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TN Família
'A arte é um esporte radical', diz Daniela Mercury
Publicado: 00:00:00 - 05/12/2021 Atualizado: 12:14:39 - 04/12/2021
Bernardo Luiz
Repórter

A rainha do Axé, Daniela Mercury afirma que “se o artista parar de correr perigo, não fará nada diferente do que já fez”. Em entrevista à TRIBUNA DO NORTE, ela fala sobre isolamento social, canções de sucesso, nacional e internacional, e sobre a solidificação do  axé como gênero musical no Brasil e no mundo, que fez com que ela recebesse o título de ‘Rainha do Axé’. Embaixadora do UNICEF desde 1995 e da ONU na Campanha Mundial Livres e Iguais (Free and Equal), que luta pela igualdade e pelos direitos humanos na causa LGBT, Daniela é, até hoje, a artista brasileira mais conhecida no exterior depois de Tom Jobim e Carmem Miranda. São mais de 30 anos de carreira, mais de 20 milhões de discos vendidos em todo mundo, 20 álbuns, sendo 3 com grupos e 17 como artista solo, e 7 dvds. Confira a entrevista concedida antes de a artista revelar que não se apresentará no carnaval de rua de Salvador, Bahia.

Célia Santos
Daniela Mercury é, até hoje, a artista brasileira mais conhecida no exterior depois de Tom Jobim e Carmem Miranda

Daniela Mercury é, até hoje, a artista brasileira mais conhecida no exterior depois de Tom Jobim e Carmem Miranda


Os dois últimos anos foram difíceis para a humanidade devido a pandemia. Como foi esse processo de isolamento social?
O isolamento obrigatório fez a gente confirmar que a vida não faz o menor sentido sem o convívio com quem amamos e que não há nada mais importante do que a família e os amigos. Esse período de reclusão teve o efeito de uma vigília, e obrigou todos a pensar mais sobre o que realmente importa na vida. Está sendo um tempo de autoconhecimento inevitável e de profunda reflexão que pode ter feito a humanidade revisar seus valores e criar mais consciência social, política e ambiental. A sensação era de que cada grupo de pessoas estava em um planeta distinto, todos impossibilitados de se ver pessoalmente. Isso criou uma realidade muito diferente para quem ficou a maior parte do tempo dentro de casa, como eu e para muitas crianças. Nossa filha Bela, que tem apenas 11 anos, não conviveu com outras crianças nesses dois anos de pandemia. Está sendo um tempo estranho de muita tristeza e apreensão com tantas mortes, com o medo de adoecer, morrer ou perder alguém querido e ao mesmo tempo vendo esse governo tentando destruir tudo que construímos nos últimos 30 anos. 

Depois do álbum "Perfume", você lançou quatro singles, sendo três regravações (Toda forma de amor, Apesar de você e Milla) e uma música inédita (Quando o carnaval chegar). O que te motivou a gravar essas canções? 
Quando o Carnaval Chegar é um frevo que compus para homenagear o amado e extraordinário Moraes Moreira. Não é possível pensar em Carnaval e trio elétrico sem ter a referência de Moraes. E perder ele durante a pandemia foi um duríssimo golpe para o nosso coração já tão sofrido. Gravar com Gal era um sonho antigo. Foi espetacular e emocionante ouvir a voz de Gal ao lado da minha nesse frevo que eu fiz para homenagear Moraes. Duas artistas para quem Moraes compôs frevos maravilhosos que fizeram muito sucesso, Festa do Interior, Bloco do Prazer e Monumento Vivo. A música Quando o Carnaval Chegar me deu um pouco da imensa alegria que precisávamos para superar tanta agonia e para nos consolar pelo vazio que a não realização do Carnaval deixou em nós.   Lancei Apesar de Você nesse período para fazer um manifesto contra a atual censura às artes e contra os atos antidemocráticos que estão colocando a democracia brasileira na corda bamba. No aniversário de 50 anos do lançamento desse maravilhoso, histórico e emblemático samba de Chico Buarque de Holanda, nosso manifesto teve as participações de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Elza Soares, Adriana Calcanhoto, Geraldo Azevedo, Margareth Menezes, Jessé Souza, Casagrande, Silva, Gabriela Prioli, Ailton Krenak e vários outros grandes artistas e personalidades. Toda Forma de Amor é uma música dançante, alegre e uma das melodias e letras mais políticas e bonitas de Lulu Santos. Além disso tudo, é um hino LGBT que eu sonhava gravar há muito tempo. E nesse contexto em que o governo federal ataca sistematicamente os LGBTS temos que gravar muitas músicas para celebrar a diversidade e fortalecer nossa resistência política.

Milla, um dos maiores sucessos da Axé Music, composta por Manno Góes, ganhou uma nova roupagem na sua voz. Segundo ele, Milla agora é livre! Qual a importância de trazer de volta um sucesso emblemático para os dias atuais?
Regravei Milla para libertá-la dos bolsonaristas. Manno Goes, um dos  compositores da música, estava indignado com a utilização de Milla em manifestações antidemocráticas e eu decidi gravá-la para que ela não ficasse associada ao fascismo. Agora Milla está livre e é antifascista. 

São mais de 30 anos de Axé Music. Você acredita que ainda existe preconceito com o gênero? 
Sim. A xenofobia, o machismo, o racismo e o preconceito social sempre atrapalharam a ascensão e o reconhecimento dos artistas e dos gêneros artísticos que nascem fora do eixo Rio-São Paulo. Mesmo tendo tantos nordestinos no topo da música brasileira. Até hoje, eu não acho que a contribuição de Luiz Gonzaga tenha o reconhecimento devido por parte dos críticos de arte e historiadores brasileiros. Mesmo tendo sido tão rico artisticamente e sido o primeiro e um dos maiores fenômenos de massa da história da música popular brasileira. O Tropicalismo somente foi valorizado e celebrado como merecia depois de algumas décadas do seu auge. E com o Axé aconteceu o mesmo. No caso da minha carreira, eu tive uma ótima receptividade da crítica no Brasil, apesar de não entenderem o meu gênero musical, que nem era considerado gênero ainda e como o meu sucesso aconteceu simultaneamente no Brasil e no exterior e os críticos estrangeiros têm sido unânimes no reconhecimento e na valorização do meu trabalho eu não sofri tanto preconceito no início, mas com a chegada de tantos artistas baianos o gênero começou a sofrer mais e mais preconceito. Nos últimos anos houve um certo reencantamento pelo Axé. Espero que o preconceito acabe. O documentário Axé, Canto do Povo de um lugar, disponível na Netflix, conta um pouco da história do Axé pelos olhos do diretor e produtor baiano Chico Kertész. Aos poucos surgirão mais documentos e livros sobre o movimento e o distanciamento é fundamental para mostrar o que realmente somos.
 
Você sempre foi uma artista engajada com questões sociais e nos últimos anos, se tornou uma voz presente pelos direitos LGBTQIA+, indígenas e democráticos. Essas importantes lutas é o que move sua arte atualmente?
Sim. O principal objetivo da minha arte é trazer esperança, alegria e orgulho de sermos brasileiros. Tento fazer a gente se ver através dos meus álbuns e espetáculos. Quero que nos valorizemos mais. E tenho através da minha arte tentado estimular uma maior participação política de todos os cidadãos, pois somente uma sociedade civil organizada e atuante aperfeiçoa sua democracia. O maior objetivo fascista é separar os brasileiros, colocar uns contra os outros criando um ambiente de ódio e intolerância. A arte é alegria, é felicidade e amor e nos une e manda a tristeza embora. Os fascistas odeiam artistas porque eles precisam do medo e da tristeza. Por isso, atacam tanto os artistas que se manifestam politicamente. Tentam nos intimidar. E, claro, querem chamar a atenção para suas candidaturas. Temos que ficar muito atentos para os deputados que vamos eleger. A situação é gravíssima no país e nós precisamos eleger deputados honestos e um presidente com capacidade de governar um país como o Brasil. Eu luto pelo meu povo e vou continuar a lutar para acabarmos com tanta pobreza, fome, racismo, LGBTfobia e desigualdade. Vou continuar tentando contribuir da melhor maneira possível como artista e cidadã.

Cada single ou álbum seu é uma surpresa para o grande público. Já vimos Daniela eletrônica, erudita, acústica, frevista. De onde vem essa incansável coragem de não seguir padrões musicais?
Da minha inquietação artística. Gosto de me enveredar por caminhos desconhecidos. Não perdi a pureza do início da carreira e luto pelo que acredito ou simplesmente desejo cantar. A arte é um esporte radical. Se o artista parar de correr perigo, não fará nada diferente do que já fez. O meu objetivo nunca foi financeiro. Tenho o espírito livre e a minha autonomia artística foi uma conquista pensada. Gosto de me reinventar e por isso lutei muito desde do início da minha carreira para não ter interferência das gravadoras no meu trabalho. Sempre fui dona da minha carreira. E também como intérprete sempre gostei de cantar gêneros distintos, isso me deu muita versatilidade o que também resulta na diversidade e no ecletismo musical presentes no meu trabalho. 

Você é considerada a Rainha Má, Balbúrdia e Axé. Sendo rainha, na sua opinião, a Axé Music conseguiu se reinventar? - Acredita que voltará a ser o gênero musical mais popular do País? 
O Axé se tornou nacional e internacional. É um gênero estabelecido e sempre terá espaço no coração dos brasileiros e seguirá absorvendo novas influências, se renovando e influenciando outros gêneros. Nós artistas do Axé, nos últimos 40 anos, formamos público e, correndo muitos riscos, criamos um mercado brasileiro para um novo tipo de música que se tornou, inclusive, uma grande inspiração para o sertanejo e para outros gêneros populares que surgiram depois. A diferença do Axé dos anos 90 do Axé atual é que ele se misturou com outras linguagens artísticas brasileiras populares e hoje está na sofrência, no Tecno Brega, no Funk, no pagode, no Groove arrastado, no forró, na MPB e em vários outros estilos musicais. A questão agora é saber o que é ou não é Axé. (Risos) Nos anos 90, eu abri todos os carnavais fora de época do país, o meu sucesso no Brasil foi responsável por trazer para o carnaval de Salvador mais de 500 mil pessoas por ano, a partir de 1993. Foi nessa mesma época que a força popular da minha música atraiu o primeiro grande patrocínio para a cidade de Salvador. Com o sucesso do gênero no Brasil, mudamos definitivamente a dimensão do Carnaval da Bahia e geramos milhares de novos eventos no País. Com nosso empreendedorismo, o carnaval de Salvador começou a movimentar mais de 1 bilhão de reais ano. Eu inventei um novo modelo de camarote que foi repetido por vários artistas e empresários e se tornou o melhor negócio do carnaval atualmente. O Axé é um gênero muito importante, continua atual e eu me orgulho muito de ser precursora do gênero.

Ainda estamos num momento delicado devido a pandemia, para uma artista inquieta e criativa como você, nesse período, foi possível compor e cantar a alegria?
 Está sendo o período mais denso e triste de toda a minha existência. Foi difícil demais resgatar a alegria. Aos poucos com a vacinação e as vitórias democráticas, predominantemente conseguidas através de decisões da nossa suprema corte, fui recuperando minha esperança. Tive até uns ataques de felicidade que me ajudaram a compor músicas dançantes e felizes como As rendas do Mar, que é um galope, com samba -reggae e alujá, que vou lançar no dia 3 de dezembro. É uma homenagem também a todas mulheres que levam no colo o mundo e, claro, à rainha do mar, nossa amada Iemanjá. Mas, no período da pandemia, compus predominantemente músicas políticas, críticas e mais lentas. 

Célia Santos


O Carnatal é uma das poucas micaretas que resiste no país, agora, depois de anos, a "cantora de palco em cima do trio" traz o seu Crocodilo para o corredor de folia potiguar. O que esperar do bloco? Alguma surpresa para o público que estava com saudades de você no trio? 
Tenho tantos novos sucessos desde da última vez que fiz o circuito completo no Carnatal que poderia só fazer o desfile atualizando o meu repertório de carreira (risos). Mas óbvio que vou cantar sucessos antigos. Esse ano, o álbum Feijão Com Arroz completa 25 anos de lançado e Swing da Cor 30 anos. Vou cantar meus grandes sucessos dançantes e vou lançar as Rendas do Mar, o galope que preparei especialmente para apresentar no Carnatal e também Milla, Quando o Carnaval Chegar, Toda Forma de Amor, Apesar de Você que são as mais recentes.

E para 2022, podemos esperar álbum novo ou até mesmo uma turnê comemorativa do disco "Feijão com arroz"?
Estou preparando novos trabalhos para 2022 que é um ano muito especial na minha vida: é quando o Canto da Cidade completa 30 anos do seu lançamento. Eu tenho vários shows agendados na Europa e estamos agendando muitos shows no Brasil.

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