F a s c í c u l o   7  -  E s c r a v i s m o   e   R e p ú b l i c a
Escravismo e Abolicionismo

O Pioneirismo da Abolição Mossoroense

Disse Câmara Cascudo: "a idéia da abolição encontrou adeptos entusiastas e adversários com antipatia pessoal aos propagandistas e não ao pensamento de restituir ao negro o estado de liberdade". Esse clima de hostilidade entre os grupos antagônicos, a favor ou contra, foi provocado, certamente, pelo entusiasmo dos jovens, com ativa participação em comícios públicos. Havia também um clima de aventura.

O macauense Joaquim Honório da Silveira viajou para o Ceará, numa jangada, para levar "uma petição de Habeas Corpus em favor dos escravos que estavam prisioneiros na Fortaleza, sendo condecorado com uma medalha de prata pelo "Clube do Cupim", narrou Pedro Moura.

Uma das características do movimento foi a participação entusiástica dos padres na campanha: "Pe. Pedro Soares de Freitas, Pe. João Cavalcanti de Brito (Natal), Pe. Antônio Joaquim (Mossoró), Pe. Amaro Theat Castor Brasil (Caicó), entre outros.

Macaíba contava, em 1869, com uma sociedade que lutava pela libertação dos escravos. Mas foi em Mossoró que se iniciou uma campanha sistemática, com forte influência cearense. A "Libertadora Mossoroense" foi fundada em 6 de janeiro de 1883, libertando seus escravos no dia 30 de setembro de 1883.

Damasceno de Menezes mostra a ascendência cearense no acontecimento: "Do Estado vizinho, Mossoró recebera relevante contingente de homens de alta formação cívica, e cedo a sociedade local participara do espírito libertador pelas influências de intercâmbio cultural e comercial que desde os seus primórdios se entrelaçaram à vida das comunidades do Oeste Potiguar".

O mesmo autor mostra que não houve, naquele trinta de setembro, um ato subversivo, porque não feriu nenhum dispositivo legal. Os escravos foram libertados através da entrega das Cartas de Liberdade. Isso acontecia de várias maneiras. A diferença é que, em Mossoró, no dia trinta de setembro de 1883, as cartas foram entregues na mesma data, em solenidade pública, libertando todos os escravos que ainda existiam no município. Segundo Damasceno de Menezes, "juridicamente houve abolicionismo em Mossoró. Sim, comemorou-se o civismo de um povo. O cristianismo houve por bem abalar os corações magnânimos do grande povo potiguar, o dar-se a extinção antecipada do elemento servil em a terra de Santa Luzia, para exemplo, memória e prova de altruísmo de uma geração que diante da justiça e pelo amor, pela prova de alto espírito compreensivo se tornou imortal".

Mas após o trinta de setembro, foi fundado o "Clube dos Spartacus", cujo primeiro presidente foi um ex-escravo, de nome Rafael. O objetivo dessa associação era promover a fuga de escravos de outros municípios para Mossoró... Essa concepção, na realidade, era subversiva, porque contrariava a legislação vigente no País. Mossoró era, assim, na prática, um município livre. Libertou seus escravos de maneira legal, porém acabou com a instituição da escravidão em suas terras. Dentro dessa perspectiva, houve abolicionismo em Mossoró.

O exemplo dessa cidade passou a ser seguido por outras comunidades do interior. Açu libertou seus escravos em 24 de junho de 1885. Depois foi a vez de Carnaúba (30/03/1887) e, logo a seguir, Triunfo ( 25/05/1887). Natal não possuía mais escravos em fevereiro de 1888.

Natal teve sua Guarda Negra, criação do Partido Conservador e instrumento de combate às idéias republicanas. Segundo os conservadores, os negros, por gratidão deveriam defender a monarquia... Em Natal, a Guarda Negra recebeu o nome de Clube da Guarda Negra. O seu presidente foi Malaquias Maciel Pinheiro. Instalada a 10 de fevereiro de 1889, com muita festa, essa organização, na apuração de Câmara Cascudo, nada fez de bom ou mal...

 

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