A agressividade patológica

Publicação: 2019-06-25 00:00:00 | Comentários: 0
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João Medeiros Filho
Padre

No passado, pessoas divergiam e polemizavam, mas não se odiavam. Não havia a predominância da agressividade de hoje (camuflada em petulância, arrogância e violência), nem gestos ditatoriais, quando se quer impor uma mentira maquiada de verdade. Estudiosos comentam que, mesmo nos anos sombrios de regime de exceção, não se sentiam nas divergências políticas tanta intransigência, tamanha ira e incontido rancor. Hoje, perderam-se o respeito, a civilidade e a ética. Tornou-se comum ouvir discursos da tribuna do parlamento, contendo frases com ingente falta de decoro: “Vossa Excelência é um desclassificado”. Os termos não combinam e são antagônicos. Se alguém é realmente uma excelência, não é desclassificado. Se for isto, não pode ser excelente. Ignoram-se a semântica e a epistemologia. Tais palavras tornam-se desprovidas de nexo. Por que e para que tanta virulência e impetuosa necessidade de humilhar e debochar daqueles que ousam ter opinião contrária? O equilíbrio racional se esgarçou. Ruíram os grandes debates e discussões sérias. Do ponto de vista filosófico, o niilismo parece ter tomado o lugar do otimismo e bom senso. Tem-se a sensação de existir um altar erigido aos deuses Egoísmo e Inverdade. Diante deles a solidariedade e a decência devem se curvar.

Ao perpassar pelas páginas da História, poder-se-á aprender lições importantes. Na Alemanha nazista, os supostos arianos se julgavam no direito de exterminar judeus, ciganos etc. Na União Soviética, os dissidentes padeciam nos rigores do inverno siberiano ou eram sumariamente executados. Nos EUA, a segregação racial impedia os negros de frequentar escolas e outros espaços públicos usados pelos brancos. A seletividade pode se tornar uma anomalia, estabelecendo limites entre os que são favoráveis e os contrários. Discordar é um direito intrínseco ao ser humano, à sua liberdade e à democracia. Nas relações pessoais ou sociais, a imposição do pensamento ou da vontade é sintoma de tirania. É o que parece acontecer no Brasil de hoje. Há despotismo de esquerda e de direita. Tenta-se, sem argumentação convincente, impingir aos outros sofismas e engodos. Faltam o verdadeiro sentido e a aceitação do contraditório. Não se acata outra visão dos problemas e da sociedade.

Hoje, o vazio de princípios e a ausência de lideranças vêm abrindo espaço à belicosidade. Ideias divergentes não são debatidas em fóruns adequados. A sociedade despolitizada gera manifestações de vinganças pessoais. Diante dos graves problemas nacionais, a preocupação não é buscar soluções justas e profícuas. O que importa é condenar e destruir os opositores. Instalou-se a picardia obtusa e inconsistente. Não basta contradizer o adversário, prevalece a sanha em desmoralizá-lo e destruí-lo. Não se procura argumentar, mas esmagar, em nome da obsessão pelo poder. A pátria é relegada ao abandono. Faz-nos lembrar o poema de Affonso Romano de Sant´Anna: “uma coisa é um país, outra o aviltamento”.

As redes sociais estão dando importância demasiada a certas pessoas e alguns grupos, que não a merecem. Oferecem aos usuários uma tribuna permanente de contestação. Em lugar de debates, têm-se celeumas. A insensatez ultrapassa os limites da razão e aceitabilidade. Abdicou-se da argumentação para se adotar a ridicularização. A falta de argumentos convincentes conduz necessariamente ao deboche. O linchamento virtual é efeito dessa carência de ideias e propostas, gerando o ódio. O ego se arvora em juiz absoluto. Há que desarmar os ânimos. Isso é papel relevante das igrejas, que devem pregar a paz, procurando diminuir o exército dos irados e pretensos donos da verdade. É preciso incentivar o respeito ao outro e poupar o coração do ódio. Ora, este só faz mal a quem o acumula dentro de si. Jamais Cristo o incentivou aos discípulos: “Eu, porém, vos digo: amai vossos inimigos, fazei o bem aos que vos perseguem. Tornar-vos-eis assim filhos de vosso Pai celestial, pois Ele faz nascer o sol sobre maus e bons” (Mt 5, 44-46). O preceito evangélico não significa condescendência com o mal, mas abraçar a tolerância e empenhar-se para fazer com que as pessoas não ajam como animais ferozes. Vale recordar o salmista: “Como é bom os irmãos viverem unidos”! (Sl 133/132, 1).




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