A alegria na velhice

Publicação: 2019-05-05 00:00:00 | Comentários: 0
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Woden Madruga
woden@tribunadonorte.com.br

Remexendo na gaveta dos papeis desarrumados encontro uma carta do doutor João Medeiros Filho (1904-1987), o grande advogado, jurista, escritor, imortal da Academia Norte-Riograndense de Letras, excelente proseador, mormente (como gosta de dizer mestre Gaspar)quando a conversa acontecia ao redor de uma mesa, um litro de uísque no centro. Seu nome batiza uma das principais avenidas de Natal, a que liga a Praia da Redinha ao bairro de Igapó, a Redinha,  que ele tinha como uma ilha, sua pátria sentimental.“Você sabe que a Redinha é uma ilha? ”, perguntava. Já Natal, para ele, era o continente.

A carta, escrita à mão, datada de maio de 1976, fala das alegrias e tristezas da velhice e está enfeitada com várias citações, começando por Simone de Beauvoir, depois emendada com Victor Hugo, Pétain e Jouhandeau. A velhice no repertório de todos eles.  Prosa rica e gostosa, ao jeito do autor da missiva que, à época, andava pelos 72 anos.  O doutor João Medeiros viveu mais dez. Deliciemos, então, com a sua carta:

“Meu caro Woden Madruga Saúdo-o

Diz Simone de Beauvoir, (‘Velhice, realidade incômoda’), “que o aposentado que nem sequer pode tomara um copo de vinho com os amigos, privado de um lugarzinho exclusivamente seu e onde possa ficar, ou de um cantinho de jardim que lhe seja possível cultivar e até de recursos para comprar um jornal, sofre menos em consequência do excesso de lazeres que da impossibilidade de os utilizar” E acrescenta: “uma aposentadoria gradual apresentaria, com toda a certeza, menos inconvenientes que a aposentadoria guilhotinada, a aposentadoria radical.”

Daí porque lamentam os gerontólogos ver as pessoas de idade condenadas a uma inatividade que lhes apressa a decadência.

Conta-se que Victor Hugo salvou sua velhice exilando-se e tornando-se o símbolo glorioso que havia idealizado. Gostava ele de ler suas últimas obras para os amigos, dizendo-lhes: “Tenho 74 anos e estou começando minha carreira”. Penso que V. Hugo foi um privilegiado.

“Para que a velhice não represente uma derrisória paródia de nossa existência anterior”, aconselha Beauvoir, “só existe uma solução: continuar lutando por objetivos capazes de conferir um sentido a nossa existência: Tais como tais o devotamento a indivíduos, a coletividades ou causas, ao trabalho político, ou social, intelectual e criador”.

Woden, quando vejo um homem chamado Ernesto Geisel lutar, aos 70 anos, por um Brasil maior, demonstrando à França, à Inglaterra, ao mundo, que somos uma grande nação, sinto que a velhice nem sempre é um fardo penoso: pode ser a reafirmação de uma personalidade, apesar da biologia, explicando-se esse fenômeno pela vinculação da inteligência e da memória de um indivíduo à atenção que presta à vida, a seus interesses nesse mundo, ao conjunto de seus projetos.

Se o homem tem elevado nível intelectual, mais fraco e lento é o decréscimo de suas faculdades. Geisel desmentiu Churchill quando este afirmou: “É difícil inventar interesses novos no fim da vida”. Homens dessa têmpera não perdem o interesse pela vida atuante. Têm, talvez, interesses polivalentes. Lembra S. de Beauvoir que Clemenceau, apeado do poder, escrever. Nunca se deve dizer como Pétain: “Fui um tenente velho, um velho capitão e um velho coronel, fui velho em todas as patentes”.

No meu caso particular, amigo velho, ou velho amigo, a velhice em mim é motivo, ás vezes, de grandes tristezas ou de grandes alegrias. Interesses polivalentes?

Estou com Jouhandeau: “Pelo fato de já não ser sensível aos mesmos espetáculos e concertos que sensibilizam o jovem, o velho não deixa de perscrutar horizontes igualmente extraordinários e de perceber acentos maravilhosos”.

Todo este exórdio, meu caro Woden, é para informá-lo de que, aproveitando as férias da minha faixa etária (imagine que o Brasil, não o país, mas o seresteiro, só me chama de ‘patriarca’, que significa respeitável, venerando), para não dizer ‘velhice’, vou publicar ainda este ano os três (3) primeiros volumes do livro“Cadernos de Direito Aplicado” a ser editado no Rio.

É quase obra didática, com um sentido eminentemente prático, de acordo com a experiência vivida no Pretório: 1º “Responsabilidade de Prefeitos e Vereadores – Casos Julgados”; 2º “Terras Devolutas e Terrenos de Marinha”; 3º “Presunções Judiciais em Matéria Penal”, de que o exemplar que lhe mando será o introito.

Em 1966, no governo Aluísio Alves, com o volume editado naquela época –“Cadernos do Ministério Público”, dei minha contribuição nas letras à vida forense, como já fizera em 1932 com a “Revista Jurídica”. Mas não tive sucesso neste cometimento. Agora, volto-me para o exercício da advocacia, trazendo dos arquivos dos cartórios alguns casos, através dos quais pode o advogado novo orientar-se bem melhor no acertamento de questões análogas.

Estranham alguns colegas, indiscretos ou curiosos, que escreva sobre Direito Penal, Direito Civil, Direito Administrativo – que sei lá? Acontece que, tanto quanto na carreira militar, em que o general não tem arma – na significação de cada uma das subdivisões básicas do Exército -, sou como uma espécie de Almirante reformado, quemora à beira da praia e fala de tudo o que viu nos portos, inclusive navios...

Disponha de João Medeiros Filho
Redinha, maio, 1976”.

40 anos de literatura
Noutro canto da gaveta, um bilhete de Celso da Silva (1929-2005), poeta, ator, jornalista, também craque da boa conversa. Escrito em cartão com sua caricatura. Está datado de 29 de setembro de 1992:

“Caro Woden Madruga:

Me dê uma carona no seu espaço especial do Jornal de WM, para divulgar que estou completando 40 anos de atividade literária, desde a estrei com “26 Poemas do Menino Grande”, Tipografia Villar, 1952. Hoje tenho 14 títulos publicados, seis outros estão no forno para sair até dezembro.

Estou mais velho como esse evento, mas saindo com “saúde” pelo ladrão, pois escrevo mais atualmente do que antes.

Agradeço a divulgação destas informações.

Abraço, Celso”.

No Beco 
Alex Nascimento está programando um tour pelo “novo” Beco da Lama, tendo como guia o poeta e flâneur Volonté, peagadê daquelas calçadas. Espera encontrar Shakespeare por lá. Ou Noel Rosa.







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