“A transposição do São Francisco, hoje, não interessa ao RN”

Publicação: 2017-04-30 00:00:00 | Comentários: 0
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»ENTREVISTA » Rômulo Macedo
engenheiro potiguar e foi coordenador do projeto de transposição do rio São Francisco

Marcelo Lima

Repórter

Para o engenheiro potiguar Rômulo Macedo, um dos idealizadores do projeto de transposição do rio São Francisco, a água que virá para os rios potiguares não terá utilidade para o Rio Grande do Norte. E o pior: todos os cidadãos deverão pagar por ela, usando-a ou não. Segundo Macedo, faltam as obras complementares para receber as águas. E se forem contratadas ainda neste ano, pelo menos deverão estar prontas em, pelo menos, 2022. Além disso, não há investimentos em perímetros irrigados para produção agrícola, uma das vocações de muitas regiões do Rio Grande do Norte. A seguir o ex-coordenador do projeto de transposição detalhe o motivo de suas observações.
Engenheiro Rômulo Macedo explica que a parte do RN que mais precisa do projeto, ainda vai demorar a receber as águas do Rio São Francisco
O projeto de transposição do rio São Francisco chega a ultima fase, com as obras do Eixo Norte, após 23 anos daquele primeiro projeto. Quais as diferenças para esse projeto atual?

Olha, é preciso entender que o projeto de transposição de águas do rio São Francisco é um projeto de desenvolvimento regional. É um projeto que vai melhorar as condições da oferta hídrica para uma região que é do tamanho da Alemanha e que tem problemas de escassez na oferta d'agua. É um projeto para garantir uma segurança hídrica, principalmente no aspecto produtivo da economia e no abastecimento humano. Essa região que vai ser beneficiada tem uma boa estrutura hídrica, mas que por condicionamentos climáticos, essa estrutura é ineficiente. Nós temos bons reservatórios, como a barragem Armando Ribeiro Gonçalves, com 2,4 bilhões de metros cúbicos, e quando se fala assim, a impressão que temos é que isso é água suficiente para abastecer todo o Rio Grande do Norte. E é! Mas, devido as condições climáticas, esses 2,4 bilhões de metros cúbicos se transformam em, talvez, 500 milhões utilizáveis. Por que isso? Porque o processo evaporativo é muito rápido. Se perde muita água por evaporação no semiárido brasileiro, uma das regiões do mundo com a maior taxa de evaporação. Então, isso dá uma ineficiência muito grande a infraestrutura hídrica, a esses reservatórios. Não porque não se saiba operar esses reservatórios, mas por causa do clima. A transposição do São Francisco dá uma garantia que essas perdas poderão ser repostas. A transposição é um projeto de garantia para o uso das águas. Mais do que um projeto que aumenta a oferta hídrica, ele é um projeto que dá condições para uma gestão melhor das águas que já temos em nossos território e não temos como fazer, essa boa gestão, por causa das condições climáticas. Essa é a grande filosofia do projeto.

Essa filosofia não se perdeu com as mudanças feitas no projeto, ao longo dessa duas décadas?

Essa filosofia está baseada em obras de engenharia. O que está sendo feito são essas obras, foram os dois projetos de engenharia para os eixos. As obras que levarão a água para as regiões no interior da Paraíba, do Ceará, do Rio Grande do Norte. O problema que eu vejo é que na regão que mais precisa receber essas água, a região do Apodi, não recebeu as obras que deveriam ter sido feitas. Não foram feitas as obras que darão capilaridade ao projeto maior.

Essas obras eram de responsabilidade de quem?
As obras hídricas no Nordeste sempre foram de responsabilidade do governo federal. Dos governo estaduais, elas requerem apenas a ajuda, a infraestutura de engenheiros, as informações das secretarias estaduais. Mas, os recursos vêm sempre do governo federal. As contrapartidas estaduais são pequenas, de 10%, mas o grosso mesmo vem do governo federal, de outros órgão, como o Dnocs que fazia grandes obras no Nordeste com recursos federais. A responsabilidade de fazer essas obras era dos estados, mas com a participação do governo federal. Eu acho que faltou o governo federal, que se concentrou na construção dos dois eixos principais, lembrar que precisava ter o outro lado, as obras que receberiam as águas trazidas por esses eixos. Vou dar um exemplo: do que jeito que está, hoje, a transposição do São Francisco não interessa ao Rio Grande do Norte. Porque? Olha, o estado terá duas entradas dessas águas. As duas vêm do Eixo Norte da transposição. Uma elas entram pelo vale do rio Piranhas-Açu, através de barragens na Paraíba até o leito do rio Piranhas, já no Rio Grande do Norte. A outra entada é pelo vale do Apodi. Essa água vem canalizada até a divisa com o Rio Grande do Norte, a altura de Major Sales, no Alto Oeste, até o rio Apodi, passando pela barragem de Pau dos Ferros. Agora, o que acontece? Essas obras de recepção das águas não foram feitas. Cito duas ações que deveriam ter sido feitas: as obras e um plano de gestão dessas águas. Além disso, esses dois eixos tem uma complexidade hidráulica e operacional, talvez maior que qualquer outro projeto de transposição de águas do mundo, e eu não vi, até agora, ninguém cuidando de como cuidar dessa questão operacional.

Isso poderá comprometer e até interromper o uso das águas?
Sim! A água da transposição é conduzida a uma altura maior que o leito do rio. A cota do São Francisco é bem abaixo, as aguas tem que subir serras, bombeadas, e isso é um processo caro, gasta muita energia, envolve máquinas que precisam de manutenção, pessoal qualificado... É um projeto que se você não tiver um bom sistema operacional ele fica altamente ineficiente e caro. O Ministério da Integração nunca cuidou dessa parte nestes 10 anos que vem cuidando da obra. Não existe um projeto operacional para a transposição do São Francisco.

E porque o senhor diz que isso faz com que a transposição, hoje, não interessa ao Rio Grande do Norte?
O Rio Grande do Norte precisa de água, de forma mais urgente, no Vale do Apodi. A parte da transposição, do Eixo Norte, que vai para o Vale do Apodi, o projeto executivo dele não estar sequer concluído. A obra não foi contratada ainda. A contratação dessa obra e mais a execução dela, deve levar tudo a ser concluído em 2022. O Vale do Apodi não tem como esperar até lá. Onde as águas da transposição deverão chegar daqui a um ano, um ano e meio, que é no Vale do Açu, nós temos duas grandes barragens, a Armando Ribeiro Gonçalves e a de Oiticica, que está em construção. Somando essas duas barragens, nós temos água mais que suficiente para atender a demanda do Rio Grande do Norte hoje e nos próximos dez anos. Então, o que acontece? Não vamos precisar de água da transposição. O que devia ser uma solução, vai acabar se tornando um problema. Porque teremos que pagar pela execução do projeto, pela manutenção do projeto e sem utilizá-lo. Pelo que se fala ai, só com a tarifa de manutenção para não usar a água, isso vai custar ao Rio Grande do Norte R$ 1,2 bilhão. E isso é resultado do fato de que, durante esses 10 anos de execução das obras, nada foi feito em relação ao lado operacional do projeto.

O senhor poderia citar o que poderia ter sido feito?
Olha, por exemplo, da Barragem Armando Ribeiro Gonçalves saem vários sistemas adutores. Existe cerca de 40 ou 50 cidades que são abastecidas por esses sistemas. Novos sistemas deverão ser feitos, 10 ou mais, para garantir o abastecimento humano, mas esse tipo de consumo é muito baixo. Para você uma ideia, um ser humano consume em torno de 70 metros cúbicos d´agua por ano. Agora, a grande vocação do Rio Grande do Norte é a irrigação. Aqui nós temos áreas de excelente qualidade, na Chapada do Apodi, no Mato Grande, no Baixo Açu, com relação a exploração da agricultura irrigada. Essa é uma atividade que mudou muitos países do mundo. A Califórnia, nos Estados Unidos, não era nada e hoje um é dos estados mais ricos daquele país graças a irrigação, a partir de uma transposição. Nossas condições são bem melhores que as da Califórnia, se tivermos a irrigação para produzir. Então, o que aconteceu? Nós temos um bom programa de abastecimento humano, estão ai as adutoras, mas não temos um programa de irrigação, nestas três áreas que eu citei, para podermos utilizar as águas da barragem de Santa Cruz, no Apodi, da Armando Ribeiro e de Oiticica. Agora, essas barragens todas interligadas a transposição dariam a garantia d´agua aos sistemas produtivos, se tivéssemos essa política de irrigação.

Esse tipo de coisa leva tempo para ser feita. Não vai dar para fazer agora.
É, leva um tempo! Mas, tem um lado positivo nisto tudo. Eu tenho conversado bastante com o secretário estadual de Agricultura, Guilherme Saldanha, e o secretário de Recursos Hídricos, Ivan Junior. Eles são da região do Baixo Açu e têm uma visão exata dessa necessidade e já estão se movimentado no sentido de um ponta pé inicial nestes projetos. Isso é positivo. Agora, isso precisa de dinheiro. Não tem, infelizmente! Por isso, para os próximos dez anos, eu acho que a transposição do São Francisco, que deveria ser um fator de desenvolvimento, vai contribuir muito pouco para o Rio Grande do Norte.

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