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A alma da cidade
Publicado: 00:00:00 - 23/01/2022 Atualizado: 11:55:29 - 22/01/2022
Cláudio Emerenciano
Professor da UFRN

Vivemos momentos e circunstâncias impactantes, imprevisíveis, inesperados, angustiantes, traumáticos e enigmáticos. Eis um fenômeno planetário. É uma vertente que convulsiona concepções, valores, princípios e ideais. Sistemas desmoronam ou se fragilizam sob impacto da “globalização”, que, através da internet, adultera, subverte ou esmaga culturas em todo o mundo. Nunca foi tão perceptível a fragilidade humana, especialmente ante a pandemia e a irrupção de tragédias deflagradas pela natureza: terremotos, tsunamis, enchentes, secas etc. Mas a fé em Deus, a espiritualidade, a visão e a percepção do transcendental, a consciência do significado infinito da vida, a identificação do amor como elo divino entre o Criador e a humanidade, fulminam todos os antagonismos. Revigoram a esperança e o sentimento de paz em cada pessoa. As civilizações sobrevivem quando preservam a dimensão moral do homem. Essa é a marcha inconfundível e incontornável da humanidade.

Nesse homem, que convive com cataclismas de várias naturezas, alojam-se e se expandem sentimentos, percepções, espiritualidade, valores, maneira de ser, agir, pensar e querer. Tipifica-se, assim, uma cultura, que identifica e lastreia irrevogavelmente a alma coletiva. Os desvios e as contradições individuais não maculam, entretanto, as características de uma cultura. Essa é, por exemplo, a conclusão de André Bonnard em “A civilização grega”, um estudo magnífico, erudito e aliciante. Impérios e sistemas, no passado e no presente, são submetidos à erosão e à ruína por não terem compromisso real, efetivo, amplo e irrestrito com a dimensão moral e a dignidade de cada homem. Há um humanismo integral, universal, verdadeiro, legítimo, que fundamenta o mundo e a vida. É agregador. Consagra a interdependência de uns com os outros. Elos, vínculos e laços de várias matizes integram o âmago das pessoas, do mundo e da vida. Os homens os reconhecem e os exercitam desde o nascimento. No regaço da mãe, cada um já identifica pelo olfato os que lhes são mais próximos.

A vida é um interminável aprendizado de interações entre pessoas e delas com o meio ambiente. No lugar de origem, grande ou pequeno, sedimentam-se afetividades, relações e sentimentos. Atributos que dão substância à existência individual e coletiva. Enfim, a condição humana é surpreendente: tudo assimila, percebe, detecta, compreende, estreita, incorpora. Tradições, hábitos e costumes revelam a essência do homem atemporal, imodificável em suas opções existenciais, sentenciou Levy Brühl em “A alma primitiva”. Essa pluralidade dos sentimentos humanos foi descortinada por Shakespeare e Cervantes. Tudo quanto dignifica ou avilta o ser humano. Nada lhes escapou. O que é intuído depois é racionalizado. Tudo no mundo, numa espécie de síntese, tende à racionalização. Em todos os tempos e culturas.

Para onde vamos, ao longo da vida, carregamos, no recôndito da alma, dos sentimentos e da maneira de ser, ligações, condicionamentos e percepções originais da cidade natal. Especialmente referentes à infância e à adolescência. De certo modo, esse universo define se a pessoa é provinciana ou cosmopolita. Foi esse o dilema, o conflito e a dúvida de natureza espiritual, vivencial e sentimental de Eça de Queiroz, expostos magistralmente em “A ilustre casa de Ramires” e “A cidade e as serras”. Mas João do Rio e Machado de Assis, inquestionavelmente, revelaram-se chantados na realidade urbana do Rio de Janeiro, no século XIX e começo do século XX. João do Rio, em “A alma encantadora das ruas” (coletânea de crônicas sobre o Rio), rivalizou-se, em forma e conteúdo, com Guy de Maupassant e Collette, que imergiram, em seus contos, na vida parisiense da mesma época. Suas evocações comprovaram o fenômeno da universalidade de sonhos, fantasias, buscas, questionamentos e aspirações. Submetendo circunstâncias. Eis por que a condição humana é imprevisível.

A alma da cidade de origem acompanha cada homem. Inspira-lhe o ver o mundo e a vida. Juscelino Kubitschek, exilado em Lisboa, Paris e depois Nova York, a cada instante se lembrava de Diamantina e de suas serestas. Nada o excluía de suas origens. Mas José Lins do Rêgo, o notável romancista de “Menino de Engenho”, “Banguê” e “Fogo Morto”, em 1942 proclamou seu amor ao Rio, na crônica “Música carioca”: “A música carioca é assim como esta imagem de Noel Rosa. É música cálida, de penetração, de força viva. Faz a gente viver em intimidade com a terra e a gente... Schubert não foi mais do que um Noel Rosa da Áustria. As doces melodias do infeliz ariano são da mesma marca das do pobre mestiço de Vila Isabel. Ambos viviam e condensavam o que andava na alma de sua cidade e seu povo: vozes de namorados sem sorte, cantos de corações feridos, de almas ardendo de paixão. O Rio tem a sua música”. Nelson Rodrigues, Rubem Braga, Antônio Maria, Fernando Sabino, Stanislaw Ponte Preta,  Raquel de Queiroz, Paulo Mendes Campos, e Clarice Lispector, entre muitos outros, misturaram o seu ser com a alma do Rio. Conferiram a cada carioca a condição de personagem natural, autêntico e original de uma forma de vida singular e inimitável. Geração de cronistas sempre viva pela extensão e monumentalidade de sua obra.

Em “O coração do rei”, a escritora Iza Salles resgatou D. Pedro I. Captou sua real dimensão humana. Personagem que detectou, já no seu tempo, o espírito, os valores e as características atávicas de uma gente com a qual conviveu a maior parte de sua vida. Morreu na mesma cama na qual nasceu, em Queluz (Portugal), com amor ao Rio de Janeiro e seu povo. Suas últimas palavras evocaram com saudade o povo,  paisagens, canções populares e o viver dos cariocas. Foi seu “canto de cisne”.  Rubem Braga, em “A menina Silvana” e “Cristo Morto”, torna viva e atemporal “Cachoeiro de Itapemirim”.  Chamou-a de “cidadela universal”: era sua alma a falar e a suspirar...

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