A arte viva e viajante de Antônio Buca

Publicação: 2019-11-13 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Ao encontrar as pinturas do artista Antônio Buca, a vista inicia um passeio por cores, curvas, círculos e temas afetivos. Suas obras têm um pouco de abstrato e figurativo, tem mandala e cultura nordestina. É uma viagem para o olhar, feita justamente por um artista viajante. E digo artista viajante porque de fato é o que ele é. Nasceu em Fortaleza há 73 anos atrás, mas saiu de lá novinho para conhecer o mundo. Ocidente, oriente, norte e sul, passou por tudo. Voltou para o Brasil há 15 anos, tempo que esteve morando em Caruaru. Mas há cerca de oito meses fez nova morada, desta vez no Pium, coladinho em Natal. Trouxe com ele dezenas de trabalhos. Agora, parte significativa dessas obras estará à disposição do público a partir da próxima quinta-feira (14), quando a Canguleiros Arte e Café (Cidade Alta) abre exposição individual do artista. O evento começa às 18h e a entrada é franca.

Formado na Escola Nacional de Belas Artes, Antônio Buca é conhecido também por suas cerâmicas feitas à mão livre
Formado na Escola Nacional de Belas Artes, Antônio Buca é conhecido também por suas cerâmicas feitas à mão livre

A exposição é composta de 25 obras, dentre desenhos e pinturas em acrílico – algumas sobre tela, outros sobre papel preparado –, além de máscaras e esculturas em cerâmica feitas à mão livre. O trabalho em cerâmica é fruto de sua longa residência no Alto do Moura, em Caruaru, pólo tradicional de cerâmica indígena em Pernambuco – e não por acaso terra de ninguém menos que Mestre Vitalino.

“A cerâmica é uma obra viva. É um material que ganha novas tonalidades com o passar dos anos. Dizem que a grande frustração do ceramista é que ele morre sem ver a tonalidade final da peça que fez”, conta Buca em entrevista à TRIBUNA DO NORTE.

Passeando pelas obras é possível encontrar alguns elementos recorrentes. Como pássaros e figuras do universo nordestino, a exemplo de cangaceiros e bacamarteiros. “Os pássaros são minha representatividade do vôo”, diz o artista viajante. “Os temas vem de onde estou vivendo, das observações que faço sobre a cultura local. E o Nordeste sempre foi uma cultura muito forte pra mim. É a região onde nasci e pra onde retornei depois de tanto viajar pelo mundo”.

Formado na Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, o artista acumulou ao longo dos anos técnicas que aprendeu nos vários lugares por onde passou. “Na França andei com quadrinistas de revistas undergrounds. Nos EUA e na Suécia aprendi técnicas de preparo de papel. E no Nepal, estudei mandalas. Por onde eu passo aproveito para conhecer técnicas novas que podem servir para a minha arte”, comenta. “Vivo em constante processo criativo, mas os trabalhos são sempre resultado de pesquisa. Nessa minha estadia no Pium, por exemplo, tenho trabalhado o Preto e Branco. A velhice me deu uma paz para explorar essas duas cores”.

Com 58 exposições individuais no currículo, esta até pode até ser a primeira do artista em Natal, mas não é a primeira vez que que teve trabalhos expostos por aqui. Nos anos 80 ele chegou a participar do Festival de Artes de Natal, o lendário Festival do Forte. Foi nessa época que conheceu o cantor Mirabô Dantas – sócio da Galeria ao lado do colecionador Thiago Cavalcante –, mas foi só um contato rápido. “Viemos a nos conhecer de verdade só agora. Um amigo em comum nos apresentou, Nildo, do Centro de Turismo. Falei com Buca da galeria, ele da vontade de expor, as ideias se bateram e agora tá dando certo”, conta Mirabô.

“Já passei por Natal outras vezes nas minhas andanças, também cheguei a conhecer Pipa bem no começo. A cidade quando vim pela primeira vez era menor, os artistas estavam mais integrados, agora vejo que tudo está espalhado. Se tem uma coisa que adoro daqui é a luminosidade”, relata Buca. Ele lembra que nasceu na Praia de Iracema, em Fortaleza, e vê uma feliz coincidência estar novamente numa cidade litorânea depois de mais de 15 anos no agreste pernambucano. “Estou de volta pra perto do mar. Mas ainda não posso te confirmar se essa é minha praia”.

Canguleiros
A exposição de Antônio Buca marca a nova fase da Canguleiros Arte e Café, inaugurada em agosto e que agora passa a funcionar com serviço de cafeteria. Outra novidade é a proposta de promover eventos culturais, como pequenas apresentações musicais, esquetes teatrais, exibição de filmes e lançamentos de livros. “Estamos no coração do Beco da Lama, então queremos aproveitar o espaço para pensar um calendário de ações culturais. Mas tudo no seu tempo”, diz o cantor Mirabô Dantas, sócio da Galeria ao lado do colecionador Thiago Cavalcante.

Antônio Buca acompanha montagem de sua exposição composta de 25 obras, com variedade de técnicas adquiridas em sua formação pelo mundo. São desenhos e pinturas com referências nordestinas
Antônio Buca acompanha montagem de sua exposição composta de 25 obras, com variedade de técnicas adquiridas em sua formação pelo mundo. São desenhos e pinturas com referências nordestinas

O nome da galeria é algo que desperta a curiosidade de muitos que descobrem o lugar. Canguleiros faz referência direta à rivalidade do início do século passado entre Cidade Alta e Rocas. Era um tempo em que os moradores da Cidade Alta era chamados de Xarias, em alusão ao peixe xaréu, considerado mais nobre nas feiras da época, e os residentes das Rocas eram apelidados de Canguleiros, em referência aos cangulos, peixes mais populares.

Mas por que Canguleiros se a galeria fica na Cidade Alta e não nas Rocas? Mirabô explica: “A primeira galeria que frequentei quando cheguei em Natal foi a Xaria, de Paulo de Tarso e Diógenes da Cunha Lima. Ficava na Praça André de Albuquerque. Foi onde tive contato com Newton Navarro, Dorian Gray, Iaponi e Iaperi Araújo, todos grandes artistas. Então resolvemos prestar essa homenagem aos canguleiros, fazendo uma área deles exatamente no local dos xarias”.

Thiago escuta sorridente a história contada por Mirabô. Com 36 anos anos de idade, todos eles vividos na Cidade Alta, onde nasceu, ele é um xaria apaixonado por arte. O acervo da Galeria é composto por obras da sua coleção – que chega perto das 600 peças.

“Arte pra mim não é investimento, é paixão. A minha vida inteira eu vivi aqui na Cidade Alta e foi vivendo aqui que tive contato com a arte, vendo os artistas passaram com seus trabalhos. Thiago Vicente, por exemplo, é meu amigo de infância. Assis Marinho, um dos nossos grandes artistas, já morou um tempo lá em casa”, conta Thiago. “Então me aproximei de Mirabô para fazer aquilo que gosto. Já estou até inserindo minha filha nesse mundo, levando para exposições”.

Serviço
Exposição de Antônio Buca

Dia 14 de novembro, às 18h

Canguleiros Artes e Café (Edifício Eldorado Center, loja 16 – Beco da Lama, Cidade Alta)

Entrada franca.






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