A Última Ceia (2)

Publicação: 2020-01-23 00:00:00 | Comentários: 0
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Daladier Pessoa Cunha Lima
Reitor do UNI-RN

Terminei a crônica anterior com a ênfase do uso dos gestos das mãos e da linguagem corporal tão presente na obra A Última Ceia.  Volto ao tema, desta feita com a citação de um ótimo livro – como sempre – de Câmara Cascudo, História dos Nossos Gestos (1973), no qual o autor demonstra sua impressionante amplidão cultural. Nas páginas primeiras, diz Cascudo:  “O gesto é anterior à palavra.  Dedos e braços falaram milênios antes da voz. O gesto é a comunicação essencial, nítida, positiva.  Não há retórica mímica, apenas reiteração da mensagem.” Mais adiante, o Mestre potiguar cita Leonardo da Vinci: “Aprende com os mudos o segredo dos gestos expressivos”. Assim, é possível se inferir, por meio da frase citada por Cascudo, que o Mestre da Renascença observou o uso dos gestos até nas pessoas mudas, antes de criar uma de suas obras máximas, A Última Ceia.

Nessa obra, percebe-se o quanto os apóstolos estão em movimento e parecem quebrar o silêncio, sob o impacto das palavras de Cristo: “Em verdade vos digo que um de vós me há de trair”. Longe de ser estática, A Última Ceia é uma cena dinâmica, os 12 homens à mesa, ao lado de Cristo, interrogam-se, perguntam uns aos outros:  quem será o traidor?  As mãos, a atitude corporal e os semblantes dos apóstolos transmitem uma agitação, simulam um burburinho, como se várias pessoas falassem ao mesmo tempo. Até hoje, nenhuma outra obra de arte, sem usar uma só palavra, foi capaz de permitir uma leitura tão precisa da alma humana, ao ponto de se dizer que A Última Ceia, de Da Vinci, “é a pintura narrativa mais fascinante da história”.

A cena mostra quatro grupos de três apóstolos, dois grupos à direita e dois à esquerda de Cristo.  O segundo trio, a partir da esquerda, é formado por Pedro, Judas e João.  Pedro parece indignado e segura na mão direita uma faca.  Por outro lado, João está quieto, triste, como a aceitar  o destino do Mestre.  Judas é feio, nariz adunco, e segura na mão direita a sacola com o dinheiro da traição.  A sua mão esquerda e a mão direita de Jesus avançam na direção do pão, sobre a mesa. E consta a fala de Jesus, no Evangelho de Lucas:  “Mas eis que a mão daquele que vai me trair está com a minha sobre a mesa”. Logo, desfez-se a dúvida.  Um pouco mais alto que os demais, Jesus está no centro, parece calmo e resignado. Ao seu lado, a partir da direta, o trio é formado por Tomé, Tiago Maior e Felipe.  Chama a atenção o dedo indicador erguido de Tomé, com a mão virada para dentro, um resgate da Dúvida de Tomé, o apóstolo que só acreditou na Ressurreição após tocar as chagas de Cristo. 

Em A Última Ceia, Leonardo marcou o centro do mural, o ponto para o qual todas as linhas e todas as atenções tinham de convergir: a face de Cristo.  Ele criou, então, um novo formato de perspectiva, e adotou o modelo baseado na pirâmide visual de linhas, de modo que o olho do espectador seja o vértice dessa pirâmide. 

O escritor inglês Kennet Clark (1903-1983), um dos maiores estudiosos da vida e da obra de Leonardo da Vinci, chamou A Última Ceia de “pedra fundamental da arte europeia”.






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