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a s c í c u l o 6 - I n d e p e n d ê
n c i a d o B r a s i l Sem Choque de Armas no RN Manuel Teixeira Barbosa assumiu o governo no Rio Grande do Norte numa hora difícil. Inquietação em todo o País. Conta Câmara Cascudo que "Pais de Andrade apoiava-se na Tradição de 1817, esta polarizava simpatias por todo o Nordeste". "No Rio Grande do Norte, os homens de 1817 eram queridos e admirados. Mas estavam divididos, uns para o lado do imperador e outros para a aceitação de um governo popular". Pais de Andrade enviou Januário Alexandrino para manter contatos na escuna "Maria Zeferina", em março de 1824. Ele vinha oficialmente, como médico, para divulgar um tipo de vacina. Porém, sua missão real era divulgar o movimento revolucionário pernambucano. Levava, inclusive, oficiais para o Ceará e Pará. O clima hostil que havia entre os dois grupos, a favor ou contra o imperador, crescia num prenúncio de violência. Teixeira Barbosa, inseguro, passou a dar expediente no Quartel da Tropa de Linha, esperando, ansioso, pelo seu substituto. Tomás de Araújo que, segundo se dizia, simpatizava com a causa pernambucana, retardava, ao máximo, assumir o governo. Ambos tinham consciência da tempestade que se aproximava. Tomás de Araújo foi nomeado presidente da província em 25 de novembro de 1823 e assumiu o governo em 5 de maio de 1824. Na Paraíba, o presidente Felipe Neri Ferreira encontrou uma série de resistência ao seu nome, sendo Félix Antônio Ferreira de Albuquerque aclamado presidente. Era o retrato da crise política que reinava no Nordeste. As facções em luta, na Paraíba e em Pernambuco, procuravam o apoio do Rio Grande do Norte. Pais de Andrade enviou, inclusive, correspondência para o governante potiguar. Tomás de Araújo agiu com cautela, preocupado em evitar uma guerra civil em sua província, atitude que não foi compreendida por alguns historiadores. Enviou, entretanto, uma delegação (padre Francisco da Costa Seixas, José Joaquim Germiniano de Morais Navarro e José Joaquim Bezerra Carnaúba) que fez algumas exigências ao vice-presidente da Paraíba, Alexandre de Seixas Machado: "intimar-lhe a eleição de novos conselhos de governo, posse ao mais votado, anistia e volta aos seus empregos de todos comprometidos, além das garantias naturais de segurança pessoal e propriedade", sintetizou Câmara Cascudo. Alexandre de Seixas Machado, como resposta, mandou tropas para as fronteiras que se limitavam com o Rio Grande do Norte. A delegação potiguar, depois de visitar a Paraíba, foi para Pernambuco, sendo que José Joaquim Bezerra Caranúba foi substituído por José Joaquim Fernando Barros. Essa delegação assinou, com o governo Pernambuco, uma concordata,. Em 3 de agosto de 1824, pela qual as duas províncias se uniram "numa liga fraternal ofensiva e defensiva", devendo entrar em vigor quando fosse assinada pelos governantes das duas províncias. Tomás de Araújo, ao que parece, não assinou o referido documento. Mais uma atitude do presidente entendida como dúbia... Pode ser compreendida, contudo, como uma prova de que não apoiava o movimento. Tomás de Araújo enviou tropas para a região sul, sob o comando de Miguel Ferreira Cabral que, pouco depois, recebeu ordem para regressar. Havia a notícia de que uma força paraibana iria combater os norte-rio-grandenses. A situação ficou muito confusa. Tomás de Araújo mandou o tenente José Domingues Bezerra de Sá para observar o que estava acontecendo. Na volta, Bezerra de Sá informou que a tropa de Cabral estava reforçada com voluntários, oriundos de S. José de Mipibu, que eram grandes entusiastas da Confederação do Equador. Segundo Bezerra de Sá, o objetivo era "levantar a bandeira republicana em Natal". Os expedicionários, vindo do sul, portanto, eram rebeldes, adeptos da Confederação do Equador... Diante de um possível confronto, Vicente Ferreira Nobre e Joaquim José da Costa são designados para defender a cidade do Natal. Câmara Cascudo narrou os acontecimentos seguintes: "Ferreira Nobte e Costa ocupam os arredores da cidade e não permitem que o emissário do presidente leve carta sua ao alferes. Cabral na tarde de 5 de setembro. O presidente foi em pessoa suplicar os dois que permitissem a entrada da força de Cabral. Permitiram, depois de muito rogados, com a condição dos voluntários acamparem fora da cidade". Uma situação crítica. Ferreira Nobre e Costa, praticamente, assumem o poder ou, pelo menos, ignoram a autoridade de Tomás de Araújo. Ao que parece, eles acreditavam que o presidente estava do lado dos rebeldes ou, no mínimo, simpatizava com a causa da Confederação do Equador... Apesar dessa circunstância, o esforço de Tomás de Araújo para evitar um conflito armado, nos arredores de Natal, foi imenso e mesmo sem conseguir que suas determinações fossem aceitas pelos chefes militares, conseguiu que o pior não acontecesse, como demonstrou Jayme da Nóbrega: "Tomás de Araújo evitou o choque de armas, às portas de Natal, entre as tropas da guarnição, de 1 e 2 linhas, comandadas respectivamente pelo Capitão Vicente Ferreira Nobre e Sargento-mor Joaquim José da Costa, de um lado, e uma força de 50 soldados da mesma guarnição que fora enviada ao litoral sul e voltava engrossada com voluntários rebeldes de São José de Mipibu (...) sob o comando do Alferes Miguel Ferreira Cabral, de outro lado". "Conseguiu Tomás de Araújo em pessoa convencer os indisciplinados comandantes Nobre e Costa de que pacificamente deveria passar pelo posto militar a tropa de Cabral e acampar fora o grupo de moços voluntários revoltosos. Estes depois fugiram". Os historiadores viram em Tomás de Araújo um velho fraco, que não estava à altura dos acontecimentos. A verdade, porém, é que caso Tomás de Araújo tentasse se impor aos militares pela força, teria sido preso ou, então, morto. E a conseqüência teria sido a guerra civil! Tomás de Araújo, para evitar o derramamento de sangue, através de um gesto heróico, preferiu se sacrificar, suportando humilhações para obter um bem maior: poupar o povo e a cidade das vicissitudes de um conflito armado. Seu intento se realizou. Esse fato tem que ser reconhecido pela historiografia potiguar. Tomás de Araújo, pedindo demissão, entregou o governo ao presidente da Câmara, Lourenço José de Moraes Navarro, que dirigiu os destinos da província até 20 de janeiro de 1825. Navarro, por sua vez, passou o governo ao seu substituto legal, Manuel Teixeira Barbosa. A conclusão à qual se pode chegar é que, na realidade, o Rio Grande do Norte foi envolvido pelo movimento revolucionário pernambucano sem sofrer, contudo, maiores conseqüências.
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