"É a tecnologia usada para otimizar a ação da Polícia"

Publicação: 2017-06-28 00:00:00 | Comentários: 0
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Sara Vasconcelos
Repórter

Viaturas munidas com tablets que possuem um sistema para integrar informações de segurança pública que dão mais eficiência às operações da polícia nas ruas. Soluções tecnológicas com aplicação prática no trabalho das Polícias Civil e Militar, como os aplicativos Rota, que buscam diminuir os índices de violência no Rio Grande do Norte, fortalecer as políticas públicas de segurança, otimizando o trabalho dos operadores  e devolvendo a sensação de segurança a população são focos do projeto Smart Metropolis. Desenvolvido por pesquisadores do Instituto Metrópole Digital (IMD) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) em parceria com a Secretaria Estadual de Segurança Pública e da Defesa Social do RN, soluções já estão em uso em viaturas e central de informações da Polícia. O professor  do Instituto Metrópole Digital e coordenador do projeto Smart Metropolis, Frederico de Araújo Lopes, um dos palestrantes do 30º Seminário Motores do Desenvolvimento, defende que a segurança pública precisa ser pensada dentro da visão de Cidades Inteligentes. A edição de 10 anos do Motores aborda o tema “Segurança Pública e Cidadania”, será no próximo dia 3 de julho, no auditório da Fiern. Eis a entrevista.

Como surgiu a iniciativa de desenvolver tecnologia, aplicativos como o Rota, para a segurança pública do Estado?
No final de 2013, eu e outros professores, mais de 20 além de alunos, começamos a desenvolver soluções para Cidades Inteligentes, dentro do SmartMetropolis. O primeiro aplicativo foi no setor de turismo, numa parceria com o Departamento de Artes, Design, para a Copa de 2014, para o turista ter informações geradas pelos próprios agentes turísticos da cidade. A ideia de Cidades Inteligentes é desenvolver soluções para melhorar a qualidade de vida e satisfação do cidadão e Segurança Pública é um dos nossos maiores problemas.   Como podemos ajudar a melhorar a segurança pública do Rio Grande do Norte? Como trazer um pouco mais de auxílio, por meio da tecnologia da informação, para a inteligência da Polícia, o operacional, enfim, todos os setores da polícia? Procuramos o contato na Sesed, com o hoje coronel Emiliano, que também é da área de TI, e começamos a ver que tipo de soluções poderiam ser desenvolvidas para auxiliar, agilizar o trabalho da Polícia. E minimizar alguns problemas, como os trotes, melhorar a comunicação  entre o Ciosp [Centro Integrado de Operações de Segurança Pública] e as viaturas que é tudo via rádio.

Melhorar de que forma essa comunicação?
Quando o Ciosp aciona as viaturas essa informação é passada pelo rádio e não gera informações como a qualidade da prestação do serviço, quanto tempo a viatura levou para chegar ao local desde a chamada. São informações que ajudam a Polícia a melhorar o serviço delas e que eram perdidas porque não havia uma geração dos dados.

Frederico de Araújo Lopes é professor do Instituto Metrópole Digital e coordenador do projeto Smart Metropolis
Frederico de Araújo Lopes é professor do Instituto Metrópole Digital e coordenador do projeto Smart Metropolis

Que soluções já estão em uso?
Hoje temos soluções criadas em uso, outras em desenvolvimento e as planejadas para serem desenvolvidas numa fase 2.0 do projeto. Essas soluções são criadas em parceria com as polícias e ajudam tanto a Polícia Militar quanto a Polícia Civil. A primeira é em cima da plataforma Rota, que é um sistema que a PM já tinha a base e nós desenvolvemos uma série de aplicações. Hoje há aplicativo que roda num tablet dentro das viaturas, para que a comunicação do Ciosp em vez de ser via rádio, seja feita por meio do tablet, que gera uma série de informações e relatórios sobre esse atendimento. Com o aplicativo Rota ele recebe hoje o chamado da ocorrência via tablet, informa a entrada em serviço, área de atuação, se está se encaminhando ao local, a situação, gera um pequeno relato sobre a ocorrência que não chega a ser o Boletim de Ocorrência. Um aplicativo do comandante, no celular, ele consegue  acompanhar, coordenar a ação das viaturas, traçar o trajeto delas por área que devem patrulhar por horário. Também tem um dashboard, que é uma aplicação para o computador, para o pessoal do Comando observar, em tempo real,  onde estão as ocorrências na cidade e planejar as ações, também já está em funcionamento.

O que é esta versão 2.0 que será desenvolvida?
Nós estamos com um aplicativo já bem próximo de lançar, na fase final de teste para ser implementado, que a gente chama de fase 2.0, o Rota Cidadão, para envolvimento do cidadão neste contexto. É um aplicativo onde o cidadão poderá gerar o chamado pelo smartphone, em vez de fazer a ligação para gerar a ocorrência.

Substituiria o 190?
Não digo substituir, seria uma ferramenta a mais para auxiliar o 190. E todos estes sistemas que citei se conversam por meio de uma plataforma que faz a troca de informações.

O desenvolvimento dessa tecnologia demandou quanto de investimentos? O financiamento é pelo Estado, via Sesed, ou por edital?
Até o momento não houve investimento do estado. O investimento inicial foi por meio de emenda parlamentar. A parceria com o estado é no sentido de ter um ambiente real. Porque dentro dessa linha de projetos de Cidades Inteligentes, de que trata o Smart Metropolis, a ideia é desenvolver algo que tenha aplicação prática, real. Enquanto cidadão, a gente percebe o problema da violência, mas não conhecemos de perto e a fundo o problema, as causas, os efeitos, como fazer e o quê fazer. Enquanto academia a gente poderia desenvolver um projeto aqui dentro, isolado da Sesed, mas que depois não serviria para nada.  A ideia era aproximar da Sesed e resolver problemas reais. O Smart Metropolis deve culminar na análise e visualização de dados, trabalhar com big date, trabalhar com grande quantidade de dados que estas aplicações devem gerar que possam facilitar a gestão.

Até o momento não investiu, mas vai passar a investir?
Sim, nesta fase 2.0 a secretária de segurança pública já sinalizou e estamos negociando para que tenha algum repasse do Estado. Não tenho ainda valor. Existe uma conversa inicial e o comprometimento de investir. Tanto para este aplicativo Rota Cidadão, como uma série de funcionalidades para os aplicativos que já existem e  várias novas demandas de inteligência policial que estão surgindo.

O projeto Rota está em funcionamento desde quando?
Com segurança pública começamos em 2015, o desenvolvimento levou bastante tempo, mesmo sendo pesquisa aplicada é um projeto de pesquisa. O do comandante foi mais rápido, logo no começo, por ser mais simples. Já o das viaturas na metade de 2016.

E já dá para falar em resultados?
Não temos estes dados ainda. Embora a primeira AISP [área integrada de segurança pública] esteja usando os aplicativos em tablets há cerca de um ano, o processo é lento porque o treinamento das equipes leva tempo. Cada equipe é treinada, analisada e observamos em que o sistema pode ser melhorado, traz para o laboratório faz ajustes, leva de volta. É incremental tanto o desenvolvimento da solução, quanto o implantação na cidade. 

Dentro desse contexto de cidades inteligentes, no conceito de gestão mais integrada a outras áreas e à tecnologia, qual o peso da segurança pública?
A importância da segurança pública numa cidade inteligente depende da cidade, depende do país onde ela está. Se você pega uma cidade ou país que não tem grandes registros de violência, o papel de soluções nesta área para aquele lugar não é tão impactante como é pra cá. Segurança pública no Rio Grande do Norte, em Natal, é um problema social muito forte no contexto de Cidades Inteligentes. Aqui  também educação, saúde. Têm bastante coisas para tentar melhorar. A cidade é um organismo vivo e todas as áreas de gestão estão relacionadas, não há como separar totalmente uma da outra.  A insegurança, por exemplo, vai impactar na atividade turística. A qualidade da saúde e da educação da população de uma determinada região da cidade vai também impactar nos índices de violência. A taxa de emprego vai impactar na violência. É preciso pensar no todo, que  termina agregando essas informações geradas em diversas áreas da cidade.

Como o uso dessas tecnologias pode auxiliar na atuação da polícia que tem déficit de efetivo?
A tecnologia precisa ser usada para otimizar a ação da Polícia. Pode auxiliar, mas não substituir o efetivo, a solução não foi feita pra isso e nem ter este impacto. Mas a solução permite uma maior agilidade na gestão da informação que ajuda no planejamento da ação da polícia. Mesmo porque quem toma a decisão não é o sistema e sim as pessoas, o efetivo, os especialistas são necessários o tempo todo e o sistema está ali para auxiliar.

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