A arte se rende ao shopping

Publicação: 2018-07-13 00:00:00
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Ramon Ribeiro
Repórter

Em meio a lojas de roupa e acessórios, no corredor de calçados, vizinho à lojas de eletrônicos, em frente à farmácias e até em praça de alimentação, lá estão elas: as galerias de arte de shopping. Depois dos cinemas, das livrarias, dos grandes shows e espetáculos, chegou a vez dos templos de consumo atraírem exposições.

Créditos: Ramon RibeiroAlguns artistas aproveitam o espaço somente como vitrine para suas obras, não contando com a presença de nenhum atendente, como no ateliê de Ana SelmaAlguns artistas aproveitam o espaço somente como vitrine para suas obras, não contando com a presença de nenhum atendente, como no ateliê de Ana Selma

Alguns artistas aproveitam o espaço somente como vitrine para suas obras, não contando com a presença de nenhum atendente, como no ateliê de Ana Selma

Em Natal, empreendimentos como Midway Mall, Praia Shopping, Natal Shopping já contam com espaços expositivos. A maioria é voltada para artistas com atuação no Rio Grande do Norte. Os locais são cedidos temporariamente para os artistas sem cobrança de aluguel, cabendo a eles apenas os custos de manutenção. Alguns artistas aproveitam o espaço somente como vitrine para as obras, não contando com a presença de nenhum atendente. Em outros casos, com mais investimento do artista, a galeria funciona também como escritório de trabalho. O horário de funcionamento da galeria é correspondente ao do empreendimento em que faz parte.

O Praia Shopping é o local onde mais se encontram espaços expositivos. São cinco, todos de pintura – Ana Selma, Ammer Jácome, Ermínio Souza, Ery Medeiros e Ricardo Bahia. Somados a esses, tem também o escritório “O Ser de Luana”, da artista Luana Cavalcante. As obras expostas nos espaços são praticamente todas pinturas e variam entre R$ 10 e R$ 9 mil. Segundo a gerente de marketing do shopping, Danielle Leal, os espaços são ocupados pelos artistas até a chegada de uma nova loja permanente. Quando isso ocorre, o artista é deslocado para outro espaço ou convidado a voltar ao shopping em outra ocasião.

Créditos: Ramon RibeiroTrabalhos de Dorian Gray estão expostos no Natal ShoppingTrabalhos de Dorian Gray estão expostos no Natal Shopping

Trabalhos de Dorian Gray estão expostos no Natal Shopping

“Para o shopping é importante essa parceria. Embeleza os corredores. E para os artistas é uma boa oportunidade de vender e fazer contatos”, diz Danielle. Ela conta que os artistas são indicados por parceiros do shopping. “A população natalense não tem o hábito de visitar galerias. Tendo esses espaços no shopping, acredito que é importante para aproximar o público local da arte produzida no estado”.

Propostas criativas de venda
A artista Ana Selma já vai para dois anos de parceria com o Praia Shopping. Sua galeria fica no corredor da praça de alimentação. Em meio às mesas, restaurantes e fast foods, sua pequena lojinha atrai o olhar pela bela montagem do espaço. “Acho legal o shopping ceder esses locais para não ficarem fechados. Somos carentes de espaços de exposição na cidade. Temos Salão de Arte, e outros eventos, mas praticamente não temos galeria. É uma excelente oportunidade de mostrar aos visitantes a cultura potiguar”, opina a artista, que chegou a ter uma galeria no hotel Pestana antes do local ser vendido para um novo grupo empresarial.

Créditos: Ramon RibeiroErmínio Souza criou espaço elegante para comercializar suas telasErmínio Souza criou espaço elegante para comercializar suas telas

Ermínio Souza criou espaço elegante para comercializar suas telas

As obras em exposição de Ana Selma são de vários tipos e tamanhos. Telas com frases inspiradoras, bonecos de papel maché, jarrinhos de planta. Os preços vão de R$ 10 até R$ 80. Assim como nas outras galerias do Praia Shopping, o espaço da artista não dispõe de atendente. No entanto, diferente dos outros lugares, em sua lojinha o visitante pode comprar sua obra e sair com ela na hora, tudo graças a simples confiança na honestidade das pessoas.

Uma placa no local explica o procedimento. O cliente pega a peça desejada e embala numa sacola, coloca a etiqueta da obra junto com o valor em espécie dentro de um dos envelopes disponibilizados no balcão, depois deposita o envelope na urna. A artista vai todos os dias na abertura do shopping recolher os pagamentos. “Já estou funcionando há um ano nesse sistema. Do total de peças que saíram, apenas 5% não foram pagas corretamente”, diz Selma. “É um modelo que tem funcionado bem. O visitante fica mais à vontade sem um vendedor por perto. E para mim, eu fico com mais tempo para me dedicar aos trabalhos no atelier”.

Espaço de fotografia no maior shopping da cidade
Das galerias de shopping, a maioria absoluta dos trabalhos são de pintura. Mas no maior shopping da cidade, o Midway Mall, a Galeria Fernando Chiriboga, no terceiro piso, está há dois anos funcionando com foco na fotografia. O espaço também abarca outras atividades culturais, como lançamento de livros e bate papos. “Além dos visitantes normais do shopping, recebo grupos de escolas e de estudantes de universitários. Também ministro palestras e promovo apresentações artísticas”, diz o fotógrafo Fernando Chiriboga. Equatoriano radicado em Natal, ele é autor das fotos gigantes que estampam a fachada externa do shopping.

O fotógrafo conta que no início foi difícil atrair o público, mas hoje a galeria tem funcionado bem. No espaço estão expostas cerca de 50 fotografias impressas, que o artista muda com frequência, além de exemplares dos seus 14 livros de fotografia publicados. No próximo mês, ele lançará o décimo quinto. Todo o material é focado no litoral do Nordeste, em especial o do RN.

“Em Natal não se tem muito o costume de visitar galerias de arte. Acho que o que os shoppings estão fazendo é importante porque aproxima o público da arte. No shopping tem a segurança e a facilidade de se encontrar de tudo num ambiente só. As pessoas podem ir ao cinema, jantar em um restaurante e, no intervalo entre uma coisa e outra, visitar uma exposição”,  comenta Chiriboga.

Dorian Gray Caldas no Natal Shopping
Pintor e desenhista reconhecido nacional e internacionalmente, famoso por traduzir em cores e formas a paisagem e a alma natalense, o potiguar Dorian Gray Caldas (1930-2017) ganhou uma exposição em sua homenagem no Natal Shopping. O Espaço Cultural Dorian Gray está montado no corredor principal do Piso L2 e reúne 20 obras assinadas pelo artista. A mostra apresenta os temas mais recorrentes de Dorian, o figurativo, as marinas e os casarios. A obras são pertencentes a acervos da família, da Fundação José Augusto e de colecionadores.

A exposição foi aberta em julho e fica em cartaz até o final de agosto. O Espaço Cultural Dorian Gray faz parte da campanha do Dia dos Pais do Natal Shopping, que vai estampar duas obras assinadas pelo artista – Arena das Dunas e Cidade do Natal – em mini coolers que serão os brindes da ação. “A ideia é homenagear um pai potiguar que fez história, valorizou a identidade local e elevou a arte potiguar a níveis internacionais de reconhecimento”, comenta a gerente comercial e de marketing do shopping,  Fabiana Totti.

Créditos: Ramon RibeiroEspaço “O Ser de Luana” une galeria e escritório de trabalhoEspaço “O Ser de Luana” une galeria e escritório de trabalho

Espaço “O Ser de Luana” une galeria e escritório de trabalho

“Precisamos refazer nosso padrão de arte”
Para o artista, arquiteto e ex-galerista César Revoredo, o movimento de arte nos shoppings é algo circunstancial que tem como um dos grandes responsáveis a insegurança que aflige todas as camadas da sociedade. “A cidade está tentando construir um novo caminho na cultura. Não dá para se viver sem arte. Ela promove a integração entre as pessoas, serve para refletir, humanizar”, comenta Revoredo, que chegou a ter na cidade a galeria Gabinete de Arte. “A arte tem que estar nas universidades, nos shoppings, nas ruas. Ela deve estar aonde possa ser consumida”.

Mas Revoredo ressalta um aspecto que para ele é mais importante. “Independente de onde estará a arte, precisamos refazer é o nosso padrão de arte. Precisamos dialogar com o mundo inteiro. Precisamos de mais leitura visual, de crítica. Tudo isso ainda falta desenvolver na cidade”, afirma.



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