A Assu mítica do cantor e compositor Mariano Tavares

Publicação: 2019-04-07 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Um lugar mítico, poético, repleto de árvores e povoado por figuras fascinantes, assim vê a Assu de seu tempo de menino o cantor e compositor Mariano Tavares. Adepto das canções melódicas e suaves, ele já fez referência à cidade nos seus dois discos lançados - “O Sobrado” (2005) e “Sem Parar” (2012). Agora, com a produção do seu terceiro álbum, novas referências aparecerão, desta vez centradas na Assu de sua infância, vivida entre os anos 70 e 80. “Para além da pura inspiração, acredito que o lugar onde um indivíduo viveu seus anos de formação permanece para sempre como um ponto gerador de discursos, um lugar de fala, ainda que de maneira subliminar, consciente ou inconsciente”, diz o artista, que atualmente vive em Mossoró.

Mariano Tavares

Além de cantor, Mariano é professor do Departamento de Letras da UERN, onde também desenvolve pesquisas na área de literatura norte-americana e inglesa. Nesta entrevista realizada por email ele conta um pouco da sua trajetória musical, bastante associada à Assu, onde começou a carreira se apresentando em barzinhos. Da cidade ele também lembra de outras histórias e personagens curiosos. Mariano ainda comenta sobre sua temporada vivendo em Londres, o ofício de lecionar e sobre o novo disco que está gravando, cuja previsão de lançamento é para este ano.

Lugar mítico
A Assu na qual vivi a infância e adolescência (anos 70 e 80) é bem diferente daquela que visito hoje. De certo modo, gosto de guardar na lembrança um lugar bem menor, mais tranquilo, mais seguro e mais arborizado, que ainda ostentava um certo apreço pela paisagem original de sua própria história; um lugar mítico até, “meio Macondo”, povoado por personagens fascinantes que sobrevivem até hoje na minha memória, como Roque, o cego que cruzava toda a cidade sozinho, sem a ajuda de bengalas e guias e dizia as horas com precisão de minutos, ou Cecília, a senhora que andava pelas ruas da cidade em silêncio, arrastando longas tiras de tecidos presas aos dedos, como se fossem anéis coloridos que lhe escorriam pelas mãos.

Cinema
Quando criança, uma das coisas de que mais gostava de fazer era esperar os fins de semana para ir ao Cineteatro Pedro Amorim, único cinema que havia na cidade, geralmente aos sábados pela manhã, e domingos à tarde. Creio que vem daí meu afeto imutável pelos filmes, pelo cinema, um hábito que consigo cultivar até hoje.

Bom lugar para se crescer
Desse tempo mais remoto, lembro também das brincadeiras e jogos nas ruas, de subir no umbuzeiro da antiga casa do meu avô para apanhar umbus (apesar do meu eterno medo de altura), das festas juninas, das comidas, dos parques de diversão que se instalavam na cidade durante os festejos, das missas, dos circos, dos carnavais, das lojas de discos (onde eu encontrava raridades que não se achavam nem na capital), etc. Assim como outras cidades do interior, acho que Assu era um bom lugar para se crescer. Havia uma certa liberdade de ir e vir, um certo sossego ou tranquilidade no movimento cotidiano, que talvez tenha se perdido, mesmo em cidades muito pequenas.

A música vem de berço
Minha mãe diz que, apesar da timidez inalterável, eu já gostava de cantar e dançar quando criança. Até hoje lembro claramente de alguns discos da coleção que meu pai tinha em casa (sobretudo os de Jamelão e Nelson Gonçalves, que ele mais gostava e mais ouvia), e sei cantar algumas canções desses discos de cor, embora eu mesmo nunca tenha parado para ouvi-las. Recordo que algumas vezes eu e meus irmãos acompanhávamos meu pai e minha mãe (que por vezes também arriscava cantar) a umas serestas que aconteciam num lugar chamado Beira-Sesp, onde ele costumava se apresentar. Lembro ligeiramente que eu não gostava muito da música, e que ao final da noite adormecíamos de cansaço, na mesa ou no colo de minha mãe. Uma das coisas de que me orgulho é que, quando eu comecei a me envolver mais seriamente com música e com ambientes artísticos, na minha casa isso nunca foi motivo de questionamentos, mas de encorajamento.

Um lugar inspirador
Mesmo já tendo vivido mais tempo fora de Assu do que na própria cidade, muitos (e eu mesmo) conseguem enxergar uma relação nítida entre certas canções que escrevi, sobretudo aquelas de significado mais obscuro, apenas sugerido, e a paisagem da cidade: humana, natural ou cultural. Meu primeiro álbum, por exemplo, chamou-se “O Sobrado" não apenas por causa do título de uma das canções do disco, mas porque pretendia fazer uma referência direta à arquitetura-símbolo da cidade, os sobrados e casarões do centro-histórico, que, por irresponsabilidade ou descaso, têm desaparecido ao longo dos anos para dar lugar a supermercados e lojas. Nesse mesmo álbum, eu gravei “Sob a Noite”, canção que compus a partir de um poema de João Lins Caldas, um dos grandes poetas da cidade, e certamente o que mais admiro.

Londres
Desde a infância eu sempre tive uma relação afetiva muito intensa com a língua e com a cultura inglesa (sobretudo com a literatura e com a música popular). Quando pensei em morar fora do país, Londres foi a primeira e única opção. Mesmo não tendo viajado tanto assim, acredito que ela é a melhor cidade do mundo para se viver, estou certo disso. Em nenhum outro lugar eu encontrei uma cidade tão aberta à convivência e à diversidade cultural. Entretanto, apesar da abertura e da pluralidade, a situação do imigrante como um dado permanente, inescapável, que acaba por isolar o elemento estrangeiro (ou estranho) em bolhas dentro da urbe, foi algo que desde sempre me incomodou muito. Hoje eu prefiro voltar pra matar a saudade, visitar os amigos, e ver shows, peças, essas coisas que dão real sentido à vida.

Professor
Cantar, compor e lecionar são as únicas coisas que fiz a vida toda. Talvez por estudar e trabalhar com o ensino de literatura, com formas poéticas, eu tenha dito durante muito tempo (até pra mim mesmo, como forma de me convencer disso) que as duas atividades seriam complementares e que uma produção não afetaria a outra, o que hoje percebo não ser exatamente uma verdade. Embora em determinados momentos as duas coisas possam convergir, fluir juntas, tanto a atividade artística quanto a docente requerem de mim um esforço, dedicação e concentração muito grandes, e uma acaba sempre interferindo na outra.

A força da canção popular
Mas eu me vejo desde sempre e antes de qualquer coisa como um compositor e cantor. Acho mesmo que a canção popular é a forma literária e mais poderosa, mais comovente e expressiva de nosso tempo. A confluência entre poesia, fala cotidiana e entoação melódica acaba criando um tipo de expressão artística capaz de exprimir (mais eficazmente que qualquer outra) desde sentimentos e ideias mais simples, até realidades e elaborações mais complexas, que se renovam e se modificam a cada performance, constituindo-se naquilo que Luiz Tatit chamou de “classe de linguagem” onde coexistiriam a música, a literatura, as artes plásticas, a dança, as histórias em quadrinhos, etc.

Novo disco
Vai se chamar “Otobiografia”, que é um termo empregado na teoria literária (as duas atividades se misturando, mais uma vez). É um neologismo criado por Jacques Derrida para problematizar o status do texto autobiográfico, ou da autobiografia, e que eu usei como título de uma das canções e do próprio álbum exatamente para poder brincar com a essência autobiográfica das minhas canções, ou da canção em si. Ao menos duas canções desse novo trabalho (“Otobiografia” e “Mango Fields Forever”) lidam diretamente, de maneira mais explícita do que eu jamais havia feito, com as paisagens humana, natural e cultural de Assu, porque lidam com a memória da infância, com a arquitetura e com a natureza do lugar.







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