‘As cidades oferecem serviços a mais gente se forem compactas’

Publicação: 2016-09-04 00:00:00
Mais densas, compactas e conectadas. Esses foram os princípios defendidos pelo oficial internacional sênior da Onu Habitat (agência das Nações Unidas voltada para todo tipo de assentamento humano), Alain Grimard. Depois da 28ª edição do Seminário Motores do Desenvolvimento do Rio Grande do Norte, a TRIBUNA DO NORTE perguntou como aplicariamos esses princípios em cidades já estabelecidas há quase meio milênio como as brasileiras. Como compactar? Como densificar a população? Mais gente num mesmo espaço não dá mais problema? Essas foram algumas das perguntas a Grimard. Além disso, ele falou sobre o que achou interessante em Natal durante os três dias que passou na cidade. O representante da Onu Habitat admirou o povo e a natureza local.
O sênior da ONU Habitat (agência das Nações Unidas voltada para assentamento humano), Alain Grimard, defende que as cidades precisam ser mais densas, compactas e conectadas
Ideias criativas em Natal
“O que chamou minha atenção em Natal foram todos os ativos que a cidade tem a nível natural, meio ambiente, manguezais. Pra mim, isso é único. Isso distingue Natal de muitas outras cidades do Brasil. Tem-se ver como fazer muito mais com esse ativo sem destruí-los e aproveitá-los em toda a vida econômica e social e proteger o meio ambiente.”

Agregar valor aos recursos naturais
“Há de se buscar uma marca comercial para que quando as pessoas vejam dunas, manguezais associem a Natal automaticamente. Isso deve ser divulgado por vários lugares, não só no Brasil e na Europa, mas na América Latina também.”

Engajamento popular
“No bairro de Mãe Luíza, um estádio popular criado por iniciativa popular e de um padre. Isso me parece um exemplo ótimo que mostra como a população local pode se mobilizar para construir infraestrutura própria, de boa qualidade e que, apesar do bairro ser pobre, as pessoas mantém o estádio muito bem.”

Compactação
“Sempre tem possibilidade de ficarem compactas novamente. Barcelona é uma cidade que tem 2 mil anos. Talvez não seja possível densificar toda a cidade, mas é possível fazer isso em bairros, nos quarteirões. Podemos mudar as coisas pouco a pouco. Leva tempo, pode levar 20 ou 30 anos, mas ainda tem possibilidade de densificar as coisas.”

Como fazer
“Para o ONU-Habitat, isso deveria basear-se em 5 princípios: espaços adequados para ruas e rede de ruas eficientes; alta densidade; uso do solo misto; mix social, com disponibilidade de habitação em diferentes níveis de preços e propriedade em qualquer bairro para acomodar rendas diferentes; especialização do uso do solo limitado. O objetivo é limitar bairros com funcionalidades únicas, como aqueles em que os moradores somente vão dormir, comprar ou trabalhar.”

Densidade
“Na Europa, a média é de 7 a 8 mil habitantes por quilômetro quadrado. Na Ásia, em Cingapura, Hong Kong é mais que os 15 mil habitantes por quilômetro quadrado preconizado pela Onu Habitat. Chega a 30 mil. Na América Latina é algo como 3 ou 4 mil pessoas em geral. Então, podemos multiplicar a densidade.

Mais gente morando no mesmo espaço: problema?

Pelo contrário. Os custos unitários dos serviços públicos vão baixar. Então, em cada quilômetro quadrado vai poder oferecer o mesmo serviço a muito mais gente. Por exemplo, rede de abastecimento de água e saneamento. Se você tem que instalar essas redes para três mil pessoas por quilômetro quadrado, você vai gastar muito mais dinheiro para alcançar toda a população do que se houvesse 15 mil pessoas ocupando a mesma área. Com escolas, com transporte também acontece isso. Então, você tem economia de escala ao fazer a densificação da população.”

Planejamento e uso do solo urbano
“A ONU-Habitat é inflexível sobre a necessária participação do setor público nas funções do planejamento. O planejamento das cidades ou de bairros específicos é estritamente uma atribuição de domínio público. A mesma não pode ser entregada para o setor privado. Decidir sobre o uso do solo é de notoriedade pública considerando que as decisões tomadas (por exemplo sobre a localização das ruas, prédios, espaços verdes, etc.) terão consequência nas vidas dos cidadães por gerações.”

Economia e desenvolvimento urbano

“Nunca deveríamos negligenciar a economia. Se não há atividade econômica vigorosa, a cidade não pode funcionar bem. Muitas indústrias e negócios estão localizados em áreas urbanas ou próximos das mesmas, oferecendo trabalho para os moradores. É pelo fato da maior parte da oferta de trabalho estar nas áreas urbanas que as cidades atraem grande parte da população rural à procura de oportunidades. As autoridades não podem se esquecer de estarem atentos à economia de suas cidades. É fonte de bem estar para os cidadãos.”

Sustentabilidade no Brasil

“É preciso dizer que a sustentabilidade também significa respeito ao meio ambiente e a realidade social do lugar. Neste ponto, a importância das autoridades públicas para definir e implantar políticas que vão orientar os negócios na direção certa, que vão respeitar e preservar o ambiente e outros do tipo. Por isso, as leis brasileiras sobre o licenciamento ambiental são algo muito positivo, pois permite que o setor privado contribuir intensamente para o desenvolvimento sustentável dos territórios onde as empresas operam. Nesse sentido, o Brasil está na vanguarda de muitos países do mundo.”

Líderes sustentáveis, criativos e inteligentes
“Quanto mais uma cidade educar e treinar o cidadão, mais eles vão estar sensíveis para assuntos e políticas públicas. No fim, os líderes terão que entregar mais, vão ter que se superar para satisfazer cidadãos que demandam mais e mais. Esses líderes estão mais conscientes sobre o que deve ser o desenvolvimento sustentável. Sabe-se que o desenvolvimento está melhorando com conhecimento e novas competências. Líderes concordam que, com mais educação, as pessoas sabem perfeitamente que eles têm que oferecer novas oportunidades para todos. E nós não devemos esquecer que, com o desenvolvimento extensivo de novas tecnologias da informação e comunicação, líderes e cidadãos têm tem mais acesso a novos modelos, novas ferramentas e novas oportunidades. Desde que um país como o Brasil esteja investindo em educação, os beneficiários dessa educação estarão aptos para contribuir mais ao desenvolvimento de suas cidades.”