Alex Medeiros
1972, o começo do caminhar
Publicado: 00:00:00 - 02/01/2022 Atualizado: 11:50:55 - 01/01/2022
Alex Medeiros
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Aos 13 anos conheci o escritor alemão Herman Hesse, numa noite de 1972, o livro posto numa mesinha de centro de tampa verde com cordas de plástico vermelho embaixo. Era uma edição de Demian, publicado em 1969 pela Civilização Brasileira. A narrativa nietzschiana não entrou bem, mas me levou a um outro livro dele, de poemas, onde para sempre guardei “Andares”:

Subindo a pé na contramão da Avenida Mário Negócio, nas Quintas, era uma alternativa rápida e econômica para um moleque dispensar o uso do ônibus em direção ao vizinho Alecrim. O destino era o Colégio Estadual Padre Miguelinho, que em fevereiro de 1972 estava apinhado de adolescentes recém-aprovados no Exame de Admissão, a ponte curricular entre o primário e o ginásio.

Meu nome aparecera nos jornais, que naquele tempo publicavam o resultado, como faziam com o vestibular. E lá dizia que eu começaria o ginásio na escola do Alecrim, o bairro barroco, segundo Caetano Veloso. Cheguei na companhia de alguns colegas, oriundos do Grupo Escolar Felizardo Moura.

Centenas de garotos e garotas buscavam, em listas afixadas nas portas e paredes, a sala para o primeiro dia de nossas vidas ginasianas. Sobraram umas duas dúzias de pivetes, sem seus nomes nas listas. Uma senhora com muitos papéis nas mãos desfez o mistério. Iríamos para o Centro ou Petrópolis.

Eu já tinha uma afetividade atávica com a Escola Estadual Winston Churchill, na Avenida Rio Branco. Fora erguida sobre os escombros do velho quartel do 21º Batalhão de Caçadores, onde meu pai serviu ao Exército nos anos 30/40.

A transferência foi rápida e me encheu de alegria. O ano de 1972 estava começando muito bem para mim, assim como começara para o presidente americano Richard Nixon, eleito homem do ano pela revista Time em janeiro.

Do Alecrim ao Centro fiz o percurso num ônibus da empresa União, que fazia a linha Rocas-Igapó. Era um veículo que lembrava a camisa do Bangu, com sua lataria em listras brancas e vermelhas. Desci na calçada do Curso Delta, em frente ao colégio, onde também havia um boteco que seria providencial.

A chegada no Churchill foi uma alegria maior do que o carnaval que acabara de acabar. A quarta-feira de cinzas foi de festa no meu bairro, onde a escola de samba Imperadores do Samba ganhara mais um título de melhor fantasia. Entrei atrasado no primeiro dia de aula. Comigo, um garoto desgarrado do Atheneu e que se tornaria um irmão pela vida afora. Terça-feira prossigo o caminhar há cinquenta anos.

Reprodução

Butantã
Nada como a máxima de que o tempo é senhor da razão. Em abril de 2021, o perfil do Instituto Butantã acusou de negacionistas aqueles que diziam que era preciso uma terceira dose da vacina Coronavac. Já pensam na quarta dose.

Controle
Nem o regime militar tentou controlar a presença de estudantes nas universidades, apesar de ser fácil identificar preferências ideológicas. Agora, a esquerda quer que o MEC exija passaporte sanitário para acesso aos campi.

Ajuda
Qualquer ajuda da Argentina ao Brasil, representada em número de profissionais, só terá efeito prático por aqui se for com jogadores de futebol. Nas demais atividades, nosso país não precisa mesmo dos vizinhos hermanos.

Panfleto
Apesar do mundo digital extinguir as velhas relações de trabalho enaltecidas nas teses de Karl Marx, o cineminha nacional segue panfletando ao proletariado, como agora nos filmes “A Máquina Infernal” e “Chão de Fábrica”.

Cinema
No Ceará, o governador Camilo Santana (PT) sancionou dia 29 a lei que cria o Ceará Filmes, uma espécie de Embrafilme cabeça chata, com verba para o audiovisual como um todo. A nova lei está no Diário Oficial do vizinho estado.

1922

O ano do centenário da Semana de Arte Moderna começou polêmico com a entrevista de Ruy Castro no Estadão. O escritor desmitifica alguns astros do movimento revelando artistas que já eram vanguarda antes da semana famosa.

Centenário
O titular da Funcarte, Dácio Galvão, já tem um planejamento para festejar em Natal os 100 anos da Semana de Arte Moderna, que aqui teve representantes como Câmara Cascudo. Executar a ideia só depende agora das parcerias.

Barraco
Lembram das luluzinhas que protagonizaram em novembro a big fest abastecida com o vinho rosé Alice Grapeland? Durante o réveillon de uma delas, o marido com ciúme retroativo usou uma garrafa para dar-lhe um banho.

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