‘A sensação do país é ruim. Falta confiança no mercado’

Publicação: 2015-08-23 00:00:00 | Comentários: 0
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Fernando Domingo
Repórter

O mercado imobiliário nacional deve fechar 2015, em relação ao ano passado, com queda de 20%. A afirmativa é do economista chefe do Secovi-SP, Celso Petrucci. De acordo com o ele, o setor de construção civil também não deve recuperar o saldo acumulado – admissões versus demissões – neste ano. “A atividade deve fechar com um saldo negativo em torno de 400 mil à 500 mil vagas”, estimou. 
O economista Celso Petrucci analisa como o cenário atual tem afetado o mercado imobiliário e a ‘forte dependência’ do setor do Minha Casa, Minha Vida
Em entrevista à TRIBUNA DO NORTE, Celso Petrucci falou também sobre as dificuldades enfrentadas pelas construtoras no programa Minha Casa Minha Vida. Além disso, comentou o lançamento da Faixa 3, anunciado pelo Governo Federal para o mês de setembro, descartando um cenário pouco receptivo para a nova etapa. “Não vejo condição das pequenas e médias empresas não trabalharem mais com o MCMV”, declarou.

Nesta semana, Celso Petrucci esteve na capital potiguar para ministrar palestra sobre as “Perspectivas para o mercado imobiliário face ao cenário econômico atual”. O evento ocorreu no auditório da CDL Natal, na zona Leste da cidade, e contou com a participação de integrantes do setor, além de apoio do Secovi-RN, Creci-RN e Sinduscon-RN.

Estamos em um cenário de juros, inflação e desemprego em alta. Como isto tudo está afetando o mercado imobiliário?
O mercado imobiliário ele passa por um momento muito difícil. Da mesma forma que há alguns anos atrás nós tínhamos todas as condições favoráveis ao mercado, com taxas baixas e o país crescendo, hoje o ambiente é adverso. A taxa Selic já está chegando perto de 15%, a inflação batendo dois dígitos, que não acontece desde antes do Plano Real e certa dificuldade de recursos. No caso dos empregos, o que está afetando mais, as pessoas e os empresários, é a falta de confiança na economia do país.

Por qual motivo não há essa confiança?
O consumidor, que até pouco tempo, até um ou dois anos atrás, que tinha tranquilidade para poder comprar um imóvel, fazer um financiamento, já não sente mais essa tranquilidade, uma certa estabilidade no emprego. A sensação do país é muito ruim em termos de economia e a aquisição imobiliária, você queira ou não queira, ela tem um componente psicológico muito grande. Se a pessoas está pensando em comprar um imóvel, liga a televisão, escuta o rádio, e tem boas notícias, isso acaba influenciando favoravelmente. Se, pelo contrário, só há más notícias, ela vai empurrando essa decisão mais para frente.

As construtoras também perderam essa confiança? Para  investimentos
Sim. Eu acho que estamos passando também por uma crise de confiança do empresário. E eu sinto isso lá em São Paulo. Nós acompanhamos pesquisas de 14 Estados e a redução de lançamentos esse ano, em relação ao ano passado, está em torno de 20%. E por que as pessoas não lançando? Elas tem projetos aprovados, terrenos adquiridos, mas, falta confiança no mercado.

Para 2016, isto se mantém?
Eu gostaria de ter uma notícia boa para dar, mas, a perspectiva não é que a gente tenha uma grande mudança em 2016. E é fácil explicar. O país esse ano vai andar para trás em torno de 2%. Nós temos mais de 100 analistas que avaliam o mercado todas as semanas e, para eles, o país deve ter crescimento zero ou até um pouco abaixo de zero. Então, é muito difícil que nós tenhamos uma mudança significativa no mercado imobiliário.

Voltando o interesse, mesmo que não exista novos lançamentos, teria estoque? Há estoque encalhado?
No Brasil todo nós estamos com um estoque bem maior que em 2014 e 2013. Mas, sempre lembrando o seguinte: estoque não é encalhe. Em um modelo de incorporação imobiliária você vende em torno de 30% na planta, 50%/55% na construção e quando está pronto você vende o restante. Quando o mercado não está bom, acaba sobrando mais unidades que estes 15% à 20%. Quando eu falo que no primeiro trimestre, nós tínhamos cem mil unidades em estoque, eu estou dizendo que temos uma parte ainda sem obras iniciadas, grande parte em construção e uma parte já pronta. O estoque pronto é estimado em 14%/15% no país como um todo.

Não chega a preocupar então?
Não. Mas, em Natal, por exemplo, assim como em outras capitais do Nordeste, você tem grandes empreendimentos sendo entregues. Então, se estes empreendimentos tiverem 15%, 20% ou 30% de estoque, é um estoque que ainda vai levar um tempo para ser consumido pela população.

Nessa questão das demissões do setor, a tendência é realmente fechar esse ano com saldo negativo?
Seguramente. A construção civil, como um todo, vai fechar com um saldo negativo [admissões versus demissões] em torno de 400 mil à 500 mil vagas durante o ano de 2015.

Seria possível recuperar isso em 2016 ou ainda é incerto?
A construção civil está com um outro ingrediente, que tem influenciado as demissões, muito forte, que é a “Operação Lava Jato”. Quando a operação começou, a gente imaginava que em seis meses ela terminaria. Depois um ano. Um ano e meio. E agora não se tem ideia quando vai acabar. O Governo Federal pretende soltar um grande número de concessões, um investimento grande em logística. Então, a hora que voltar a ter obras e com o andamento da operação, eu tenho a impressão que o emprego também pode reverter essa tendência. Agora, o nosso, do setor imobiliário depende da retomada da confiança, dos empresários voltarem a lançar empreendimentos, para isso refletir nos empregos. Hoje, estamos entregando muito mais obras do que iniciando obras novas.

O relatório Focus divulgado nesta semana ainda indica uma inflação inferior aos 10%, mas uma queda econômica brasileira de até 2%. Quais seriam as maiores dificuldades do setor para 2016?
Tudo nos preocupa. A crise institucional, a questão da economia também. Agora, uma grande preocupação do setor, eu diria que, de zero à dez, ela teria uma sensibilidade nove, é a questão dos recursos. Toda essa conjugação, de inflação alta, concorrência para a caderneta de poupança, e alguns projetos de lei que estão andamento em relação ao FGTS, nos preocupam muito, até de ter uma solução de descontinuidade no programa Minha Casa Minha Vida.

Nós podemos dizer que o momento nordestino imobiliário é melhor que no Sudeste?
A economia do Nordeste nos últimos anos cresceu muito mais do que a do restante do Brasil. Agora, os efeitos nefastos de tudo que está acontecendo acabam resvalando também aqui. Mas, Natal, por exemplo, vem com um crescimento de PIB muito forte já de 10,12 anos, com média de 8%, que colabora também para o Rio Grande do Norte.

Já se projeta tempo de recuperação do setor?
A nossa torcida é que isto acontecesse o mais rápido possível. Mas, eu diria que o mercado está fraco e você tem meses melhores e meses piores. O mês de junho foi muito bom, porque teve uma quantidade grande de lançamentos, com metro quadrado mais baixo, e vendeu bem. Já julho, foi pífio. É um ano, que para São Paulo e o Brasil, como um todo, a gente está pensando em uma redução em torno de 20%, em relação ao ano passado.

Essa restrição do crédito pessoal promovida pela CEF, em cima dos recursos do Sistema Brasileiro de Poupança, qual a perspectiva do setor?
Com esse anúncio, a Caixa segurou 2,5% dos financiamentos que concedia. O que ela fez? Se eu já tenho um financiamento pelo sistema, eu não posso tomar o segundo, ao mesmo tempo. Muito pior foi o que ela teve que fazer com o financiamento de imóveis usados, que ela financiava 80% e passou para 50%. Isso afeta muito mais o mercado imobiliário. Quem pode financiar dois imóveis é porque já tem uma certa renda maior, mais alta, e tem outras formas de conseguir o dinheiro. O Governo está tentando manter o crédito imobiliário irrigado. Mas, não vai ser simples, porque a poupança está perdendo muito dinheiro, mas, não está faltando dinheiro por enquanto.

Na questão do MCMV, as construtoras vem reclamando de atrasos em repasses e o Governo Federal prometeu quitar tudo até este mês. Qual a situação atual?
Essa situação que o Governo se comprometeu, em colocar em dia, os pagamentos da Faixa 1 do Minha Casa Minha Vida, deve acontecer agora em agosto. Mas, não está em dia.  Eles ainda estão pagando medições de junho. São medições de obras já feitas e que tem gente ainda recebendo. Isso afeta muito as pequenas e médias empresas.

Esse seria o grande impacto desta situação no segmento imobiliário?
Temos dois impactos. Seguramente, o dinheiro que o Tesouro tem não dará para fazer um MCMV como foi a Fase 1, com 40% de tudo que for feito sendo Faixa 1, e a Fase 2, com 60% de tudo que foi feito sendo Faixa 1. A Fase 3, a gente considera muito difícil que consigam fazer esses 60%, porque eles estão em uma luta muito grande para alcançar um superávit primário que, se a Fase 3 tiver uma Faixa 1 do mesmo tamanho que tinha na Fase 1, não fecha as contas. Vai faltar dinheiro para o subsídio. A outra coisa é que a Faixa 2 e a Faixa 3 temos um projeto de lei – 1358/2015 - na Câmara dos Deputados, preocupante, para mudar a prestação das contas do FGTS.

Permanecendo essas medições atrasadas, isto afetaria a continuidade das obras em 2016? E novos empreendimentos?
Não. O Governo deixou de contratar, mas, essas obras em andamento, tenho a impressão que elas vão terminar. Algumas com certo atraso, outras com um atraso maior e umas com uma atraso muito maior. E seria uma insanidade você não conseguir pagar o que está aqui e começar a assinar contrato novo para fazer ali. É melhor terminar o que está em andamento do que começar coisa nova.

Faltaria anda sustentabilidade ao programa MCMV?
O MCMV foi um programa exitoso porque simplesmente se pegou tudo de bom que se tinha no país e juntou dentro de um programa. Só que a situação econômica era outra. O Governo fez isso, só para lembrar, como uma medida anticíclica no final de 2008 e começo de 2009. E deu certo, porque o país cresceu, em 2010, 7,6%, que foi o último crescimento chinês que o Brasil teve nos períodos mais recentes. Então o Governo acertou. Mas, hoje, a situação é completamente diferente. Então, vai ser muito difícil o Governo arrumar novos recursos para colocar dentro do programa. Ele poderá ser robusto, mas, será uma pouco mais vagaroso, um pouco mais gradativo.

O Governo anunciou o lançamento da Faixa 3 do MCMV para 10 de setembro. Essa nova etapa vai ter receptividade?
O setor se tornou altamente dependente do Minha Casa Minha Vida. Você estava em um país onde se tinha muita obra de infraestrutura. Hoje, a situação é completamente diferente. Não tem mais obra de infraestrutura que pudesse substituir esse Minha Casa Minha Vida. O setor vai responder, mas, vai depender muito das condições que o Governo oferecer. Atualização de preços, dos parâmetros de renda, dos parâmetros de subsídio. Vai depender muito do que o Governo anunciar. Agora, não vejo condição hoje, sistêmica, das pequenas e médias empresas do país não trabalharem mais com o Minha Casa Minha Vida. Não vejo um cenário para isso. Não existe como você repor e está todo mundo querendo trabalhar, querendo produzir.

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