Política
A arma da campanha de Aluízio
Publicado: 00:00:00 - 17/11/2013 Atualizado: 14:00:18 - 16/11/2013
Fazer jingle de campanha para um candidato, seja a que cargo for, é muito fácil hoje em dia. Além do nome, número e partido, é só contratar uma pesquisa, ver as demandas populares para definir o programa de governo e usar as palavras mágicas “avanço”,  “compromisso”, “melhorias”. Depois da letra pronta é só escolher o estúdio em qualquer parte do mundo para fazer a gravação.

Em 1960, quando o então candidato a governador Aluízio Alves revolucionou as campanhas no Rio Grande do Norte usando a música para massificar as propostas de governo e provocar emoção no eleitorado, o processo não era tão fácil assim. A primeira sinalização nesse sentido ocorreu no final de 1959, quando foi apresentado, por Erivan França, ao sambista  Edmundo Andrade, autor da letra da “Marcha da Esperança”, que dizia: Aluízio Alves, veio do sertão lá do Cabugi...”

A receita deu certo. A marcha composta no Largo do Carioca, segundo diz o jornalista João Batista Machado, autor do livro  “1960: Explosão e Paixão e Ódio”, virou hino da Cruzada da Esperança. Mas a dinâmica da campanha exigia mais do que isso para motivar os correligionários e rebater os ataques dos adversários.
Jacira Costa e o deputado Agnelo Alves: conversa sobre as músicas que embalaram a campanha da Cruzada da Esperança no RN
Foi aí que surgiu uma jovem, servidora pública, estatura mediana, que morava no Alecrim, tinha um imenso talento para compor músicas e se integrou de corpo e alma à campanha. O nome dela? Jacira Costa, natalense que completou 90 anos de idade no dia 23 de outubro. Na semana passada, o deputado Agnelo Alves fez questão de fazer uma visita à autora de sucessos memoráveis como “Frevo da Gentinha”, “Trem da Esperança”, “Eu não mudei nem vou mudar.”

O Frevo da Gentinha surgiu na efervescência da campanha. Foi fruto da capacidade que o grupo de Aluízio tinha de transformar os deslizes dos adversários em verdadeiras bombas de efeito devastador.  Num discurso para reforçar a candidatura do pai, Djalma Marinho, o jovem Márcio Marinho destacava o apoio que os governistas tinham dos profissionais liberais, intelectuais, dos professores, mas precisava também do “voto da gentinha” para consolidar a vitória.

Agnelo relembra: “A gente dava o mote que interessava explorar na campanha. Ela ouvia, gesticulava e começava a cantarolar, batendo com a mão direita na perna. Depois, passava para o papel, a letra era aprovada e ela ia gravar a música no Recife.”  Tocada nos comícios e na Rádio Cabugi as músicas eram facilmente assimiladas pelos eleitores.

Trem da Esperança fugiu desse padrão. Jacira aproveitou a edição do decreto governamental, proibindo uma passeata da Cruzada da Esperança, para eternizar o episódio, protagonizado pela “gentinha”, como eram conhecidos os eleitores de Aluízio. “Ela já chegou com a música pronta. O Comitê ficava  Avenida Rio Branco (coração de Natal), numa casa onde hoje funciona a C&A”, relembra Agnelo.

Agnelo lembra que a presença de Jacira na campanha de 1960 foi fundamental para a eleição de Aluízio Alves. “Além das músicas que reforçavam as bandeiras de campanha [energia de Paulo Afonso, industrialização do Estado, melhoria salarial para os funcionários públicos, habitação popular] ela também fazia paródias rebatendo as propostas dos adversários.”

Foi igualmente importante na campanha vitoriosa de Monsenhor Walfredo Gurgel e na de Agnelo para a Prefeitura de Natal.  Depois da edição do AI-5, que cassou “os Alves”, Jacira deu um tempo nas músicas com viés político, mas não deixou de compor.

Escute os jingles "Trem da esperança" e "Frevo da gentinha"



Recordações de um tempo dourado

Aos 90 anos de idade, a aposentada Jacira Costa está lúcida, apenas a memória começa a apresentar sinais do tempo. O violão está guardado num canto da casa simples em que mora, no conjunto Candelária, desde meados da década de 1980. Vez por outra, ela dedilha alguma coisa.

Jacira é autora de inúmeras músicas, duas delas gravadas no auge do sucesso pelo cantor Agnaldo Rayol, que conheceu num programa de auditório da Rádio Poti. “Volta aos meus braços” e “Tú és meu castigo” foram gravadas no início da década de 1960 ainda nos tempos dos “bolachões” de 78 rotações. “Tú és o meu castigo” passou seis meses nas paradas de sucesso. Era tocada em todo o Brasil”, diz, orgulhosa, a sobrinha Sônia Maria Costa que luta para preservar a memória e o acervo musical da tia.
Jacira comemora 90 anos na casa em que mora, em Candelária
Jacira Costa vai levando a vida com o dinheiro da aposentadoria de funcionária do Ministério do Trabalho. Como servidora federal também trabalhou na antiga Legião Brasileira de Assistência (LBA). De direitos autorais, recebeu quase nada. Reservada, tem poucas fotos daquela época. No álbum de família, não há registros fotográficos dela nas campanhas vitoriosas, nem nos estúdios de gravação.

Sobre as campanhas eleitorais, Sônia lembra que a tia saía sozinha de Natal para Recife, onde ficavam os melhores estúdios de gravação do Nordeste naquela época. “Ela não cantava. As músicas eram gravadas pela Orquestra de Frevo do Maestro Nelson Ferreira.  Claudionor Germano era um dos intérpretes.  Luísa de Paula ficou conhecida por causa das músicas de campanha.

Memória


Frevo da gentinha
Autor: Jacira Costa

Eu não ligo o que falem
e não quero saber
Sou da Esperança sou demais
até morrer
Por Aluízio para o der e vier
O resto é conversa fale quem quiser
Não perca tempo, venha se divertir
Que este ano a gentinha
vai brincar até cair

Trem da esperança
Autor: Jacira Costa

Foi no Trem da Esperança que Aluízio viajou
Quando chegou na Guarita,a notícia encontrou:
Que o chefe de polícia,
Em decreto oficial,
Proibiu os seus comícios
No coração de Natal.
Mas o povo em passeata pra lá desfilou,
E em frente ao comitê
Aluízio falou.

Cigano feiticeiro

Autor: Jacira Costa

Cigano feiticeiro, seu feitiço meu pegou
Aqui neste lugar todos você já conquistou
Pela primeira vez que
você veio ao sertão
Apresentou uma lei e conseguiu execução
Cigano feiticeiro, feiticeiro,
ai, meu Deus!
Eu faço tudo pelo governo seu
E o eleitor o que deve fazer?
É virar Cigano e votar em você.

E o adversário que o caluniou
E lhe chamou cigano, seu prestígio aumentou
Pelo voto secreto lhe daremos exposição
E a esta oligarquia quem
responde é a eleição


Marcha da esperança

Autor: Edmundo Andrade

Aluízio Alves veio
do sertão lá do Cabugi
Pra sanar o sofrimento de seu povo
Sua plataforma eis aqui:
Assistência e cuidado ao agricultor
Melhores salários pro trabalhador;
Com a energia de Paulo Afonso, industrialização
Para mocidade potiguar, saúde e educação
O povo oprimido, do operário ao doutor,
Escolheu seu candidato,
Aluízio Alves pra governador.

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