“A mão de obra qualificada está migrando”

Publicação: 2018-10-28 00:00:00
A+ A-
Ricardo Araújo
Editor de Economia
 
A recessão na economia nacional levou pelo menos dois mil milionários brasileiros a saírem do País com suas respectivas fortunas para países europeus e, principalmente, para os Estados Unidos. O processo de migração para o país norte-americano, para aqueles que pretendem fixar moradia legal com porte do Green Card não custa menos de R$ 2 milhões através da aquisição do visto EB-5. A quantia pode saltar aos olhos da maioria dos cidadãos brasileiros que sobrevivem com R$ 954 mensais, o valor do salário mínimo.

Mas, de acordo com a LCR Capital Partners, nos últimos anos, tem aumentado a busca de brasileiros interessados em obter o visto EB-5. Pelo segundo ano consecutivo, o país é o líder das Américas entre os países que mais recebeu Green Card por meio dessa modalidade de visto. Em 2017, foram 282 brasileiros que receberam o visto EB-5, seguido pela Venezuela, com 108, e México com 85 vistos, segundo dados oficiais do Departamento de Imigração dos Estados Unidos. Além disto, o Brasil ocupa, atualmente, a terceira posição no ranking mundial de vistos EB-5 emitidos, ficando atrás somente da China e Vietnã, respectivamente.
Créditos: DivulgaçãoInstabilidade econômica e busca de melhor qualidade de vida leva milionários brasileiros a investirem fortunas nos EUAInstabilidade econômica e busca de melhor qualidade de vida leva milionários brasileiros a investirem fortunas nos EUA

Instabilidade econômica e busca de melhor qualidade de vida leva milionários brasileiros a investirem fortunas nos EUA

Na entrevista a seguir, a potiguar Ana Elisa Bezerra, vice-presidente da LCR Partners explica o processo de aquisição do EB-5 e detalha o que os brasileiros mais abastados procuram fora do País. Acompanhe.

Por que cada vez mais brasileiros estão saindo do País e investindo nos Estados Unidos, por exemplo?

O Brasil, já faz pelo menos dois anos, que está no topo da lista de imigração de milionários. Isso não é um efeito que acontece somente no Brasil, é um efeito que tem acontecido no mundo inteiro. Eu acho que tem um número grande de fatores que influenciam o porque disso está acontecendo no mundo inteiro e, principalmente, no Brasil. A gente pode falar das questões de maior conhecimento relativas a essas possibilidades, o mundo mais globalizado, etc.. No caso do Brasil, específico, são, sem dúvida nenhuma, o maior conhecimento sobre essas possibilidades. Aí a gente entra falando especificamente dos Estados Unidos. Em 2014, a LCR entrou no mercado fazendo um trabalho muito forte de educação do povo brasileiro sobre a possibilidade de visto para obter a residência permanente nos Estados Unidos. Sem dúvida nenhuma, não tem como não citar a instabilidade política e econômica do País. Isso é, realmente, um incentivo para as pessoas buscarem outros países para ter uma segunda residência permanente.

Cerca de dois mil brasileiros milionários migraram ao longo deste ano para os EUA e Europa. O que isso pode provocar ao Brasil?

O que a gente deve considerar é o perfil das pessoas que estão saindo. Tem uma questão muito triste de certa mão de obra qualificada estar imigrando. Porque quando a gente falava em imigração no passado ou em morar em outro País, a primeira coisa que nos vinha à cabeça era uma pessoa buscando uma nova forma num novo país e que vai ter que trabalhar em subemprego. E hoje não é mais assim. Você vê mão de obra qualificada saindo do país. Isso, claro, irá afetar no longo termo na economia daquele país que estará perdendo por um lado. Por outro lado, tem também outra coisa muito interessante que a gente está começando a ver que um dos perfis de pessoas que está saindo é o de estudante. Ele vai fazer uma faculdade fora e, depois que se forma, volta para continuar os negócios do pai, por exemplo. Então, também tem um lado positivo, que é o da pessoa qualificada que está buscando uma educação cada vez mais qualificada e depois voltar ao Brasil com isso. Então, tem aí um caminho de duas mãos.

O mercado internacional, principalmente o norte-americano, recebe bem o imigrante brasileiro ou está enfrentando problemas em decorrência da política de Donald Trump?

O que acontece é: quando você está entrando no mercado de trabalho nos Estados Unidos, um grande diferencial é a residência permanente e ter o direito de fazer o que quiser lá através do green card. Porque muitas empresas, elas só irão entrevistar determinado candidato se ele tiver residência fixa e green card. O visto de trabalho nos Estados Unidos tem ficado cada vez mais competitivo e esse visto de trabalho é um dos que a nova administração está modificando regras e está dificultando. Antigamente, era somente a grande procura. Eram muitos mais aplicantes que o número de vistos disponíveis. Eu falo do H1-B, que é o visto de trabalho. Essa já era uma grande dificuldade. A gente tinha cerca de 30% como taxa de aprovação pro visto de trabalho. Hoje em dia, com a nova administração, que começou a mudar as regras para esse visto, a taxa de aprovação está diminuindo. Então, essa é uma das grandes vantagens do visto EB-5. Através do green card se abre portas no mercado de trabalho nos Estados Unidos.

Quais são os custos envolvidos nesse processo de aplicação do EB-5?

Eu acho que, no geral, existem vários caminhos para a obtenção do green card. O EB-5 é um destes caminhos. Se você considerar o caminho do EB-5, se tem um custo muito grande no início. Ele exige um custo mínimo de 500 mil dólares e alguns gastos com advogado de imigração, taxas com departamento de imigração, tradução de documentos e etc.. A gente está falando em média, num total de 580 mil dólares. Mas, como o visto EB-5 tem pré-requisitos e uma linha até a obtenção do green card bastante específica, eles têm alguns pontos a serem considerados. Existe a possibilidade do aporte inicial de 500 mil dólares voltar para o aplicante com ou sem algum retorno na totalidade. Quando se trabalha com empresas sérias e profissionais com uma boa estrutura de EB-5, fica cada vez maior a probabilidade de se receber esse retorno.

É um custo muito elevado para a maciça maioria dos brasileiros. Para onde vai esse dinheiro aplicado?

Existem duas maneiras de uma pessoa aplicar para o EB-5. Esse visto requer a aplicação a partir de uma pessoa física. Essa pessoa física tem direito a incluir dependentes em sua aplicação. Os dependentes seriam cônjuges e filhos solteiros menores de 21 anos. A aplicação pode ser feita através do EB-5 direto, com o aplicante escolhendo um negócio nos Estados Unidos ou abrindo o próprio negócio lá. Faz o aporte nesse negócio e tem que cumprir as exigências da lei do EB-5, dentre elas criar e manter 10 postos de trabalho por, pelo menos, dois anos. Isso é importante porque, criar e manter esses postos de trabalho no mercado que se começou a atuar arca na folha de pagamento, pois são 10 postos. A segunda forma de aplicação é a do investimento indireto. É quando o aplicante escolhe um projeto de EB-5, faz o aporte nesse projeto e é o projeto que tem que cumprir as exigências dessa lei. Quem oferece os projetos de EB-5 são chamadas de Centros Regionais. Elas são autorizadas pelo governo norte-americano para oferecer esses projetos a potenciais investidores estrangeiros no mundo inteiro. Hoje em dia, cerca de 97% de quem aplica para o EB-5 em todo o mundo faz investimento via centro regional. É um caminho muito mais tranquilo. O investimento é feito de forma passiva. Claro, tem a dificuldade de escolher o projeto e a empresa com a qual se irá trabalhar junto. Mas, uma vez que isso é feito, irá caminhar junto com a empresa na qual se decidiu investir ao invés de ficar se preocupando em correr com o seu negócio e cumprir todas as exigências porque o green card depende disso.

Em linhas gerais, podemos dizer que esse investidor acaba se tornando sócio desse empreendimento?

Possivelmente. Existem algumas diferentes formas de estruturação do projeto. Uma das formas é via participação societária, mas não necessariamente. Uma das formas de participação societária são projetos mais arriscados.

Mesmo sendo um investimento alto, ainda mais após um período de recessão na economia nacional, o número de aplicantes aumentou?

O Brasil vem crescendo bastante nos últimos anos em relação ao número de aplicantes do EB-5. Está seguindo uma onda mundial. O EB-5 está se tornando mais conhecido no mundo inteiro  e a gente, realmente, tem tido mais aplicações. O Brasil cresceu, mais do que qualquer outro país, no ano passado. Então, aos poucos a gente tem visto esse maior interesse pelo brasileiro e isso tem se refletido nos números. Em 2017, o Brasil ficou em terceiro lugar no número de vistos EB-5 emitidos. A gente fica atrás somente da China e Vietnã.

Como esses números podem ser interpretados? Esses empresários brasileiros investem fora por quais motivos?

O nosso cliente afirma que, o incentivo na decisão de aplicar para o EB-5 é buscar uma vida com mais segurança fora do Brasil, com mais qualidade de vida. Mas, também, aumentar as chances profissionais, aumentar as chances acadêmicas e dar um futuro melhor para os filhos. Essas são as questões que a gente mais ouve de quem decidiu fazer o processo com a gente.

E diante dessa corrida presidencial que causa instabilidade no mercado financeiro, a senhora acredita que haverá uma procura maior pelo EB-5?

Não, eu acho que não. Afeta muito no psicológico do brasileiro. A única maneira que afeta um pouco é se esse capital está lá fora, se está no Brasil. E, se estiver no Brasil, o cliente ficará mais de olho no dólar para saber o que está acontecendo. Mas, na maioria das vezes, o cliente já tem um saldo disponível no exterior e não precisa se preocupar com essa variação da taxa de câmbio. A gente lida com um número de clientes que se preocupam, outros não. A preocupação maior é sobre o momento ideal para se fechar a taxa de câmbio.

Existem opções de investimentos mais baratas fora do Brasil além do EB-5?

Tudo depende de qual é o objetivo do aplicante. O objetivo de um aplicante do EB-5 é receber o green card. O EB-5, apesar de ter o nome de Programa de Visto de Investidor, ele é uma forma de obter a residência permanente nos Estados Unidos. Quem está procurando aplicações financeiras nos Estados Unidos fará outro caminho. Se o objetivo não for morar e somente aplicar no mercado financeiro norte-americano, existem outras maneiras de se fazer isso. O visto de investidor EB-5 tem as mesmas regras para morador de qualquer país. Não muda o valor de investimento, de quantidade de empregos, do aplicante ter que comprovar a origem lícita dos recursos. Existem outros tipos de vistos que não dão a residência permanente, mas dão o direito de residência temporária. 

Deixe seu comentário!

Comentários