“Alternativa: mercado internacional”

Publicação: 2016-03-29 00:00:00
Entrevista » José Odécio Júnior
Presidente da Abih/RN

Marcelo Lima

Repórter

Até o final da alta estação deste ano, a crise econômica ainda não havia afetado incisivamente o turismo no Rio Grande do Norte, o principal segmento de serviços do Estado. As taxas de ocupação continuavam altas e a procura também.  Inclusive, Natal tem a tarifa de hotel mais barata entre os dez destinos mais procurados do Brasil. Mas para o presidente da Abih/RN, José Odécio Júnior, esse quadro aparentemente bom, mascara problemas que podem vir à tona nessa baixa estação, quando se espera que a crise finalmente se hospede no turismo caso a iniciativa privada e os governos busquem a saída para ela rapidamente. Nesta entrevista, o líder empresarial explica quais os problemas se avizinham e qual seria o meio para amenizar a crise nesse setor fundamental para a economia potiguar.
José Odécio Júnior - Presidente da Abih/RN
Como o turismo do RN tem recebido o impacto da crise?
No ano de 2015, tivemos um resultado que pode ser considerado positivo. Nós recuperamos uma ocupação que tínhamos, registrando que 2014, apesar da Copa do Mundo, foi um ano de ocupação mais baixa. Terminamos o ano de 2015 com um aumento de 20% em relação a 2014, mas igual a 2013 e 2012. Janeiro de 2016 também foi um mês bom. Foi resultado do trabalho do ano de 2015. Coincidiu também com a variação cambial em desfavor do real. As pessoas deixaram de viajar para fora. Mas em fevereiro de 2016 já apresentou um dado um pouquinho diferente do que a gente espera, 1% menor que o mesmo mês do ano passado na nossa pesquisa. E a baixa estação, que começou em março, abril e maio, já está preocupando bastante porque não há procura para Natal. Esse é um termômetro dado pela CVC, a maior operadora de turismo brasileira. Eu já alertava isso lá em janeiro quando se fez muita festa da alta estação. Naquele momento, enquanto se comemorava, já estávamos planejando o que a gente ia fazer na baixa estação. Nesse momento temos bastante preocupação com o que pode acontecer nessa baixa estação. A economia está se depauperando muito rápido. As pessoas estão apertando o pé no freio do consumo e isso está gerando uma redução do movimento especialmente na hotelaria. Já aconteceu em outros setores e agora está acontecendo com a hotelaria.

Em entrevistas no ano passado, o senhor chegou a falar que a cidade conseguia bons resultados ocorriam a base de sacrifícios da rede hoteleira. Isso deve continuar neste ano?
Nós recuperamos em 2015, mas num cenário em que Natal tem a menor tarifa de hotéis entre os dez destinos mais procurados do Brasil. Isso significa dizer que a hotelaria não conseguiu recuperar a sua rentabilidade. Isso aconteceu porque a tarifa aérea para Natal é mais cara. Muitos que vão para Pipa descem em João Pessoa porque é mais barato descer na capital vizinha e ir para Pipa. Ou seja, você tem um hotel que está cheio, mas está cheio com uma tarifa menor. Nesse ínterim, o preço da energia aumentou em mais de 50%, os salários aumentaram, os insumos aumentaram. Então, a hotelaria do RN perdeu em rentabilidade. Se ela não baixa o preço para ser competitiva no mercado, a gente não teria o resultado de ocupação. Isso não quer dizer que o resultado no faturamento ou resultado líquido foi o mesmo. É preocupante porque, no médio prazo, teremos hotéis sem qualidade, porque não vai ter recurso para investir na manutenção, o que chamamos de retrofit.

Quais tipos de ajustes o setor tem feito no orçamento?
Para fazer ajustes nessa baixa estação, alguns hotéis já começaram a fazer demissões. Primeiro começa pela dispensa daqueles que foram contratados na alta estação. Segundo, começa a fazer ajustes nos seus departamentos para enfrentar de fato essa dificuldade que se tem.

Vocês chegaram a fazer algum levantamento de quanto a rentabilidade dos hotéis caiu?
Ainda não, mas é muito sintomático. A gente viu que a diária média manteve-se inalterada nesses últimos três anos. Então, se calcula aí uma perda de rentabilidade a volta de 40%.

O centro de conexões de voos, caso venha para o RN, pode ajudar a diminuir o valor da passagem aérea para Natal?
As passagens tendem a ser mais baratas porque se você tem muitos voos diários, para fazer as conexões, você precisa manter uma malha aérea constante. Portanto, você conseguirá fazer com que haja um fluxo maior. Consequentemente, mesmo o cara que não venha fazer a conexão vai se beneficiar pelo preço da tarifa.

Na gestão anterior do governo estadual, reclamava-se que a divulgação do destino Natal era muito falha. Como está essa situação nessa gestão?
Nós tivemos um primeiro ano onde o governo retomou a participação nos principais eventos do turismo nacional e teve a participação em alguns eventos do turismo internacional. Vieram sendo feitas algumas ações em 2015, um ano difícil, o governo entrando. Com a participação da iniciativa privada, foram feitas ações de participação do Estado nesses eventos. O governador reduziu o ICMS do querosene de aviação, o que é muito bom. Com a melhora da situação econômica daquele país, eles começam a voltar para o RN. Inclusive, a Gol havia anunciado a possibilidade de uma segunda frequência. E se isso ocorrer vai ser muito bom. Fez uma campanha do RN em Portugal junto com a operadora Abreu com a participação da Abih. Essas ações foram fundamentais para que o ano 2015 fosse um ano exitoso no quesito recuperação e manutenção do ânimo da hotelaria. Mas nós temos destinos que competem com Natal: Fortaleza; Recife; Maceió, que já vem sendo feito um trabalho de muito tempo pelo governo que lá estava e vem dando continuidade pelo governo que entrou, inclusive foi um destino mais procurado nessa baixa estação do que Natal nos dados da CVC. Então, por haver essa competição, as operadoras pressionam muito a rede hoteleira local, porque elas não têm como pressionar a aviação civil para baixar tarifa. Elas pressionam a hotelaria para baixar tarifas. Dizem “olha, Maceió está passando vocês”.

Há resistência dos governos em investir em divulgação turística em momentos de crise econômica?
É um momento de poucos recursos, sim. Quando digo Estado me refiro ao município de Natal e ao Estado. Mas é preciso que se olhe para o turismo e diga assim: o dinheiro que se investe na divulgação, ele retorna imediatamente para cidade na manutenção e geração de novos empregos, do comércio como um todo que se retroalimenta do turismo e dos demais setores que compõem a cadeia do turismo. Todo o investimento que se destina em divulgação retorna rapidamente para a economia do Estado. Mas muita gente diz assim: “como é que eu vou investir no turismo se preciso de mais dinheiro para a educação e saúde?” Só vai ter mais dinheiro para a questão do bem-estar social se gerar imposto. Vai gerar imposto com a economia parada? Óbvio que não. Se a economia estiver parada, vai cair a arrecadação, vai faltar na Saúde e Educação. Não vai ter para o turismo, mas também vai faltar para os outros setores. Então é importante que se olhe para o turismo e diga assim “este é o setor que pode alavancar a economia e gerar receita para os demais”. Está provado que o turismo faz isso. Estamos esperando as definições orçamentárias para saber quanto o governo vai dispor para divulgação.

E como está a participação da Prefeitura de Natal?
A gente já sabe que existe um calendário de feiras que o governo vai participar. Falta ainda a Prefeitura de Natal dizer como ela vai participar, seja dessas feiras e outros eventos que o setor do turismo promove, a exemplo de workshops. Você vai a Belo Horizonte e promove o destino em pequenos eventos. Você envolve os agentes de viagens que são quem vende. Então, você ataca durante o ano inteiro várias cidades. Esse é um trabalho de formiguinha que a Abih faz, mas precisa também dos entes públicos, que entrem com a parte institucional, porque você não vende um hotel, se vende um destino. Esse trabalho dá um resultado muito maior a nível de cidades brasileiras.

E no mercado internacional, qual a estratégia?
A gente acabou de chegar de uma feira internacional de Lisboa. Tivemos uma reunião com o presidente da Associação Portuguesa dos Agentes de Viagens que sugeriu que fossem feitos alguns fan tours com agentes de viagens portugueses, porque, passados dez anos, que o RN era visto e conhecido em Portugal, hoje poucos são os agentes de viagem de conhecem o RN. Há a possibilidade de fazer três fan tours de 30 a 40 agentes de viagens de Portugal neste ano. São agentes de viagens novos. Natal e o RN precisa voltar a ser divulgado em Portugal. Lá se compra muito em agência, diferentemente de outros países que se compra muito em sites. Portanto, é um trabalho que a gente vai retomar agora, porque o mercado internacional se mostra agora atrativo para nós em face da desvalorização do real. É preciso fazer também esse trabalho na Argentina.

Qual a perspectiva de recuperação de toda a economia e do turismo?
Na crise, há quem chore e há quem venda lenços. Não adianta esperar pelo fim da crise. Você tem que procurar na crise as alternativas que são muito claras: fomentar o mercado internacional. Nós temos uma ligação direta com Portugal, uma ligação direta com Buenos Aires e a gente tem a possibilidade de se incrementar o mercado chileno. Você tem então três destinos, que você pode investir em divulgação e começar a obter em pouco tempo o resultado em face da variação cambial. O mercado interno vai ter uma queda natural em função da economia. Aí não adianta jogar todas as fichas no mercado interno, tem que diversificar um pouco esse risco. Indo para mercado externo, você mantém uma tarifa média mais alta, traz divisas para o Brasil e com isso movimenta a economia como um todo com um cliente com o poder aquisitivo maior. Ao mesmo tempo você pode ser mais seletivo com o turista interno, buscando o turista que quer vir para Natal mesmo com uma tarifa mais alta. O turista internacional acaba compensando aquele turista interno que está pechinchando mais e acaba não vindo. Mas tudo isso passa por planejamento e divulgação e promoção permanente do destino nesses três países. É nesses mercados internacionais onde a gente tem chance que equilibrar a crise. Na crise, a gente não pode ficar esperando os efeitos dela, porque senão a gente vai fechar as portas.


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