A arte vê o mundo

Publicação: 2016-09-09 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Enviado a SP *

Um pescador abraça um peixe carinhosamente até sua morte. É o seu trabalho. A cena, um ritual fictício criado pelo artista alagoano Jonathas de Andrade, sugere uma relação de afeto entre o caçador e sua presa, ao mesmo tempo que suscita interrogações sobre a relação do homem com a natureza e a sociedade. Intitulado “O Peixe”, o vídeo é uma das 340 obras, de 81 artistas e coletivos (a maioria jovens e mulheres), de 33 países, que compõe a 32º Bienal de Artes de São Paulo, cuja a abertura para o público geral aconteceu no dia 7 de setembro. Todos esses trabalhos ocupam durante três meses o Pavilhão  Ciccilo Matarazzo, no Ibirapuera.
obra de ebony g. pattersonCom o tema “Incerteza viva”, Bienal de São Paulo apresenta obras de artistas de 33 paísesCom o tema “Incerteza viva”, Bienal de São Paulo apresenta obras de artistas de 33 países

Segunda mais antiga do mundo, e uma das mais influentes instituições de arte contemporânea na América Latina, a Bienal deste ano está alicerçada sobre o tema “Incerteza Viva” e propõe encarar o desconhecido ao discutir diversas questões críticas da atualidade, como o aquecimento global, a exaustão do sistema econômico e de governança, os conflitos culturais, a carência de modelos alternativos de educação.

Curador da megaexposição, ao lado dos cocuradores Gabi Ngboco (África do Sul), Júlia Rebouças (Brasil), Lars Bang Larsen (Dinamarca/ Espanha) e Sofía Olascoaga (Mexico), o alemão Jochen Voz acredita na arte como possibilidade de oferecer alternativas para a vida em uma era incerta. “Todos estamos conscientes que as formas de conhecimento atuais, que estão dominando o mundo, não são suficientes. Conhecimento científico, escolar, acadêmico, não são um só. É muito importante dar espaço para esses outros tipos de conhecimentos, como os espirituais, medicinais, terapêuticos. Todos precisam coexistir".
obra de jonathas de andradeA Bienal lança olhar crítico e propositivo sobre questões atuais, como o aquecimento global, a exaustão do sistema econômico e de governança e os conflitos culturaisA Bienal lança olhar crítico e propositivo sobre questões atuais, como o aquecimento global, a exaustão do sistema econômico e de governança e os conflitos culturais

Multicultural e menos urbana, a mostra se espalha pelo pavilhão de modo fluido, como em um bosque, entrelaçando livremente temas e ideias, evitando divisões em capítulos. A opção de Jochen Voz por esse formato é embasada, pela sua experiência de uma década como curador do Inhotim, em Minas Gerais, maior museu de arte contemporânea a céu aberto do mundo. A escolha, inclusive, casa bem com o forte viés ambiental desta edição.

Passeando por toda a exposição, se vê que há coesão entre as obras. Talvez isso tenha sido possível pela grande presença de trabalhos comissionados especialmente para o evento. “Vejo a curadoria não como processo seletivo, mas como construção”, justifica Jochen.
Instalação de ana mazzeiInstalação de Ana MazzeiInstalação de Ana Mazzei

O curador comenta que a Bienal de SP é uma das mais frequentadas por um público que tem seu primeiro contato com a arte durante o evento. São pessoas que não são usuários de museus de arte contemporânea. Para ele, trabalhar nesse cenário é um desafio e um privilégio. “Discutimos isso bastante com os artistas. Como ser acessível no conteúdo, como não ser hermético. Tentamos fazer uma exposição que não demanda você ter lido um texto antes de entrar. Mas se você quiser saber mais, tem texto”, diz Jochen. A obra “Chão”, instalação do baiano José Bento, onde o conceito de incerteza é transmitido ao visitante na instabilidade do caminhar, é um exemplo de obra que consegue provocar os visitantes sem o obstáculo de um texto introdutório.

Abordagens indígenas
O interesse pelo conhecimento indígena é uma das maiores marcas desta Bienal e está manifestada em obras que exploram habitações, materiais, rituais, terapias. Há olhares indígenas autênticos, como no apanhado de filmes do arquivo do coletivo Vídeo nas Aldeias, feitos por índios; mas é no viés contemporâneo de artistas das mais diversas nacionalidades que se vê essa presença e a comunicação com a atualidade.
Mariana CastilloEstas ruínas que vês, de Mariana CastilloEstas ruínas que vês, de Mariana Castillo

Há visões catastróficas, como na fotografia de um deserto pedregoso em que se encontra um índio em estado final de decomposição. Criada pelo francês Pierre Huyghe, a imagem trata da extinção humana num ecossistema destruído. O mesmo artista, em outro pavimento, apresenta um filme onde a câmera navega por dentro de uma pedra de âmbar, que no seu interior se encontram dois insetos imobilizados. O vídeo dialoga com uma pequena sala ao lado, habitat de milhares de moscas e besouros vivos se auto organizando. Reflexões sobre habitação aparecem também aparecem na obra da mineira Lais  Myrra. Ela coloca duas torres que dialogam entre si modos construtivos indígenas e urbanos, ao mesmo tempo que se comunica com o ambiente interno do prédio do icônico pavilhão criado por Niemeyer.

Um Potiguar na Bienal
Antes da abertura para o público geral, na coletiva de imprensa e no lançamento da da exposição para convidados, a Bienal  foi marcada por protestos contra o presidente Michel Temer. O contexto político brasileiro, inclusive, é uma das muitas  preocupações que alimentam a proposta da “Oficina de Imaginação Política, zona temporária e autônoma, criado pelo artista Amilcar Packer, com colaboração Diego Ribeiro, Rita Natálio, Thiago de Paula, Valentina Desideri e do potiguar Jota Mombaça (Monstra Errátika).
wlademir dias pinoWlademir Dias PinoWlademir Dias Pino

Espécie de ambiente poroso, onde acontecem sessões de trabalho, apresentações e debates que instigam a ação, Mombaça explica que o projeto  tem como linhas temáticas o pensar o fim de um certo mundo (antropoceno), o abolicionismo prisional, os futurismos periféricos, a imaginação radical, dentre outros. É a partir desses eixos que as discussões serão articuladas. “Algumas pessoas serão convidadas pra fazer falas, algumas de nós farão falas também, eventualmente, compartilharão processos”, detalha o potiguar. “São temas que me atravessam muito, pensar o fim de um certo mundo, pensar os futuros, se comprometer com uma imaginação radical e, especialmente, pensar o abolicionismo das prisões e polícias”.

Ele conta que está traduzindo uns textos junto com Amilcar e a ideia é fazer pequenas publicações. É um espaço cuja maior parte está em aberto ainda”. Mombaça ficará residente em São Paulo durante os três meses da exposição.

Serviço
32ª Bienal de Artes de São Paulo - Incerteza Viva.
Pavilhão Ciccilo Matarazzo (Av. Pedro Álvares Cabral, s/n, Parque Ibirapuera)
Visitas até 11 de dezembro.
Gratuito
www.32bienal.org.br

(*) O repórter viajou a convite da Oi Futuro

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