“A energia solar é uma opção mais econômica para o Brasil”

Publicação: 2017-02-12 00:00:00 | Comentários: 0
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Sara Vasconcelos
Repórter


Na contramão da crise econômica e  financeira, o setor de energia solar fotovoltaica registra crescimento e o com crescimento de 322% em número de sistemas em 2016 e projetando repetir o desempenho em micro e minigeração em 2017,  com mais de 150 MW de geração operando na matriz elétrica brasileira. Mas não é apenas neste nicho que eles comemoram resultados. O desempenho é atribuído ao fato da tarifa de energia estar mais cara, o preço dos equipamentos ter reduzido no mercado internacional e aqui também, o que torna a solar mais competitiva. “De fato, apesar da economia brasileira andar para trás, com crescimento negativo nos últimos anos, o segmento de energia solar fotovoltaica não acompanhou essa direção. Mais pessoas perceberam os benefícios e a economia gerada com esta fonte”, disse o presidente executivo da Associação Brasileira de Energia Solar (Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica), Rodrigo Sauaia. Em entrevista concedida em Natal, onde participou esta semana da Solarinvest – promovido pelo Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (Cerne) e a Viex Américas - ele alertou sobre o risco de deficit de garantia física, a partir de 2019, a economia que a geração solar pode proporcionar na conta do consumidor na comparação com o acionamento das termeletricas e   afirmou que o cancelamento do leilão de energia, que aconteceria no final de 2016, frustrou expectativas e gerou desconfiança entre os investidores nacionais e internacionais, por isso a necessidade de estabelecer um cronograma regular de contratação em leilão, com 2 mil MW, por ano. Confira.
Ana SilvaO presidente executivo da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica, Rodrigo Sauaia, fala sobre expansão e perspectivas para a energia solar no RN e no paísO presidente executivo da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica, Rodrigo Sauaia, fala sobre expansão e perspectivas para a energia solar no RN e no país

O setor de energia solar segue em expansão. A que se deve esse movimento na contramão da economia?
De fato, apesar da economia brasileira andar para trás, com crescimento negativo nos últimos anos, o segmento de energia solar fotovoltaica não acompanhou essa direção. O nosso PIB em 2015 reduziu 3,5% enquanto o PIB do setor de energia solar fotovoltaica, na geração distribuída, cresceu 320% em 2015 saindo de 426 sistemas em 2014 para 1.827 sistemas em 2015. E em 2016 repetiu o bom resultado com crescimento de 322% saindo desse patamar para 7.662 sistemas. Deste total, mais de 7,5 mil são sistemas da solar fotovoltaica, o que representa 98,8% dos sistema de micro e minigeração distribuída.

Isso se deve ao que?
Ao fato da energia solar fotovoltaica se tornar mais competitiva, o preço dos equipamentos reduziu no mercado internacional e aqui também. Nos últimos 10 anos a redução dos custos foi de 80%, sendo 20% só em 2016. E também a tarifa de energia tem se elevado nos últimos anos, pressionando as contas de pessoas e empresas. Com a conta mais cara, mais pessoas tem buscado os sistemas como alternativa mais barata, sendo mais barato gerar no seu telhado do que comprar energia da rede. Além disso, esse crescimento se deve a melhorias regulatórias, entraram em vigor em março as os aprimoramentos da Resolução Normativa 687/2015 da ANEEL e com isso há novos mecanismos de compensação de geração mini e micro de energia que geraram novos modelos negócios, na geração compartilhada, autoconsumo remoto e geração condominial. Isso permitiu que os geradores empreendedores oferecerem de forma mais competitiva e mais democrática.

Mais barato quanto a conta de luz com a microgeração?
Depende, porque cada distribuidora tem uma tarifa de energia elétrica. Depende do porte do sistema. Depende da necessidade do cliente também. Mas é importante destacar que leva de 6 a 12 anos, para se recuperar esse investimento, enquanto a vida útil do equipamento é de 25 anos ou mais, com garantia. O RN está mais próximo dos 6 anos.

As projeções apontam para mais um ano de pouca chuva. Nesse sentido, a geração fotovoltaica pode ser usada em alternativa às termelétricas e assim evitar o aumento na conta com a volta da bandeira vermelha?
Na geração centralizada de energia, hoje no Brasil, acontece que ao ser contratadas, essas usinas, tem um projeto e uma garantia de geração previstas, que seria uma previsão nominal e uma garantia física nominal, de papel, por assim dizer. E quando começam a operar percebe-se que esta garantia física as vezes é diferente, quando acontece isso, é menor. Seja porque o recurso é variável, como, falta de chuvas, a escassez hídrica, o assoreamento de rios que reduz o potencial das hidrelétricas. Quando isso acontece ocorre uma diferença entre a garantia nominal e a garantia real que é compensada com a contratação de energia reserva, por leilões de energias renováveis para mitigar esse risco de curto prazo. E em ano que não se faz contratação, para compensar essa diferença de geração acionam as termelétricas e é preciso pagar por esse custo mais alto que onera o consumidor. Se o Governo não realizar novos leilões, posto que cancelou o de dezembro do ano passado, a partir de 2019 essa falta de garantia física vai ser grande e vai precisar acionar as termelétricas. No ano passado, foram despachados 764 MW médio de energia a um preço de energia superior a R$ 300,00 o MW/h, ou seja, esse custo das termelétricas passou de R$ 1 mil o MW/h em energia operada em dezembro. E pode mitigar esse preço com as renováveis. Estamos sugerindo ao Governo no planejamento de longo prazo, aproveitar o potencial de energia solar fotovoltaica, que aqui no Nordeste é o melhor potencial do país, do ponto de vista de irradiação solar, para reduzir a quantidade de vezes e de períodos em que as termelétricas são acionadas e reduzir esse custo extra na conta do consumidor.

Ficaria em média mais barato quanto se em vez de acionar as termelétricas, optasse pela solar?
Não tenho os dados agora para fazer esse calculo. Mas para ter uma ideia, em 2015, quando o governo precisou mais das termoelétricas quase o ano inteiro isso significou um aumento médio de 50% na conta de energia elétrica do consumidor final. Em janeiro o Brasil despachou termeletricas a R$ 800, o MW/h, enquanto o Brasil pode contratar energia solar a menos de R$ 300 o MW/h.

E porque não é contratado solar, a geração não é suficiente? Não há capacidade instalada? O que é necessário para isso acontecer?
A fonte solar é jovem, os primeiros projetos contratados em leilões vão entrar em operação este ano, mais de 1 mil MW. A energia solar responde hoje por 0,02% da matriz energética do país. Só 80 MW. O problema acontece a partir de 2019 quando não existe contratação que leva risco aos empreendedores e na quebra de continuidade na estruturação da cadeia produtiva do setor no país. Para isso acontecer é importante que o Governo mantenha um cronograma regular de contratação de energia solar por meio de leilões. Estamos sugerindo uma média de contratação, por ano em leilão, de 2 mil MW, e uma meta de longo prazo de 30 GW até 2030. Esse é um dos temas que iremos [Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica] tratar essa semana em reunião com a EPE [Empresa de Pesquisa Energética] com recomendação de realização ainda neste primeiro semestre do leilão reserva.

Em dezembro, o Governo alegou uma “sobra de energia” para justificar o cancelamento deste leilão de reserva. Não existe na prática, já que o senhor aponta risco a partir de 2019?
Esse é um ponto interessante. Foi alegado uma sobrecontratação de energia que existe o papel. Quando a gente olha o que está em carteiras, contratos nas distribuidoras, em papel, há contrato para atender a demanda. Acontece que há obras em atraso, usinas que não começaram a produzir, linhões de transmissão que não foram entregues dos quais estes parques precisam, até com este problema com a situação da Abengoa [empresa espanhola que entrou em solvência] e, na prática, o que vemos é o Governo tendo que despachar com as termelétricas a R$ 1 mil o MW/h, mesmo tendo essa capacidade contratada no papel. Um leilão em 2017, teria todo essa redução de custos do equipamento, mais de 20%, e o Brasil poderia dispor de uma energia a um preço mais econômico, trazendo segurança energética, com uma fonte renovável, gerando empregos e reduzindo a conta do consumidor, deixando de pagar as termelétricas.
 
Em relação a infraestrutura, a solar sofre, como a eólica, a deficiência e atrasos de linhas de transmissão?
No ano passado, os dois setores foram afetados com a pouca margem de escoamento do setor elétrico, faltava linha de transmissão disponível. Quatro estados, o Rio Grande do Norte, Bahia, Ceará e Rio Grande do Sul foram proibidos de participar do leilão por isso. Ocorre que na energia solar fotovoltaica, um pouco diferente da eólica, até por uma característica do recurso ser melhor distribuído em todo o Brasil, os empreendedores estão estruturando para fazer as usinas em regiões onde existe malha de transmissão disponível. Apesar de Nordeste e Sul estarem mais congestionados, nas demais regiões tem espaço na malha para receber novas usinas. Repare que dos quase 13,4 mil MW em projetos previstos para este leilão, havia um número significativo em SP, MT, MG e TO, que somados com 4,5 mil MW, onde há essa disponibilidade. Trez vezes mais do que a nossa projeção de contratação de 1,5 mil MW.

Qual a posição do RN nesse mercado e o impacto que a exclusão deste leilão pode trazer?
O Rio Grande do Norte, do ponto de vista dos projetos operacionais, ainda não começou na energia solar fotovoltaica. Os projetos entrarão em operação a partir de 2017 e 2018. O estado é o sexto maior gerador de energia solar centralizada, em projetos contratados de usinas de grande porte para entrar em operação até o final do ano que vem, no ranking nacional, com um portfólio de 206,8 MW. E na distribuída, está em 12º lugar. O RN tinha 58 projetos inscritos para participar que representavam 1.640 MW de potência, ou seja, mais de 10% do portfolio do leilão estava aqui no estado. Sobre a exclusão do certame, foi feito uma análise técnica da margem de escoamento que foi considerada, um pouco conservadora. A gente entende as premissas adotadas pelo ONS e espera que, com o feedback dos empreendedores e de governadores que acreditam que o calculo poderia ter sido feito de outra forma, o ONS reavalie se pode ser feito de outra forma o cálculo, em especial considerando que um certame agora tenha o prazo de entrega diferente, mais para o final de 2019, pode ser que as linhas de transmissão entrem em operação. Isso precisa ser avaliado pelo Operador do Sistema para que o RN volte a concorrer aos leilões. O Estado pode ser bastante competitivo pela sinergia com a eólica, com a infraestrutura existentes, e incorporar os projetos fotovoltaicos em parques híbridos. Poucos estados do Brasil tem essa vantagem estratégica que o RN e isso deve ser usado a seu favor.

O que é preciso para expandir a geração?
É importante que os governos dos Estados tenham programas de incentivos mas também incluam nos programas de habitação popular dos Estados e nos edifícios públicos, a energia fotovoltaica. Como também ao MCMV, do Governo federal, para que sejam construídas já com o sistema incorporado. Para que esta parcela da população além de ter acesso a casa própria tenha também acesso a uma energia elétrica mais barata por meio de uma tecnologia renovável de baixo impacto. Uma campanha de conscientização da população sobre benefícios e redução dos custos com a energia solar fotovoltaica, fazer um mapa o potencial solar, por meio de um atlas e métrico associado informações da infraestrutura do Estado,  estradas, rodovias, para as obras, o acesso as linhas de transmissão, a topografia e avaliação da temperatura média do Estado para balizar a decisão dos investidores. Implantar um licenciamento simplificado feito via Estado.

Como o setor recebeu a notícia de que o RN pode ganhar a primeira fábrica de equipamentos fotovoltaicos (Um grupo chinês assinará protocolo de intenção com o governo do estado no dia 22, na China)?
É uma noticia bastante positiva, mas é muito cedo para comentar com profundidade porque ainda é um termo de intenções. Entre a intenção e a implantação pode haver um tempo difícil de prever. A sinalização em si é positiva porque demonstra que grandes grupos de investidores internacionais tem interesse de investimentos na cadeia produtiva no Brasil, sobretudo no Nordeste abriga parcela significativa dos projetos solares. Hoje, no Brasil, há cerca de 20 indústrias que fabricam equipamentos fotovoltaicos. A empresa chinesa deverá ser a primeira de fabricação de inversores fotovoltaicas e materiais elétricos a operar no Nordeste. O Nordeste já possui uma fabrica de estruturas de suporte, como rastreador solar, na Bahia. E há associados finalizando fábricas de módulos em Alagoas e Pernambuco.

E quais as projeções para 2017 para o setor?
Na geração distribuída a expectativa é de crescimento elevado em torno de 300% em número de sistemas no Brasil, projetamos fechar o ano com mais de 150 MW de geração operando na matriz elétrica brasileira e, somando com a centralizada, mais de 1 mil MW. Um crescimento de mais de dez vezes no período, em potência. Além da tarifa de energia elevada e do preço do equipamento ter caído, nós temos uma situação peculiar na região Nordeste tem uma linha de  financiamento para atender este segmento, a FNE Sol do BNB.  Há obstáculos que precisam superar é carga tributária sobre equipamentos do setor, que encarecem em 30% o preço do equipamento nacional em relação ao produzido lá fora, além disso, o Nordeste e o Centro Oeste já zerou o ICMS para a micro e minigeração da energia solar, mas precisamos fazer isso nas demais regiões. E crédito, porque a FNE Sol é para pessoa jurídica, não temos para pessoa física linhas, falta esse acesso ao crédito.


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