99 anos de Luiz Maranhão

Publicação: 2020-01-24 00:00:00 | Comentários: 0
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Alexandre de Albuquerque Maranhão
Historiador

A história desse norte-rio-grandense nascido em Natal, no dia 25 de janeiro de 1921, se entrelaça, verdadeiramente, com a história política do Brasil. Militante comunista, advogado, jornalista e professor de Geografia foi forçado a viver na clandestinidade. Nos anos que antecederam o regime militar de 1964, Luiz Ignácio Maranhão Filho tinha intensa atividade política, onde mostrava uma extraordinária capacidade para o diálogo e aceitação com o pluralismo de ideias. Foi preso, torturado e mandado para a ilha de Fernando Noronha. Libertado através de um habeas corpus, deu continuidade à sua militância política. O advogado e filósofo Leandro Konder resumiu desta forma a figura de Luiz: “conheci pessoalmente Luiz Maranhão, amigo querido de meu pai, Valério Konder. Pude perceber que, concordando ou discordando dele, qualquer interlocutor de boa-fé seria tocado por sua generosidade intelectual, por sua sinceridade e correção ética...”.

Em 10 de fevereiro de 1956, Luiz casou-se com Odete Roselli Garcia Maranhão em uma cerimônia simples, celebrada pelo cônego Luiz Wanderley, na Igreja Santa Terezinha, no bairro do Tirol. Jamais colocaram cadeiras na calçada nas tardes e noites daquela Natal, cidade provinciana. A vida atribulada em meio às perseguições políticas e à clandestinidade não os deixava em paz. A convivência era marcada pela troca de correspondências amorosas, cheias de saudades. Ele no eixo Rio-São Paulo, ela em Natal. Ambos tinham a consciência formada pela maturidade e sabiam que apesar da distância que os separava, um nutria pelo outro um amor e respeito incondicional.

Em 1958 foi candidato a deputado estadual pela Aliança Popular Nacionalista (PTN-PST e PSB), pois o PCB encontrava-se com o registro eleitoral cassado. Natal, Areia Branca, Macau e Mossoró foram os principais municípios que fizeram parte de sua base eleitoral. Eleito em 3 de outubro, Luiz Maranhão era presença marcante na Assembleia Legislativa. Intelectual com vasto conhecimento dos problemas nacionais destoava de grande parte de seus pares. Nas várias vezes que discursava no plenário, era sempre uma aula com rico conteúdo, que extrapolava as questões locais. Os demais deputados silenciavam para ouvi-lo: tinha credibilidade em defender suas posições políticas, com argumentos consistentes graças ao seu preparo intelectual.

Entendia como poucos que a política se realiza nas diferenças, no respeito mútuo entre as pessoas. Colocou esse princípio em prática, mantendo contatos diretos e reuniões constantes com o bispo de Natal Dom Eugênio de Araújo Sales e com o professor Ulisses de Góes, presidente da Congregação Mariana, associação pública de leigos católicos das mais conservadoras. Objetivo: criar uma cooperativa e organizar a Colônia de Pescadores do Canto do Mangue, no bairro das Rocas. Afinal, um dirigente do PCB, alvo das campanhas anticomunistas, muitas vezes com a participação direta de setores da igreja, dialogava de maneira respeitosa com dois importantes representantes que obedeciam rigorosamente à hierarquia dos princípios religiosos conservadores.

Na década de 1950 e início dos anos de 1960, a Igreja Católica começa a fazer a transição da teologia da Nova Cristandade, que era muito próxima dos grupos dominantes da sociedade para a teologia que virá a ser chamada de Libertação. É a grande mudança na Ação Católica: a Igreja abria-se para a questão social, aproximando-se das camadas médias e populares. Luiz Maranhão atento a essas mudanças discursava na Assembleia Legislativa chamando a atenção para a importância dessa nova escolha. Fato esse que permitiu o diálogo e o trabalho conjunto entre cristãos e marxistas.

Membro do Comitê Central do PCB nos de 1960, Luiz Maranhão defendeu a tática de ocupar todos os espaços do sistema vigente e somar forças em defesa da conquista das liberdades democráticas. Não era adepto da resistência armada contra o regime militar. Afirmava que: “era a favor da revolução nacional e democrática, por um desenvolvimento econômico democrático e independente, que abrirá o caminho para o socialismo”. Optou em aproximar-se dos setores progressistas da Igreja Católica. Organizou seminários, palestras e conferências para jovens católicos sobre liberdade de imprensa, denúncia de torturas, importância da Igreja Católica na América Latina e redemocratização do Brasil. O intuito era buscar soluções para pôr fim a crise brasileira.  

Lutou durante sua vida contra toda e qualquer forma de violência, opressão, intolerância e discriminação, para o chamamento ao diálogo, na defesa do humanismo e dos valores de liberdade, igualdade e justiça. No entanto, foi vítima da repressão e do arbítrio. Em março de 1974, Luiz Maranhão foi sequestrado e preso em São Paulo, pelas forças repressoras do delegado Sérgio Fleury. O martírio de Odete Maranhão não teve fim: dor, sofrimento e humilhação. Muitas foram as lágrimas derramadas entre um quartel e outro à procura de seu marido. Ela não cumpriu o grandioso gesto das sociedades civilizadas: o rito natural do sepultamento de seu esposo. Não se conseguia saber notícia alguma dos desparecidos políticos. As famílias jamais puderam sepultar seus mortos.





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