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COMEMORAÇÃO - Amigos se reuniam para fazer “assaltos”A festa mais popular do Brasil já está agitando Natal. Hoje em dia, o esforço para as pessoas se manterem na cidade durante o carnaval é grande: alguns porque acreditam que a comemoração vale à pena e se esforçam para atrair mais gente, outros que vão em busca das maiores festas do Brasil e sofrem se têm que permanecer aqui. Entretanto, muitos não sabem que Natal já teve a terceira maior celebração carnavalesca do país.
Relatos populares observam que no fim do século XIX para o início do XX, já existiam comemorações na Ribeira e algumas poucas na Cidade Alta. A partir da década de 1920, entretanto, já são mostrados estudos que revelam desfiles de blocos. A professora e pesquisadora de História da UFRN, Flávia de Sá Pedreira, que ano passado lançou o livro “Chiclete eu misturo com banana: Carnaval e cotidiano de guerra em Natal (1920-1945)”, estuda o carnaval em Natal desde 1920 até o final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), período da Segunda Guerra Mundial e suas influências na cidade.
“Em 1927, período do temor pelos grupos de cangaceiros no interior do estado, houve a apresentação de um grupo carnavalesco chamado Bloco Lampião que, junto com outros, assaltavam as casas de amigos para beber, comer e dançar ao som de marchinhas e frevos. Depois, na Segunda Guerra, houve a formação dos blocos Bandeira da Itália e Bloco dos Fascistas”, diz ela. Apesar de seu estudo enfatizar o período do conflito mundial, Flávia descreveu sobre o que pesquisou a partir de 1920, momento de modernização e crescimento urbanístico em Natal.
Por exemplo, os assaltos eram uma comemoração entre amigos, que formavam blocos e seguiam à casas de conhecidos onde eram recebidos pelas famílias, tinham comida e bebida e levavam bandas de música. Além disso, os desfiles dos corsos - carros enfeitados que circulavam nas ruas como forma de passagem do carnaval, realizados na Ribeira, já se destacavam junto com os bailes no antigo Teatro Carlos Gomes, atual Alberto Maranhão, as batalhas de confetes, as troças, blocos de rua, as Tribos de Índios e os papangus.
Já em 1936, após o conflito na Ribeira pela revolução de Novembro de 1935, por ordem da prefeitura os blocos foram autorizados a desfilar na avenida Deodoro. Entretanto, troças como o Bloco Pinto Pelado, se recusavam a essa mudança e se mudaram para as ruas periféricas da cidade. Também no período da guerra é que vão começar a surgir as escolas de samba em Natal. “Com a passagem de marinheiros de outros estados, o samba foi sendo trazido à cidade”, explica Flávia, baseando-se em relatos do carnavalesco Rubens Pessoa.
Em um vídeo-documentário de curta-duração de Flávia, denominado “... de outros carnavais”, a historiadora entrevistou Rubens que conta a história das escolas de samba e as festas em Natal. “O samba começou no Alecrim, como uma pequena agremiação que chamava mais participantes para o grupo. Os pioneiros, como o Só Falta Você, Pioneiros do Samba, eram grupos de elite e as escolas só cresceram mesmo depois de 1940. Em um ano, chegou a ter 78 agremiações carnavalescas na cidade”, diz ele na entrevista.
Flávia observa que, durante a Guerra, no Rio de Janeiro, capital do país e do atual grande carnaval, a festa nas ruas não contou com o apoio da prefeitura carioca, enquanto em Natal era grande o incentivo à festa. “O prefeito da época era Gentil Ferreira, que também era presidente da Federação Carnavalesca de Natal, e o secretário de Cultura era Djalma Maranhão, grande incentivador da comemoração. As grandes festas, diferente do Rio, se deram porque aqui teve uma presença grande de americanos e as pessoas queriam mostrar nossa cultura, fazer o carnaval tipicamente brasileiro”, explica ela.
Durante a década de 1980, a pesquisadora não tem registros da festa na cidade. Provavelmente, foi muito delimitada, quase inexistente. Para Flávia, entretanto, o carnaval começou a decair em Natal depois do acidente de ônibus, que atropelou um bloco, matando 22 pessoas, em 1984. “As festas eram todas realizadas nas ruas, em áreas movimentadas. O acidente atemorizou a população. O carnaval aqui já estava decaindo, mas com o acidente, as pessoas começaram a fugir para o litoral”, lamenta a historiadora. Entretanto, ela diz ainda que existem muitos traços culturais típicos da cidade e, com valorização e divulgação, pode trazer um maior crescimento da festa no local.
Depoimentos de quem viveu os tempos áureos
Da evolução dos grandes bailes nos Teatro Carlos Gomes, os blocos de rua da Ribeira, o início dos desfiles das Escolas de Samba, as históricas Tribos de Índios, pouco restou. Apesar de toda a tentativa de revitalizar o carnaval esse ano, baseando-se nas antigas festas e tradicionais músicas, quem viveu a época carnavalesca mais popular não consegue mais imaginá-la em Natal.
A psicóloga Elza Dutra, que nos fins dos anos 60 e começo de 70 comemorou os bailes nos clubes e nos blocos de elite, chama quem deseja participar de retiros para vir a Natal nos carnavais dos últimos tempos. “Há muitos anos não se tem mais festas com amigos para comemorar, não celebra a cultura local nem é dado valor a isso, se quiser tem que ir para Salvador ou Recife”, retrata ela.
Nos fins dos anos 60 existiam vários blocos, como o Ynrra, Kings, Jardim de Infância, que só participavam amigos, geralmente conhecidos na sociedade, para fazer os assaltos nas casas e se divertir no carnaval local que, segundo Elza, eram muito mais animados. “Alugávamos caminhões, enfeitados por alegorias de carnaval, encomendávamos fantasias iguais, e íamos para diferentes locais na cidade, para as casas de conhecidos onde fazíamos os assaltos, éramos recebidos pelas famílias com bebidas, comidas e música. No último dia, após o bloco, o destino era o Grande Ponto e ainda pela noite os bailes com bandas de carnaval”, relata os dias de comemoração de 30 anos atrás.
Esses blocos de elite perduraram ainda até a década de 80, muito fraco, mas ainda com participação. Elza acredita que o carnaval chegou a atual decadência com o surgimento do trio elétrico, que chamou grande número da população a outros carnavais e ao surgimento do Carnatal. “Ele veio preencher o carnaval de rua, mas não é a mesma coisa. Os blocos daquela época eram para grupos fechados, com cerca de 30 pessoas, com as mesmas fantasias, mas era algo mais livre, doméstico, próximo, onde se firmavam amizades, não como no Carnatal, que tem três mil pessoas e é aquele tumulto”, explica Elza.
Já o idealizador e organizador do Muitos Carnavais, da Banda Migra e do bloco Maria Mula Manca, Dickson Medeiros, se dedica aos festejos carnavalescos há 31 anos e o crescimento dele nessa área veio como uma bola de neve. “Tudo começou quando eu tinha 15 anos e, com mais 24 pessoas, colocamos um bloco na avenida Afonso Pena. No ano seguinte aumentou para 70, no outro 130, hoje em dia não dá para saber quantas pessoas circulam no Muitos Carnavais”, diz ele.
Para Dickson, uma cidade que tem o melhor carnaval fora de época do Brasil, tem um evento multicultural, como o Muitos Carnavais, pode também funcionar com um grande carnaval. “Não é para imitar os grandes carnavais de outras cidades do país, mas trazer algo novo, propagar o que está planejado para a cidade, chamar os turistas, que geralmente vêm para descansar. Mas quem vai querer descansar se tiver algo atraente?”, pensa ele.
“Este ano estou organizando o 12º Congresso Brasileiro de Folclore, em agosto, aqui em Nata”, conta Dickson. Para as ações culturais funcionarem com sucesso, entretanto, Dickson acredita que deve haver um investimento maior do Governo e do Município. “Isso teria um grande retorno à cidade, pois muitos saem daqui para outros estados, e nós deixamos de receber esses investimentos”, finaliza ele.
Programação para todos os gostos
Esse ano, com a organização da Fundação Capitania das Artes (Funcarte) para o carnaval, os planos de festas cresceram muito. Só um dia de festa oficial passou e os seguintes ainda prometem bastante. A intenção é trazer a recordação dos antigos bailes, as marchinhas, o frevo, a dança e toda a festa de rua.
Ainda hoje, no pólo Multicultural Centro Histórico, no desfile do Bloco das Kengas é eleita a “Kenga do Ano” como destaque para a mais bonita e chamativa. Segundo Lula Belmont, fundador e presidente do bloco, eles vão distribuir etiquetas com números aos foliões fantasiados, que desejam concorrer ao importante posto e a eleição será feita por juízes já selecionados pelo bloco. Além desse desfile e do Galo Santa Cruz da Bica que ainda sai amanhã e terça-feira, algumas bandas e cantores locais irão se apresentar, como Valéria Oliveira e Krhystal, que fecha a noite do pólo na terça.
Na avenida Praia de Ponta Negra, hoje tem o desfile da Troça do K-1 e show com Carlança. Amanhã continua a festa com o desfile de Bonecos e show de Rodolfo Amaral, finalizando na terça com os Jaraguás e Valéria Oliveira. Na Ribeira, até amanhã de noite, cinco Tribos de Índios vão desfilar na avenida Duque de Caxias, seguidos por oito Escolas de Samba que disputam a melhor posição em 2006. Os desfiles começam às 20h.
Além das escolas e tribos que desfilam na Ribeira, troças, blocos e bandas se apresentam em diferentes locais do bairro. Da mesma forma ocorre com a programação na Redinha. Onze blocos, seis bandas e quatro cantores ainda se apresentam no Terminal da balsa.
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