“As revoltas ajudam a contar a história do Brasil”

Publicação: 2017-03-29 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter


A sociedade brasileira traz hoje cicatrizes sociais difíceis de resolver, algumas sutis, outras gritantes. Marcas que remontam a passagens importantes da história do país. Para o cineasta pernambucano Marcelo Gomes, relembrar o passado é fundamental para se tentar corrigir erros antigos e evitar repetições no futuro. Seu mais novo filme, “Joaquim”, é uma viagem ao século XVIII, quando num Brasil colônia, em pleno ciclo do ouro, um ex funcionário da Coroa Portuguesa se rebela para encampar um movimento de independência.
Para Marcelo Gomes, relembrar o passado é fundamental para se tentar corrigir erros antigos e evitar repetições no futuro
“Joaquim” é, como diz o diretor e roteirista do filme, “uma crônica sobre o Brasil colonial, a partir de um brasileiro comum”. Esse “brasileiro comum” é Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes (1746-1792), líder da Inconfidência Mineira que depois foi esquartejado. O filme esteve na seleção especial do Festival de Berlim deste ano e no dia 20 de abril estreará nos cinemas brasileiros.

Em Natal para orientar a equipe do Caboré Audiovisual na produção de um roteiro de longa-metragem e ministrar uma palestra na UFRN, Marcelo Gomes arranjou um tempo para conversar com o VIVER. Aos 53 anos, ele estreou em longas-metragens como produtor em “Baile Perfumado” (1996 - “Primeiro longa da minha geração”), depois participou do roteiro do filme “Madame Satã” (2002 - “outra grande escola porque acompanhei tudo, do roteiro até a finalização”).

Seu primeiro filme veio somente em 2005, com “Cinema, Aspirinas e Urubus”. No papo com o VIVER, ele contou muito sobre suas pesquisas sobre a história do Brasil, fez links com o momento político atual, falou de cinema nacional, dentre outros assuntos. Confira:

Como surgiu a ideia de fazer um filme sobre Tiradentes?
Há oito anos, um produtor espanhol me procurou dizendo que queria fazer uma série de filmes para comemorar os 200 anos de revoltas libertárias no continente americano, focado em seus líderes rebeldes. Ele sugeriu Tiradentes. Falei que gostaria muito de fazer um filme histórico, mas precisaria de liberdade completa para fazer. Não quis entrar na polêmica da figura do Tiradentes. O que me interessava, é o fato de ser um cara que vivia na sociedade daquela época, cruel, desumana, sem ética, onde se explorava o ouro e a cana-de-açúcar, a partir do genocídio de índios e trabalho escravo. Como esse cara, um funcionário da coroa, alferes, nessa sociedade, muda de paradigma e vira revolucionário? Como foi essa mudança? Nenhum livro de história conta isso.

O que buscou retratar no filme?
O meu cinema está muito próximo do documentário, é crônico. Decidi construir um filme que não é sobre Tiradentes. É sobre o Joaquim. É sobre o que aconteceu na transição dele passar de soldado para rebelde. E como era o ambiente social da época. O que fiz foi uma crônica sobre o Brasil colonial, sobre um brasileiro comum, chamado Joaquim. O filme está mais para uma crônica que para um relato, de uma poesia do cotidiano, do que de uma novela de época.

Por que Tiradentes é visto com tanta mistificação?
Eu desconstruir até o Joaquim da minha infância. Lembro de abrir o livro de história e ver aquela foto com o Tiradentes de barba grande e a corda no pescoço. Eu olhava aquilo e o confundia com Jesus Cristo. Existia uma mitificação muito grande. No filme eu o trato como homem comum. Faço a gênese do herói. Li vários livros sobre Tiradentes. O interessante é que os historiadores não chegam a um acordo sobre ele. Uns dizem que era líder da Inconfidência, outros que ele não teve tanta importância, que era de uma classe muito mais baixa que os outros envolvido e que por isso passou por tudo aquilo. O que tem de documento histórico de Tiradentes é certidão de batismo e os autos da devassa – o processo que a Coroa Portuguesa fez contra os inconfidentes. A gente tem dificuldade de registrar o passado de 20, 30 anos, imagine naquela época.

O Brasil ainda tem grandes marcas coloniais? Onde se pode ver isso na sociedade atual?
Com essas leituras, a gente vê que a origem de muitas fraturas sociais que vivemos hoje está no colonialismo. Um país com desigualdade imensa, que tratava a população de uma forma excludente, que exterminava índios para ficar com suas terras, que tinha escravatura, mazela que até hoje temos resquícios.
De alferes a revolucionário, ‘Joaquim’ faz retrato social da época
Que o teu filme pode trazer de debate para os dias atuais?
Estamos no momento de crise política. É muito importante voltar para o passado. Dentro do presente está o passado mais vivo do que nunca. E eu queria fazer um cinema vivo, com a câmera na mão, invadindo os espaços. E num momento de crise, a infância de nosso país, o período colonial, pode dizer muito sobre o que acontece no presente.

O cinema aborda pouco os momentos históricos do Brasil?
Os melhores momentos da história pra gente entender o Brasil são os momentos de rebelião. O cinema fala muito pouco da nossa história e, principalmente, desses momentos de rebelião. Tivemos a Sabinada, Balaiada, Revoltas do Males, feita pelos escravos da Bahia. É muito importante entendermos esses períodos de revolta.

Por que a Inconfidência Mineira é mais lembrada que outros movimentos, como a Revolução de 1817?
Está na hora da gente revisar nossa história. Está na hora do cinema se voltar para esses momentos tão importantes da história brasileira. Se falava em constituição e direitos sociais naquela época da Revolução Pernambucana. Adoraria fazer um filme sobre Frei Caneca. A revolta do Males tem uma história maravilhosa. Por alguns dias a Bahia ficou livre. Espero um dia fazer um filme sobre a Revolução de 1817. “Joaquim” veio de encomenda, o desejo do meu produtor de falar do Tiradentes e do Brasil colonial.

Por que Tiradentes ganhou tanto destaque, enquanto outros nomes que também morreram em outras revoltas ficaram esquecidos?
Acredito que o que fez o Tiradentes ter todo esse destaque é a proximidade ao eixo, ao poder, que na época era o Rio de Janeiro, capital. Era muito mais fácil resgatar um herói que estava lá perto que outros que estavam distante. Tem uma questão geopolítica nessa história. Os mineiros também estavam apoiando a proclamação da república. Talvez por isso ele tenha sido recuperado de uma forma mais enfática do que outros.


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