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a s c í c u l o 9 - V i o l ê n c
i a e M i s t i c i s m o Theodorico Bezerra: de Cabo a "Major" Nasceu em Santa Cruz, Rio Grande do Norte, sendo filho de José Pedro Bezerra e Anna Bezerra. Fez os primeiros estudos em sua terra. Em 1917 foi estudar em Natal, no colégio Santo Antonio. Após dois anos de estudos voltou para Santa Cruz, por causa da situação financeira precária de sua família. Em 1915 exercia o comércio, como ambulante. Nascimento Bezerra informa que "em princípio compra e vende tudo, mas o negócio de couro é que tem maior expressão. Parou suas atividades quando foi servir o exército, mais precisamente no 21º Batalhão de Caçadores, onde permaneceu de 1923 até 1924, quando chegou até o posto de cabo. Por essa razão, ficou conhecido pela alcunha de "cabo". O título de "major" apareceu depois, quando militava na política. Saindo do exército, comprou, juntamente com um amigo, um caminhão. Depois, vendeu sua parte e comprou, em Natal, o "Hotel dos Leões". Aos poucos, foi comprando outros, como afirma Raimundo Alves de Souza:"o internacional", Avenida e "Palace Hotel", até fixar-se definitivamente no ramo com o arrendamento do "Grande Hotel", em 1939. Theodorico Bezerra, apesar de suas inúmeras atividades, ficou conhecido sobretudo como algo que na realidade nunca deixou de ser: um coronel, do tipo definido por Maria Bezerra: "é um coronel que emerge e se modela no trânsito entre o novo apogeu do coronelismo e seu rápido declínio. Projeta o perfil de um "novo coronel" despido das características anteriores de truculência, jaguncismo, desacato às autoridades constituídas que lhe estorvassem os propósitos particulares vestindo-o de uma roupagem de corte mais ajustado ao figurino da época que transcorre: pacifismo, moradores desarmados, colaboração às instituições governamentais. Um dos traços fundamentais da personalidade de Theodorico Bezerra é o seu dinamismo. Sempre procurou diversificar suas atividades, sendo vencedor em todas elas. Como fazendeiro, chegou a criar um verdadeiro império: Irapuru, sua maior fazenda. Como comerciante, se tornou sócio de uma agência de carros; proprietário de uma farmácia; dono de uma casa de fogos. Chegando inclusive a fazer parte da diretoria da Associação Alves de Souza. Como político, foi um grande líder, com uma importante participação na vida partidária do Rio Grande do Norte. Entrou para a política sob a influência do interventor Fernandes Dantas. No dia 23 de maio de 1945 ingressou no Partido Social Democrático. No ano de 1947, foi eleito deputado estadual. Venceu as eleições para governador. O primeiro projeto de Theodorico Bezerra na Assembléia Legislativa foi a criação do município de São José de Campestre, que se transformou em lei. Foi também membro da Comissão do Comércio, Indústria, Agricultura e Obras Públicas. No dia 3 de fevereiro de 1949, assumiu o comando do PSD. Em 1950 foi eleito deputado federal. No ano de 1960 apoiou Aluízio Alves e monsenhor Walfredo Gurgel para governador e vice, respectivamente. Grande campanha, cujo desenrolar será estudado mais adiante, em outro fascículo. Dois anos mais tarde o "major", acostumado a vencer, obteve sua primeira derrota na política; não conseguiu se eleger senador da República. Ficou muito frustado, como se pode constatar, através dessa declaração, citada por Raimundo Alves de Souza: "Fiz tudo para ter o padre como companheiro de disputa das vagas no Senado. Desejava ver dois pessedistas vitoriosos. Porém esqueci que tem mais capelas, igrejas e santuários que diretórios do PSD. E o padre teve mais votos do que eu". Pouco tempo depois, assumiu o cargo de vice-governador, na vaga deixada por monsenhor Gurgel, eleito senador. Assumiu também a presidência da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Norte. Como político, é claro, possuía uma visão coronelística. Tudo era válido, contando que levasse à vitória: "ameaça, suborno, pedido humilde, favores, traições, tudo". Em sua fazenda Irapuru, recebia os visitantes com grandes festas. Possuía duas bandas, uma integrada por homens e outra composta totalmente por mulheres. Certa vez, recebeu uma turma de alunos e professores de uma escola do município de Natal, soltando foguetões e com desfile de duas bandas. Uma moça, ao sair do ônibus, descascava uma laranja para comer. Theodorico viu e ordenou que a estudante guardasse a laranja porque, caso contrário, não teria fome na hora do almaço. E foi servido realmente um grande banquete, farto em alimento e bebidas... Theodorico Bezerra, inteligente e trabalhador, sabendo tirar proveito da influência que desfrutava na política, conseguiu somar uma grande fortuna. Em suas fazendas chegou a produzir, às vezes, mil quilos de algodão. Possuiu ainda duas usinas de beneficiamento de algodão; três fábricas de óleo, e uma refinaria de óleo, informa Maria do Nascimento Bezerra. Em Natal, dirigiu o Grande Hotel, que teve um papel de destaque durante a Segunda Guerra Mundial, considerado como sendo o melhor da cidade. Sobre Theodorico Bezerra, nesse período, Clyde Smith Junior fez a seguinte observação: "um norte-rio-grandense simpatizante dos alemães, mas interessado principalmente em dinheiro"... Foi dono da Rádio Trairi e do Jornal do Comércio de Natal. Quanto morreu, já não desfrutava do prestígio de outrora.
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