“A minha vida sempre foi muito planejada”

Publicação: 2017-06-25 00:00:00 | Comentários: 0
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Itamar Ciríaco
Editor de Esportes

Planejamento, determinação e foco. O somatório dessa “equação” resultou em recordes, vagas em Jogos Olímpicos e, com o passar dos anos, numa saudade cada vez maior das pistas. Esta é Magnólia Figueiredo, a “Craque Papa Jerimum” do Atletismo, hoje com 53 anos, presidente da Federação de Atletismo do Estado, mais de mil medalhas conquistadas e atleta olímpica em quatro oportunidades (1988 Seul, 1992 Barcelona, 1996 Atlanta e 2004 Atenas).

A história de Magnólia se confunde com a do seu esporte no Estado. Há mais de 40 anos no esporte, ela foi quem abriu o caminho para o surgimento de outras estrelas locais do atletismo como Vicente Lenílson, Cláudio Richardson e outros, além de estimular o sonho de jovens que treinam duro, diariamente, no Rio Grande do Norte. “Iniciei fazendo vôlei e natação, mas depois me encontrei mesmo foi no atletismo”, relembra. “Pretendo ano que vem voltar a dar umas corridinhas”, complementa Magnólia, fazendo uma ponte entre o passado de iniciante e o futuro como atleta master.
CRAQUE PAPA JERIMUM/ATLETISMO
Qual era a emoção que você sentia quando estava nas pistas?

Na verdade o nosso treino é muito planejado, então nós sabíamos para onde estávamos indo. Meu irmão dizia que eu era muito fria frente aos resultados e as conquistas. Eu não sei se era porque era tudo planejado, já esperava os resultados, então para mim o resultado era como se fosse cumprido o objetivo traçado. Mas existia sim aquela satisfação. Só acho que, talvez, os treinos me davam mais uma sensação diferente, porque eu acho que o treino que é mais árduo, que é muito mais duro, então a competição em si, se você tiver feito um bom planejamento, estiver bem preparado vai acontecer o que você planejou. Então por isso digo que os treinos eram mais desafiadores, porque todos os dias, muitas vezes duas vezes ao dia, durante a semana inteira, com mudanças e ascensão na intensidade. Então acho que esse desafio de estar sempre provocando meu organismo a conquistar e a cumprir o treinamento tinha um sabor mais especial.

Como você se descobriu atleta?

Eu sempre gostei muito de atividade física. Desde criança fui menina de rua de brincar, enfim, todas as brincadeiras de meio de rua eu fiz, então aquilo ali foi despertado muito cedo. Nas aulas de educação física se acentuou mais ainda principalmente quando as atividades eram de confronto. Eram pequenas brincadeiras, mas que existia aquela vontade de vencer. Na escola eu fiz ainda no primeiro ano vôlei, mas no ano seguinte a primeira pessoa que me levou às pistas que foi o professor Lindomar, ele perguntou a minha professora de vôlei, que era Elisabeth Jatobá, ambos hoje ainda são da UFRN, se tinha alguma menina que ela pudesse indicar para os JERN’S. Aí ela conversou com as alunas dela e aí eu me interessei. Aí me identifiquei. A questão de saber que não dependia do esforço de alguma outra pessoa para a gente conquistar, como era no vôlei, que é um esporte coletivo. Então, acho que ser do atletismo era algo que dependia mais de mim e a vontade de vencer era muito grande. Não só de vencer as outras pessoas, mas de me desafiar. Eu sabia que existia a tabela de recordes e acho que aquilo ali era que mais me apaixonava, não somente vencer as outras minhas amigas, mas principalmente superar uma marca que estava estabelecida, que eu acho eu um recorde é da história é do esporte. Então o recorde me deixava mais contagiada para superar.

Onde você começou e como foram as primeiras competições?

A primeira escola foi a Sebastião Pinheiro, que fica em Tirol e a primeira competição foi o JERN’S de 1975, eu era mirim. Em 1976, eu ainda mirim, mas competi já no adulto, não entendi naquela época como foi que me inscreveram e foi desse JERN’S que me convocaram para a primeira representação do Estado, em 1976. Quando eu viajei eu estava co 12 anos, muito embora fui representar o Estado numa competição que era até 18 anos.

Você recebeu muito incentivo nessa época?

Eu tive muito apoio dos meus pais. Todas as minhas escolhas foram sempre muito respeitadas. Naquela época não era muito fácil porque praticar esporte ainda era uma coisa muito voltada para o sexo masculino, mas mesmo assim eles nunca foram contra. Só meus amigos da rua que não gostaram muito, porque eu deixei de brincar na rua. Ainda bem que hoje todos são adeptos da corrida, então, demorou um pouco, mas eles perceberam o quanto é bom. Tive também como incentivador, depois que me passou a treinar, sistematicamente, foi o professor Armando Lima. Ele já era o treinador da seleção do estado naquela época, principalmente do feminino e aí quando ele me convocou, a partir do dia 10 de fevereiro de 1977 eu passei a treinar com ele.

Já tão nova e os resultados eram cobrados. Isso era um problema?

Essa situação também era planejada. Continuei nos eventos estaduais, mas já com foco nos eventos regionais e nacionais. A partir do momento que eu pude representar o Estado em um evento regional, mas em uma categoria aberta e não escolar como fui em 1976 e logo em 1977 eu venci a primeira competição regional na categoria aberta e adulta. Apesar da minha idade eu consegui vencer essa competição e aí já tive um foco na competição nacional, que foi um Campeonato Brasileiro que já aconteceu em 1978. Nessa competição eu sabia que era uma seletiva para uma competição internacional para a qual também me classifiquei e aí nós fomos renovando os objetivo, quer dizer, foi uma competição internacional Sul-Americana, depois passei a pensar no Pan-Americano, depois no Campeonato Mundial, no Íbero Americano e Jogos Olímpicos. Então foi uma sequência de renovações de objetivos e a gente sabia que dessa forma eu iria crescer tecnicamente. Então foi um preparo também para isso, porque a cobrança ela é muito intrínseca e foi isso que aconteceu. Eu fui elaborando e percebendo as possibilidades de crescer tecnicamente e subir a outro nível de competição e graças a Deus aconteceu.

E como foi a notícia da vaga olímpica?

Em 1988, os Jogos Olímpicos foi em Seul eu já estava preparada. Quando eu decidi treinar para o alto rendimento mesmo para essa competição, em 1985 eu tive minha filha, em 1986 e 1987 foram anos de preparo, mas eu acreditava que poderia ir a Seul. E aí aconteceu. Então assim, foi também uma resposta do planejamento que nós fizemos. Já existia índice para aquela competição e eu fui em busca desse índice. Então o planejamento foi para isso, isso aconteceu e nada mais foi do que cumprir o que estava planejado, então por isso mesmo também me achavam fria. Fria porque eu não vibrava segundo as pessoas, mas não era questão de não vibrar era que isso já estava previsto de acontecer. Então só seu eu machucasse, ou alguma coisa acontecesse, mas pelo planejamento, pela evolução do treinamento, a gente ia acompanhando semana após semana então não tinha como não dar errado. Mas de qualquer forma foi uma satisfação muito grande, saber que nós não tínhamos uma estrutura tão grande quanto outras atletas tinham, mas que a determinação e o foco que foi dado para chegar aos Jogos Olímpicos com a marca que não foi nem só a questão de participar dos Jogos Olímpicos, foi porque a marca eu atingi muito facilmente é que eu passei a ter um resultado que era considerado internacionalmente mesmo e que isso me possibilitou participar de outros eventos internacionais não apenas os Jogos Olímpicos mas também uma competição como o Grand Prix de Atletismo onde são só oito raias, ou seja naquela prova, no mundo, geralmente só as oito melhores do mundo. Então as minhas marcas, até hoje ainda, graças a Deus, são consideradas muito boas.

Em meio a tudo isso, como foi formar uma família e continuar batendo recordes?

A minha vida sempre foi muito planejada. Acho que tudo deu certo por isso. Terminei encontrando uma pessoa muito cedo. Participei dos JERNS pela primeira vez em 1975 e em 1978 eu já estava com ele, que era do atletismo. Casei em 1982. Ele ser do atletismo facilitou muito, porque era mais fácil de ele entender que eu precisava viajar, me dedicar aos treinos, mas uma coisa que deu tudo para conciliar foi definir horários para cada coisa. Então eu tinha hora de estudar, eu não negligenciei com a minha formação acadêmica-profissional. Eu tive condições. Eu fiz educação física, fiz administração, iniciei ciências contábeis então tudo foi feito de uma forma planejada. Até o dia que iríamos fazer Luíza e que seria o tempo correto para ela nascer foi planejado. É uma questão de você ter uma gestão de seus horários e conciliar todas as suas escolhas.

De toda essa experiência, qual parte lhe dá mais saudade?

Sinto saudade de tudo. Fui pegando algumas fotos e fui vendo a construção do que fizemos no atletismo. Saímos praticamente do nada, iniciei muito criança, mas acho que sempre muito determinada. Desde que eu decidi fazer eu não queria fazer mais ou menos e é assim em tudo que faço. Acho que a gente tem que qualificar as nossas escolhas. Mas, sinto muita saudade das competições, dos amigos, fizemos muitos amigos, fomos muito bem acolhidos quando não tínhamos estrutura física adequada como uma pista sintética e precisávamos sair para treinar fora no período de chuvas, ou ficávamos treinando na praia ou no asfalto e às vezes optávamos por ir para São Paulo, onde fizemos grandes amizades que até hoje permanecem. Enfim, sinto falta desses momentos que eu passei. Talvez o maior legado não sejam os resultados técnicos, nem as medalhas conquistadas ou títulos, seja o legado da amizade.

O que é o atletismo para você?

É até difícil de definir. O que eu sei é que ainda tenho muita dívida com o atletismo e espero poder pagar um dia. Espero que antes que Deus me mude de plano eu veja no atletismo tudo que ele me ofertou.

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