A ascensão do autoritarismo

Publicação: 2021-02-27 00:00:00
Ivan Maciel de Andrade
Procurador de Justiça e professor da UFRN (inativo)

O livro “O crepúsculo da democracia – como o autoritarismo seduz e as amizades são desfeitas em nome da política” foi publicado no Brasil em 15 de fevereiro de 2021. Foi escolhido como o “Livro do Ano” pelo “The Washington Post” e pelo “Financial Times”. A autora, a norte-americana Anne Applebaum, casada com um politico polonês, conquistou o prêmio Pulitzer. Trata-se de um estudo de filosofia política e de história que conta com as melhores recomendações, em termos acadêmicos e editoriais. O título do livro é instigante e o tema, de extrema importância, está longe de ser esgotado.

“Qualquer sociedade pode se voltar contra a democracia”, adverte a autora. E cita “uma economista comportamental”, Karen Stenner, que, após duas décadas de pesquisas, concluiu “que cerca de um terço (significativamente!) da população de qualquer país possui o que ela chama de ‘predisposição’ autoritária, uma palavra que, por ser menos rígida, é mais útil do que ‘personalidade’”. 

Segundo Stenner, “o autoritarismo atrai pessoas que não conseguem tolerar a complexidade: não há nada intrinsecamente de ‘direita’ ou de ‘esquerda’” nessa atração. E completa: “Trata-se de um estado mental, não de um conjunto de ideias”. Mas os autocratas precisam de algo mais que o mero apoio de admiradores, para serem bem-sucedidos. A verdade, escreve Anne Applebaum, é que “nenhum autoritarismo pode ter sucesso sem: os escritores, intelectuais, panfletários, blogueiros, assessores de imprensa, produtores de TV e criadores de memes que vendem sua imagem para o público.” Além disso, “os autoritários precisam de pessoas para promover tumultos ou iniciar golpes”.

Precisam “também de pessoas que saibam usar uma sofisticada linguagem legal, capazes de afirmar que ir contra a Constituição ou distorcer as leis é a coisa certa a ser feita”. Os candidatos a autocratas “precisam ainda de pessoas que deem voz às queixas, manipulem os descontentamentos, canalizem a raiva e o medo e imaginem um futuro diferente”. Em suma, “precisam de membros da elite intelectual e educacional para ajudá-los a iniciar uma guerra contra o restante dessa mesma elite, mesmo que isso inclua colegas de universidade, conhecidos e amigos”. A resistência da mídia dificulta e retarda a ascensão do autoritarismo e em razão disso é implacavelmente perseguida e hostilizada. 

Um dos principais alvos nessa guerra antidemocrática é o Judiciário. Por quê? Porque o Judiciário coíbe os arroubos de arbítrio, a violação dos direitos individuais e os ataques à liberdade de expressão. As milícias digitais se encarregam de fabricar mentiras, teorias conspiratórias, difamações e tentativas de intimidação contra o Judiciário. Se alguém se opuser a essa campanha, expõe-se ao risco de perder amizades e de transformar em inimigos ferozes pessoas inteiramente desconhecidas.   

A classe política, por sua vez, é acusada de ineficiência e desonestidade. O que justificaria um recesso compulsório do parlamento. Enquanto isso não ocorre, é fácil, através de soluções fisiológicas, deixar o Legislativo a reboque do projeto de autoritarismo. Pois, afinal, o que pretende o dirigente com vocação de autocrata é reunir em suas mãos, despoticamente, as funções próprias dos três Poderes.








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