A águia pousou

Publicação: 2019-07-20 00:00:00 | Comentários: 0
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Alex Medeiros
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20 de julho de 1969. Faz hoje cinquenta anos daquilo que foi a maior conquista da ciência, o ápice de uma epopeia humana no século XX, o mais espetacular e espetaculoso momento da guerra fria protagonizada por Estados Unidos e União Soviética no tabuleiro geopolítico armado desde o fim da Segunda Guerra.

Era um domingo. Mais de meio bilhão de pessoas acompanhavam pela TV o pouso do módulo Eagle (águia) na Lua, que ocorreu às 16h18. Somente às 22h56 o pé esquerdo de Neil Armstrong tocaria o solo arenoso. Buzz Aldrin desce às 23h11 e às 23h41 os dois astronautas fincam a bandeira americana.

Quase um mês depois daquele feito, a revista Manchete circularia em todo o Brasil com uma reportagem especial sobre a chegada da nave Apollo 11 à Lua. “Sôbre fina camada de areia lunar, molda-se uma imprevista escultura: a forma da galocha de um astronauta”. A frase, com circunflexo, de Zevi Ghivelder.

O texto apropriado à gramática da época iniciava o curto editorial da edição especial com a data de 16 de agosto de 1969. Também a revista O Cruzeiro traria matéria especial, como já fizera a Veja na semana do pouso da águia. As capas dos jornais do mundo destacavam a Apollo 11 durante julho inteiro.

O nosso satélite deixava de ser um astro brilhante, solto na imensidão do espaço, e de interesse apenas dos namorados e dos poetas que voavam em órbita de um parnasianismo sem fim. A morada de São Jorge virou o centro das atenções, o núcleo da galáxia. A “pedra da Lua” ganhou notoriedade de joia rara.

O impacto da notícia de um homem andando em solo lunar, a superação do percurso espacial, a cobertura midiática com as imagens da televisão, tudo isso mudou a vida sobre a Terra. A grande foto em duas páginas de Edwin Aldrin instalando um sismógrafo no chão lunar era a consagração da raça.

Éramos os senhores do universo, uma minúscula espécie que conseguiu sair do seu mundo e viajar até outros, além das barreiras físicas e espaciais. A missão Apollo 11 conseguiu ser tema de todas as tribos filosóficas, dos executivos de Nova York aos universitários de Paris, dos militares latinos aos hippies de São Francisco.

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Científica para uns, filosófica para tantos, bélica para alguns, profética para muitos e lisérgica para outros. Todo mundo tinha um motivo e uma história para narrar em torno da conquista da Lua. Eu, com apenas 10 anos, vivia o clima de ficção com figurinhas de astronautas e os episódios sempre emocionantes da série de TV Perdidos no Espaço.

Entre os dias 20 de julho, quando o módulo da Apollo 11 pousou na Lua, e 18 de agosto, o último dia do Festival Woodstock na cidade de Bethel, em Nova York, a humanidade viveu mais transformações culturais e ideológicas do que todos os anos vividos até aquele período do século XX.

Dali em diante, eu vi a revista Manchete algumas vezes até consegui-la em definitivo para meu acervo de velharias gráficas. Quando passei suas páginas aos vinte e poucos anos, já com uma ideia pré-formada do mundo, foi rápido perceber a diferença de impacto visual em relação à primeira vez, na infância.

São imagens espetaculares, um documento dos mais valiosos em toda a História do homem. Talvez só superadas pelas imagens televisivas, que, dizem, foram perdidas pela NASA. Por mais que existam as teses conspiratórias sobre a farsa cinematográfica dos EUA, a viagem à Lua é um divisor de águas, ou de espaço.

Para as atuais gerações tão íntimas das mais incríveis tecnologias, acostumadas com a informática, o microcosmo dos chips, a ciência tornando real cada vez mais as coisas da ficção literária, talvez não entenda a grandeza e fenomenologia em torno do primeiro pouso de uma nave terráquea na Lua.

Os jovens de hoje, com seus potentes computadores instalados em casa, realizando em minúsculos celulares efeitos dignos dos grandes cineastas de antanho, talvez não consigam compreender que o enorme computador da Apollo 11 era menos potente do que uma simples calculadora vendida em camelôs.

Neil Amstrong, o comandante da missão, provavelmente não sacou do improviso para lançar à História o comentário “Um pequeno passo para o homem, mas um grande salto para a humanidade”. Deve ter partido da Terra já com o slogan pronto, fruto do eficiente marketing que enleva a sociedade norte-americana.

Outra frase muito badalada de Armstrong e considerada enigmática durante mais de vinte anos após a alunissagem do módulo e seu pisar sobre os astros, foi “Boa sorte, Mister Gorsky”, um cumprimento solto ao voltar para a nave, que sugeria um interlocutor com nome russo ou de outra nação do Leste Europeu.

Muito depois, quando a Lua já virara destino turístico, o astronauta revelou o mistério do comentário. Ainda menino, ouviu uma voz feminina, vindo da casa vizinha, dizendo: “sexo oral, só quando o filho do vizinho pisar na Lua”. E naquele momento histórico e solene, ele lembrou e felicitou o marido da vizinha.

Dez anos atrás, nos quarenta anos do feito de Neil Armstrong, Buzz Aldrin e Michael Collins, folheei a velha revista Manchete. E o fiz agora de novo. No mundo atual das redes sociais, das imagens digitais, dos megatelescópios revelando galáxias distantes, a emoção das fotos das câmeras Hasselblad, com lentes Zeiss Biogon, é a mesma do passado.

Um passado imutável como o prazer do casal Gorsky que se perpetua em cada casal do presente e do futuro. Porque a Lua, desde aquele domingo há cinquenta anos, passou a ser dos astronautas e mais do que nunca dos namorados e dos sonhadores. (AM)






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