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INSEGURANÇA - Moradores das Rocas vivem a paranóia da violênciaSangue no noticiário local. Está lá (mais) um corpo estendido no chão. A população sai às ruas, exige policiamento. A polícia pára, reivindica melhores condições de trabalho. Os bandidos agem. O crime segue. O medo se espalha.
A julgar pelo registro de crimes nos jornais, não vai causar espanto se o RN fechar 2006 com uma estatística recorde de violência. Desde o início do ano, homicídios — alguns deles bárbaros — são noticiados quase diariamente. De janeiro a março, segundo dados do Instituto Técnico e Científico de Polícia (Itep), ocorreram 130 assassinatos somente na Grande Natal. E ainda falta contabilizar abril e as duas primeiras semanas deste mês.
Somam-se aos homicídios outros delitos com conseqüências graves. Assaltos a ônibus e alternativos que circulam dentro de Natal e também a transportes intermunicipais, por exemplo, tornaram-se uma constante. Crimes que têm sido marcados por grande violência psicológica e física; terminando com motoristas feridos, vítimas de tiro, e passageiros brutalmente espancados, e até violentados sexualmente.
Em um dos últimos assaltos do tipo, ocorrido entre a Paraíba e o RN, no dia 20 de abril, o alvo foi uma van que levava para Caicó estudantes universitários. Era de tarde quando três assaltantes, que se passavam por passageiros, renderam as pessoas que viajavam no transporte. Elas foram amordaçadas, os homens deixados amarrados nus no local e as mulheres levadas para Parelhas, distante 100 quilômetros do local do assalto. Duas delas foram estupradas. Uma estava grávida de nove meses.
Nessa semana houve mais cenas de violência. Na noite de terça-feira, 9, três homens armados assaltaram um mercadinho em Neópolis e, a 50 metros do estabelecimento comercial, mataram a tiros o autônomo Alex Fernando de Santana Brito, 36 anos, para roubar-lhe o carro e poderem fugir.
Acuada e indefesa, a sociedade, procura explicações para tanto crime atroz. O comerciante Sydney Araújo, dono de uma farmácia que foi assaltada nas Rocas, reverbera o sentimento da população ao pedir policiamento.
O também comerciante Gilberto de Souza, proprietário de uma drogaria que foi alvo de assalto recente, cobra, além de policiamento, o fim da impunidade. “Os bandidos fazem o que fazem porque a Justiça é muito frouxa. O camarada comete um crime, mas só pode ser preso em flagrante; adolescentes ficam impunes, amparados pela lei”, diz.
O professor do Departamento de Ciências Sociais da UFRN, doutor Edmilson Lopes Júnior, que está concluindo uma pesquisa sobre o crime organizado no Rio Grande do Norte, tenta explicar a violência à luz das relações sociais.
Para ele, determinar a relação causa-efeito não é tão simples. “A exteriorização de demonstrações de posses de bens contribuem para o reconhecimento — esse elemento central para nossa existência — e também fornece elementos para as identidades sociais. Mas, isoladamente, não podemos tomar uma dimensão da vida social como elemento explicativo forte do aumento da criminalidade”.
Mais importante do que o consumo, pensa o sociólogo, é a emergência do que ele denomina “sociabilidade instrumental”. “Com esse termo eu quero me referir a uma situação na qual o outro é percebido apenas como meio para que eu atinja determinados objetivos. E o outro lado da ausência de reconhecimento é o ressentimento”.
Rocas vira uma terra sem lei
Rocas. A noite deita seu manto negro sobre o bairro. Nem é tão tarde. São apenas 19h horas, mas na rua Expedicionário José Varela, o comerciante Sydney Araújo apressa o fechamento de sua farmácia. Mesma coisa faz Gilberto de Souza, dono da drogaria em frente. Ele acelera o passo para encerrar o expediente mais cedo, antes que tudo vire um esquisito só.
Paranóia coisa nenhuma. Uma seqüência de assaltos recentes no bairro, tendo como alvo principalmente pontos comerciais, explica o cuidado dos dois comerciantes. Não é exagero dizer que quem mora ou trabalha nas Rocas está apavorado com a violência que “tomou de assalto” o lugar.
Na loja Doce Magia, instalada há dez anos em uma rua central do bairro, os funcionários trabalham achando que em qualquer instante assaltantes armados podem entrar lá novamente, como aconteceu no dia 27 do mês passado. Entre março e abril, uma mesma padaria foi arrombada duas vezes. No dia 20 de fevereiro, um morador do bairro, Nélio Araújo da Silva, 23, foi assassinado a tiros quando bebia com amigos em um bar. Na madrugada de 17 de abril, outro jovem, Osmar Pereira da Silva, 18, foi morto a tiros.
Sydney Araújo conta que em duas semanas 18 comércios foram assaltados no bairro. A farmácia dele foi um dos alvos. Na noite do dia 1º de abril, quatro rapazes, dois deles armados de revólver, assaltaram a drogaria. Os bandidos não estavam brincando. Levaram mercadoria e dinheiro. Na noite anterior, um grupo de assaltantes (acredita-se que tenha sido o mesmo) havia feito o “rapa” na farmácia de frente.
Depois do assalto, o dono, Gilberto de Souza, passou a fechar o estabelecimento mais cedo. No domingo, dia em que há pouco movimento na rua, ele nem abre mais. Já Sydney Araújo costumava cerrar as portas de sua drogaria às 23 horas da noite. Agora, dependendo do movimento na rua, às 20 horas ele já está fechando tudo.
Sydney mostra-se espantado com a violência, dizendo que a onda de crimes no bairro é coisa recente. “Essa farmácia nunca havia sido assaltada. E ela tem 35 anos”. Em 50 anos, a drogaria de Gilberto também nunca havia sido assaltada.
Os dois apontam a impunidade e a falta de um policiamento eficaz como fatores responsáveis pela violência nas Rocas. “Com o policiamento que temos, precário, a gente se sente desprotegido. Faltam condições para se fazer um trabalho de investigação, que compete à polícia civil, e de repressão, de responsabilidade da Polícia Militar”, opina Sydney.
“Além da falta de aparelhagem policial, o que colabora para a violência, no caso da gente, é a impunidade. Todo mundo, inclusive a polícia, sabe quem está aterrorizando as Rocas. São pessoas próximas daqui mesmo, alguns deles adolescentes. Eles agem se confiando na lei, que os protege”.
A falta de segurança nas Rocas já afeta o ensino. À noite, a Escola Estadual Café Filho está liberando as turmas um pouco mais cedo. A medida foi adotada, segundo a diretora Maria Goretti Fernandes Rocha da Costa, para atender ao pedido dos professores. “A sugestão partiu principalmente daqueles que moram em outros bairros e dependem de ônibus. Foi exatamente com medo da violência no bairro”.
“A violência está sempre crescendo”
TRIBUNA DO NORTE: O noticiário tem mostrado, diariamante, uma seqüência de crimes ocorridos nesses primeiros meses de 2006. Pode-se falar em escalada da violência?
Edmilson Lopes: Faço referência a um livro denominado “Cidade dos muros”, de autoria de uma antropóloga chamada Teresa Pires dos Rios Caldeira. Nessa obra, fruto de quase duas décadas de pesquisa em São Paulo, a pesquisadora propõe a idéia de que as conversas sobre o crime e a violência são constitutivas da realidade cotidiana das grandes cidades. Essas “falas do crime” tanto descrevem quanto, de certo modo, “constituem” a violência urbana. Quer dizer, apontam os dados que servirão de evidência de que a violência está sempre num crescendo. E essas “falas do crime” se apoiam, cada vez mais, nas narrativas produzidas pela mídia. A “cultura do medo” é, de algum modo, um subproduto da proliferação de imagens e discursos sobre a criminalidade. Um seqüestro multiplica-se em um acontecimento a ser dramatizado em todos os canais televisivos. O telespectador vai teclando o seu controle remoto e assistindo ao desdobrar do mesmo acontecimento, e isso só aumenta a sensação de insegurança.
A população reclama de falta de policiamento. O crescimento (aparente) da violência é conseqüência da ausência do Estado?
EL: O problema é que tudo se passa como se mais Estado fosse garantia de maior adesão à Ordem. Esse tipo de elaboração não leva em conta o sentido que a ação criminosa tem para os seus agentes. E mais: os valores que servem de referência para as suas ações. Ora, a criminalidade, especialmente aquela organizada (tráfico de drogas, roubo de cargas, assalto a bancos, etc.), não se constrói contra o Estado. Ela está ao lado, subordinada a uma lógica que, quando vamos ver mais de perto, não é muito distante daquela que impera no conjunto da sociedade: o acúmulo de bens materiais e de algum reconhecimento social no menor espaço de tempo possível. Por outro lado, deixa-se de levar em conta o fato inconteste de que, nos últimos vinte anos houve um crescimento muito grande das políticas públicas de inclusão social. E soma-se a isso a presença cada vez maior de agências estatais nos mais distantes rincões do país. Só um dado: os assaltos a agências bancárias no interior do Nordeste cresceram proporcionalmente ao crescimento de repasses de recursos do governo federal para os municípios.
Costuma-se associar a fome e a pobreza à violência (causa/efeito). Essa explicação lhe satisfaz?
EL: A associação entre fome, pobreza e violência, quando utilizada para analisar a criminalidade é desastrosa por diversos ângulos. Em primeiro lugar, porque é a reprodução de um velho discurso a respeito das “classes perigosas”. De forma irônica, poderíamos dizer que, de algum modo, esse discurso é revelador de uma certa consciência dos “de cima” sobre o quão desastroso é o fosso social que marca a distribuição de rendas no Brasil. Em segundo lugar, essa associação é equivocada porque, cega pelo etnocentrismo de quem a formula (geralmente boas almas oriundas da classe média), “esquece” que a pobreza e a fome são violências em si mesmas. E, em terceiro lugar, é uma associação desastrosa porque ajuda a construir, na realidade, aquilo que afirma no discurso.
A crise da família e da religião serve como justificativa?
EL: Não. Obviamente as pessoas sempre vão recorrer a evidências esparsas para mostrar o contrário. Esse tipo de raciocínio é bastante difundido e, muitas vezes, é um bálsamo para muita gente. Por que? Ora, se a crise é um elemento explicativo, então “recuperemos” e reconstituamos as instituições (família e igreja) que estão em crise. Isso pode, no máximo, render conversões, mas altera muito pouco o problema. E, aqui, mais uma vez, trabalha-se com um modelo que não corresponde em nada à realidade. Por exemplo, de que família estamos falando? Ora, no Brasil quase um terço das unidades familiares são chefiadas por mulheres. E essa idealização da vida familiar como “um refúgio em um mundo sem coração” esquece de um dado: a violência contra as crianças e contra a mulher, no Brasil, ocorre predominantemente no seio da família. O molestamento sexual, os estupros e os assassinatos de mulheres não parecem confirmar essa idealização da família. Com a religião ocorre a mesma coisa. Ora, nenhuma instituição, por mais importante que seja, pode se constituir (a não ser nos devaneios dos fundamentalistas) em anteparo diante de um mundo em mudanças radicais que afetam profundamente as nossas vidas nas suas mais íntimas dimensões.
A valorização dos bens de consumo teria, para você, mais sentido?
EL: Não se trata, obviamente, de fazer uma avaliação moralista do consumismo. Entretanto, o reconhecimento — esse elemento central para nossa existência — passa, nos dias que correm, cada vez mais pela exteriorização de demonstrações de posse de bens. E o consumo, não podemos esquecer, também fornece elementos para as identidades sociais. Isoladamente, não podemos tomar uma dimensão da vida social como elemento explicativo forte do aumento da criminalidade. Mais importante do que o consumo, penso eu, é a emergência do que eu denomino “sociabilidade instrumental”. Com esse termo eu quero me referir a uma situação na qual o “outro” é percebido apenas como meio para que eu atinja determinados objetivos. A cooperação, quando ocorre, é mais imposição técnica do que resultado de solidariedade e cooperação emocional. E isso não ocorre em um espaço isolado. Esse é um traço presente na esfera da sexualidade, nos negócios e na vida familiar. E o outro lado da ausência de reconhecimento é o ressentimento. Não é por outro motivo que em crimes como seqüestros ou roubos de automóveis luxuosos os criminosos procurem sempre colocar as suas vítimas em situações de extrema vulnerabilidade e humilhação.
Ocorrências
• 4 de janeiro, quarta-feira
Panificadora em Ponta Negra é assaltada pela terceira vez em menos de dois meses. No bairro, um mercadinho fecha as portas depois de ser assaltado.
• 6 de janeiro, sexta-feira
Dois crimes, com indícios de execução, acontecem nesse dia. O auxiliar de pedreiro Paulo Gomes Alves, 21, é assassinado perto de casa, em Felipe Camarão. No conjunto Panorama II, o agricultor José Luiz da Silva, 40, é morto com quatro tiros.
• 9 de janeiro, segunda-feira
Quatro homens armados de revólver matam o comerciante Pedro Borges de Oliveira, 62, dono de um mercadinho e de um depósito de gás de cozinha em Cidade Nova. Outros cinco assassinatos são registrados durante o fim de semana.
• 7 de fevereiro, terça-feira
O caminhoneiro José Batista da Silva, 49, é executado com dez tiros, dentro da própria casa, em Parnamirim, por dois motoqueiros que se passaram por amigos dele.
• 8 de fevereiro, quarta-feira
O corretor de automóveis Helder Gil Nascimento Cavalcante, 26, é executado com sete tiros na principal avenida do conjunto Amarante, em São Gonçalo do Amarante.
• 20 de fevereiro, segunda-feira
Nélio Araújo da Silva, 23, é assassinado quando bebia em um bar com amigos nas Rocas. Do sábado para a segunda, o Itep registra outros cinco homicídios.
• 7 de março, terça-feira
O vendedor de carros usados Cleber Gustavo da Cruz Felipe, 30, é assassinado à noite com um tiro na cabeça e tem o corpo abandonado no porta-malas do próprio veículo, no loteamento José Sarney, zona Norte.
• 13 de março, segunda-feira
O vigia Francisco de Assis da Silva, 42, e o filho dele, Francisco Tiago da Silva, 14, são executados no leito do Rio Potengi, na comunidade de Chã do Moreno, distante 28 quilômetros de Natal, em São Gonçalo do Amarante.
• 23 de março, quinta-feira
O gerente de contas da agência do Banco do Brasil do Centro Administrativo, Gustavo Cromewll Dantas Tinôco, 46, é assassinado com um tiro na cabeça, às 21h, instantes depois de sair do supermercado Nordestão de Cidade Jardim.
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