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Guerras e negócios

Invasão do Nordeste brasileiro pelos holandeses teve motivações políticas e objetivos econômicos

O pano de fundo histórico para os massacres dos colonos portugueses na capitania do Rio Grande, em 1645, foi a ocupação holandesa de boa parte do Nordeste brasileiro. A invasão, iniciada em 1624 com a ocupação de Salvador, na Bahia, teve motivações políticas e objetivos econômicos. O expansionismo holandês no século XV fazia parte da redistribuição de poder entre as nações da Europa. Impulsionada pela atividade de banqueiros e comerciantes, pela filosofia empreendedora do Iluminismo e pela guerra de independência contra a dinastia dos Habsburgos, que ocupava o torno da Espanha, a Holanda disputava um lugar entre as superpotências da época.

Portugal e Espanha, unidas sob um mesmo trono desde 1580, eram donas das maiores porções do Novo Mundo e do comércio entre a Europa, África e Ásia, mas já mostravam sinais de decadência após o esforço desprendido para as grandes navegações das descobertas nos séculos XIII e XIV.

Endinheirada, a sociedade holandesa da época desenvolvia novos estilos nas artes, inovava nas técnicas e pesquisava nas ciências. Adeptos das religiões protestantes de Lutero e Calvino, nascidas do movimento da Reforma, os holandeses não discriminavam os judeus tanto quanto os países católicos. Com isso, receberam refugiados, capitais financeiros e conhecimentos com os quais subsidiaram as operações de conquistas além-mar.

Atacar as colonias espanholas no além-mar constituia um objetivo estratégico. Mas, também havia a perspectiva de lucros. Mercadores e banqueiros holandeses criaram em 1621 a Companhia das Índias Ocidentais, uma empresa privada que recebeu do governo da Holanda o monopólio do comércio, navegação e conquista em toda a área entre a Terra Nova (atual norte dos EUA) e o Estreito de Magalhães (atual sul da Argentina), de um lado do Atlântico, e toda a costa oeste africana.

O Nordeste brasileiro foi escolhido como alvo porque, uma vez conqusitado, ofereceria bases a partir das quias a forta holandesa poderia prejudicar as rotas comerciais da cana de açucar, abastecido pelo Brasil, e de prata, suprido pelas minas do Peru. As contas feitas pela companhia, para a invasão do nordeste brasileiro, mostravam que a campanha ciustaria 2,5 milhões de florins. Eperava-se que a nova colonia renderia, por ano, oito milhões de florins.

O negócio da Companhia das Índias

As primeiras incursões holandesas à costa brasileira datam de 1615, quando uma expedição comandada por Joris van Spilbergen foi aprisionada no Rio de Janeiro. Em abril de 1624, uma frota de 26 navios bem armados e equipados com 3.300 homens pagos pela Companhai das Índias Ocidentais, atacou Salvador. Em maio, as tropas desembarcaram e tomaram a cidade, mas não conseguiram penetrar no interior. Protugueses e brasileiros fizeram movimentos de guerrilha, resistiram ao invasor e um ano depois, com o reforço de uma esquadra enviada por Portugual e Espanha, reconquistaram Salvador.

Os holandeses compensaram a derrota na Bahia conquistando Recife e Olinda, em fevereiro de 1630. A expedição tinha 67 navios e sete mil soldados. A resistência luso-brasileira, concentrada em arraiás fundados no interior e sempre atuando com táticas de guerrilhas, se estendeu por cinco anos. Usando Pernambuco como base, os holandeses passaram a devastar engenhos e lavouras, ameaçando e aterrorizando a população para que não ajudassem os resistentes.

Ações militares maiores comandadas pelo conde João Maurício de Nassau-Siegen, entre 1637 e 1641, consolidaram o domínio holandês. As capitanias e as fortalezas de Itamaracá, Paraíba, Sergipe, Rio Grande e o Maranhão foram ocupadas. Portugal, que havia se separado do trono da Espanha, negociou uma trégua com a Holanda e os próximos anos foram de relativa paz.

Diferentes em tudo dos portugueses, os holandeses chegaram ao Brasil sem a intenção de se fixarem na terra. Poucos trouxeram ás famílias. O objetivo era enriquecer rápido explorando os recursos naturais do país ocupado. Mas, apesar disso, contribuiram para o avanço social, econômico, cultural e científico.

O périodo de maior efervercência cultural e artistícia foi o governo do conde João Maurício de Nassau-Siegen (1637-1644), quando artistas europeus visitaram e pintaram o nordeste brasileiro, ergueram-se monumentos, pontes, jardins e prédios de nova arquitetura, diversificou-se as culturas agrícolas nos engenhos e iniciou-se estudos científicos na área da astronomia, topografia, meteorologia e do uso que os índios faziam de plantas medicinais.

Na capitania do Rio Grande, no entanto, não se viu nada disso. Aos holandeses interessava das terras potiguares apenas as lavouras de mandioca para o fabrico da farinha e os rebanhos de gado, considerados os mais numerosos da região. Fontes da época e historiadores, citados por Luis da Câmara Cascudo, falam em 20 mil cabeças. Talvez fossem menos, mas é indiscutível que Olinda, Recife e Itamaracá - núcleos urbanos dos holandeses - dependiam desse rebanho para o abastecimento de carne e de força animal para trabalho nos engenhos que estavam sendo reativados.


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