! Aqui havemos de deitar vossas mercês fora d'ella".

A questão é fácil de explicar. Com a palavra, novamente, Pedro Moura: "De fato, Camarão nasceu nesta província, isto é, na circunscrição naquele tempo criada por D. Diogo de Menezes, Capitania do Rio Grande do Estado do Brasil", sujeita a um só governo geral, como parte integrante de uma província militar - Pernambuco".

"Da mesma maneira frei Calado chamou "índios brasileiros, índios da terra, índios pernambucanos", os nossos índios, indistintamente, nascido na província limitar de Pernambuco, fossem eles tabajaras, fossem potyguares, fossem cahetés".

Em síntese, a "pátria pernambucana" não significava apenas Pernambuco, porém uma área bem mais ampla que incluía inclusive o Rio Grande. E Antônio Felipe Camarão, ao dizer que lutava pela pátria pernambucana, estaria também se referindo ao seu pequeno Rio Grande.

Henrique Dias, ao dizer "pátria", não estava se referindo exclusivamente à Capitania de Pernambuco, porque ele não pretendia expulsar os holandeses apenas de uma capitania, mas de todo o Nordeste.

A conclusão que se extraia de tudo o que foi dito é o seguinte: existiram realmente dois chefes potiguares, pai e filho, que possuíam o mesmo nome - Poti. O filho foi quem partiu do Rio Grande para lutar contra os holandeses, em Pernambuco. O que não se comprova é que ambos nasceram no Rio Grande do Norte.

As controvérsias não terminam aqui. Antes se imaginava que havia só um Poti. Agora, provado que existiam dois, não fica fácil esclarecer os fatos em que ambos se envolveram. Quem fez tal empreendimento, foi o pai ou o filho? É preciso realizar, urgentemente, uma investigação séria sobre o problema.

Dom Antônio Felipe Camarão nasceu, provavelmente, na Aldeia Velha, no ano de 1580.

Com relação ao seu batismo, Nestor Lima aponta para o dia 13 de junho de 1612 e parece estar certo. Naquele dia, ao se tornar cristão, o potiguar tomou o nome de Antônio Felipe Camarão. O primeiro nome teria sido uma homenagem ao santo do dia, Santo Antônio. O segundo nome seria uma homenagem a Felipe IV, rei da Espanha. E, finalmente, Camarão, que é tradução portuguesa do seu nome primitivo em tupi: Poti.

No dia seguinte ao do seu batizado, Felipe cassou com uma de suas mulheres que, na pia batismal, recebeu o nome de Clara. As solenidades do batizado e do casamento foram realizadas em grande estilo na Capela de São Miguel de Guajerú.

Antonio Soares, no "Dicionário Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte", transcreve a opinião de D. Domingas do Loreto: "Na guerra da restauração de Pernambuco, ostentou D. Clara, mulher do governador dos índios. D. Antônio Felipe Camarão, o seu insigne valor com os mais ilustres realces: porque, armada de espada e broquel, e montada em um cavalo, foi vista nos conflitos mais arriscados ao lado do seu marido, com admiração do holandez e aplauso dos nossos".

D. Antônio Felipe Camarão, além de grande guerreiro, foi igualmente hábil estrategista. Sua maior vitória foi contra o general Arcizewski, que sentiu humilhado ao perder para um chefe nativo. São suas as seguintes palavras, transcritas por Antônio Soares, no "Dicionário Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte" : "Há mais de quarenta anos - disse o general - que não milito na Polônia, Alemanha e Flandres, ocupando sem interrupção postos honrosos, mas só o índio brasileiro Camarão veio abater-me o orgulho".

O valente chefe potiguar, pelo seu desempenho contra os inimigos, recebeu diversas honrarias: o título de "Dom", dado por Felipe IV; Brasão de Armas; "Capitão Mor e Governador de Todos os índios do Brasil", e as comendas "Cavaleiro da Ordem de Cristo" e dos "Moinhos de Saure".

Dom Antonio Felipe Camarão morreu, segundo alguns autores, a 24 de agosto de 1648, sendo sepultado na Várzea, em Pernambuco.

 

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