A arte literária de Cellina Muniz

Publicação: 2020-01-08 00:00:00 | Comentários: 0
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Thiago Gonzaga
Escritor

A escritora Cellina Muniz abriu pré-venda do seu mais novo livro, um romance, “O Bombo”. Trata-se de uma narrativa que mistura ficção e história: um jornalista/escritor/boêmio que queria lançar em Natal seu jornal de humor no tempo em que a cidade estava ocupada pelos americanos na Segunda Guerra. O anti-herói dessa história tem mil jeitos de se nomear: sua mãe o batizou José Fagundes, nas colunas de humor ele assinava Zé do Frevo, suas amizades e credores o chamavam de Fafá e a narradora o conhecia por José. Ele era jovem, lia e escrevia, amava a cidade e tinha fé na vida, apesar de seu amor secreto gostar de outro, um tal de Johnatan, mais um "galado" gringo que circulava entre a Ribeira e Parnamirim no início dos anos de 1940. Esta é a história de José, que com seu grande amigo Chico sonhou um dia em editar “O Bombo”.

Créditos: Magnus NascimentoCellina Muniz finaliza o romance “O Bombo”, uma mistura ficção e história tendo um escritor boêmio como personagem centralCellina Muniz finaliza o romance “O Bombo”, uma mistura ficção e história tendo um escritor boêmio como personagem central
Cellina Muniz finaliza o romance “O Bombo”, uma mistura ficção e história tendo um escritor boêmio como personagem central

Com base em uma pesquisa sobre lugares e hábitos da capital potiguar na época, a quarta obra literária de Cellina Muniz comemora também uma década de presença da autora na cidade e marca também sua estreia como editora do selo independente: “Munições Edições”.

 Cellina Muniz dispensa apresentações; como pesquisadora desenvolve estudos sobre humor e imprensa alternativa, professora do Departamento de Letras e do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem da UFRN.  Publicou inúmeros artigos, ensaios, e capítulos de livros, além de obras voltadas para pesquisas acadêmicas como, por exemplo, Nietzscheanismos (2009), Fanzines: autoria, subjetividade e invenção de si (2010), Na tal cidade do humor (2013) e Notícias da Jerimunlândia: a imprensa de humor em Natal na Belle Époque (2016).

Reconhecendo a importância da pesquisadora, pretendemos, no entanto, abordar a Cellina Muniz como artista da palavra, autora das obras O livro de contos de Alice N. (2012), Uns contos ordinários (2014), e mais recentemente, Contos do mundo delirante (2018).

Contista firmada, Cellina tem como suas principais características o humor, a crítica à sociedade, o pitoresco e a ironia, tudo dentro de um ambiente urbano.

Podemos classificar a narrativa da autora como verossímil, pois guarda muitos pontos de contato com a vida real, os fatos narrados aproximam-se bastante da realidade, fazendo que o leitor sinta, presencie o acontecimento, como se estivesse vivendo-o. Por exemplo, no conto “Operário-Padrão”, narra-se a estória de um personagem, que sentado no banco de uma praça, relata para alguém, ter sido porteiro e que foi demitido, por dar em cima das secretárias que iam trabalhar nos apartamentos do prédio. 

Entendemos também que os contos de Cellina, criam uma realidade mais ampla que a realidade concreta e palpável que conhecemos. Por meio da sua ficção podemos nos transportar para um universo em que certas situações nos parecem um tanto absurdas, como no conto “Catrevagens e Cotovias”, mas são perfeitamente plausíveis. Nesses casos apresentam uma lógica interna, e o leitor acaba aceitando como verdade o universo ficcional da autora.

Alguns dos contos partem do pressuposto de que o humor parece servir como estratégia de desconstrução dos conceitos usuais atrelados aos fatos cotidianos e, também são, na verdade, de reflexão sobre a condição humana. Talvez este seja um dos pontos mais fortes na narrativa da autora, além, claro, da crítica social e política. Outro aspecto digno de nota é a linguagem literária.  Interessante observar como ela usa os recursos linguísticos em favor do texto e os emprega em cada tipo de discurso.

Nos textos literários, com predomínio da linguagem, existem aspectos que devem ser considerados e neles se acha o diferencial da autora: as particularidades da sua narrativa, como, por exemplo, a conotação das palavras, certa complexidade (entenda-se que a literatura não tem a obrigação de dar às palavras o seu sentido exato), a plurissignificação, dentre outros aspectos. O mais interessante de tudo isso é a própria experiência estética que textos dessa natureza podem nos trazer.

 Histórias inteligentes e criativas, erguem seu mundo imaginário, valorizando, de modo especial, os seus personagens. Outro exemplo, “A Grande Ocasião”, “Nada de Novo Sob a Lua”, além das já citadas, em que a autora consegue o máximo de significados, inclusive, em alguns momentos assaz criativos dialogando/homenageando de forma irreverente outros autores, como Câmara Cascudo, Juvenal Antunes, Paulo Mendes Campos, Lima Barreto, Belchior... 

A intimidade da escritora com as palavras, e a desenvoltura com o fluir do conto curto deram à sua prosa um ritmo singular (não temos visto, pelo menos aqui no Estado, escritoras com o estilo e a fluência, no CONTO, que Cellina possui). Entendemos que a flexibilidade do conto oferece essa possibilidade, pois, o conto é um gênero literário sobremodo maleável, podendo se aproximar da poesia e da crônica.  Enfim, o gênio Mário de Andrade defendeu que “conto é tudo aquilo que o autor batizar com  o nome de conto”.

Vale dizer, ainda, que a escritora tem trabalhos de sua autoria inclusos nas obras Humor no Conto Potiguar, de Manoel Onofre Júnior, e Novos Contos Potiguares, de Thiago Jefferson Galdino, e, em 2015, nos deu interessante depoimento para o livro Impressões Digitais – Escritores Potiguares Contemporâneos v. 3.






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