A bailarina

Publicação: 2020-12-01 00:00:00
Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Ninguém venha dizer que sendo um menino de interior e, quem sabe, também da capital, nunca sonhou em fugir com uma bailarina de circo. É mentira. 

Sonhou. A menos que o destino lhe tenha negado aos olhos a magia daquele encanto, nas noites de espetáculo. E se negou, este cronista, velho anotador de alegrias e tristezas, oferece a sua solidariedade, posto que o sonho não se há de negar nem ao mais medíocre dos desafetos, aquele da mais vil pobreza de espírito. 

E se não bastasse a efervescência dos hormônios soprando a magia dos desejos, quando a adolescência vem, a beleza dos circos da infância tinha aquele alumbramento inesquecível do poeta Manuel Bandeira, quando viu uma moça, nuinha, tomando banho. Nem a tristeza que um dia descobri por acaso lendo uma crônica de José Carlos Oliveira, no primeiro livro - ‘Os Olhos Dourados do Ódio’. Ele, um lírico, a esperar o dia de ver o palhaço e a plateia chorarem juntos. 

Seria fácil, muito fácil, mas não aos olhos comovidos quando caem sobre a suave leveza de garças das bailarinas. Foram tão marcantes as histórias guardadas no mais íntimo da saudade que até hoje os olhos ficaram enternecidos. Gosto de vê-las. Até como fruição estética a imitar a beleza do balé clássico ou do sopro de vida sobre o bronze da ‘Pequena Dançarina de Quatorze Anos’, de Edgar Degas, que olhei um dia, em Paris, e contemplei, demoradamente, em êxtase.  

Conto uma história que seria um romance, um conto, um poema, se para tanto este pobre cronista tivesse nascido com engenho e arte. Um dia fomos assistir ao espetáculo de um pobre circo armado na Redinha. Tão pobre que não tinha empanada. Se defendia dos olhos curiosos fechado no já puído pano de roda, como se dizia antigamente, que fechava o pequeno palco e o picadeiro. Era de noitinha. Os artistas exerciam a função a céu aberto, sob as estrelas do verão. 

Diniz Grilo, o artista plástico que nos deixou seus quadros, e de alguns deles sou velho e admirado pastorador, era nosso vizinho. Sesmeiro, como eu, do mar antigo da Redinha. E um dia, começo da tarde, chamou. Quando cheguei ao alpendre, ele já estava na companhia de uma mocinha. Apresentou. Ela muito tímida, com sua pequena bacia cheia de cocadas, disse o nome quase sem soltar a voz. Era a cocada, certamente, o que Diniz queria que eu comprasse também.

Mas, notei que tinha um sorriso lavando seus olhos vivos. E perguntou: ‘Sabe quem é?”. Olhei a mocinha encabulada a esconder seu olhar no próprio rosto. Olhei, olhei, mas nada veio que pudesse ser um traço de identificação. Ele sabia desta alma perdidamente lírica que carrego, e ficou em silêncio. Até dizer: “Ela é a bailarina do circo. De dia vende cocada para ajudar o pai, o palhaço, que é o dono do circo”. A história é verdadeira, mas reconheço: parece mentira.

LANCE - O prefeito Álvaro Dias, ao defender o voto para Bruno Covas, em S. Paulo, não fez de graça, quando sabia que não poderia influenciar. Mandou um recado partidário já para 2022.  

FORÇA - Embora sem partido, sem bico e sem plumagem a identificá-lo, o ministro Rogério Marinho é mais tucano do que se pensa. A gaiola dos tucanos é hoje o grupo mais forte no RN.

LIÇÃO - Foi bom que o RN estivesse presente ao ‘Visite Pernambuco’. Quem sabe, o Estado acaba aprendendo como se vende bem um destino. E principalmente agora, com o Coronavírus.  

ALIÁS - Li numa dessas revistas sobre mercados, acho que ‘Exame’, que serão três os maiores destinos turísticos no Nordeste neste 2021: Fortaleza, Porto de Galinhas e Maceió. E Natal, ó!

OBTUSO - Mergulhado nos fóruns e feiras, viagens e missões, o trade oficial não vende Natal com eficiência junto aos mercados compradores. E lá se vão dois anos de letargia e sonolência.

NOVE - O vereador Denilson Gadelha conquistou o nono voto e deve ser eleito presidente da Câmara de Macaíba. Derrota o vereador Luiz Gonzaga Soares, Luizinho, o pai do vice-prefeito.

CENTRÃO - Os bolsonaristas estão certos de que o centrão fortalece o presidente Bolsonaro. Pois, sim. São siameses, é certo. Mas são inconfiáveis. Um vai engolir o outro. E os dois sabem.

CIRANDA - Amigo do prefeito eleito, João Campos, o natalense Cláudio Porpino já festejava a vitória, desde cedo, ainda as urnas abertas. Dançando uma ciranda em Recife, no meio da rua.

VITÓRIA - Das urnas de domingo saíram mais de cinco dezenas de prefeitos eleitos e outros tantos de derrotados. Mas, sobretudo, a vitória consagradora e coletiva da indispensável classe política. Aquela que foi demonizada pela intolerância, como se não fosse essencial a todos nós. 

VOZES - Quem examinar os resultados com isenção, vai constatar que as urnas não elegeram comandantes, mas líderes. Derrotaram a falsa nova política. Condenaram fortemente o PT e não a esquerda. E, mais uma vez, ouviram a voz dos políticos. Das metrópoles às pequenas capitais. 

EFEITO - Os resultados inscreveram números e não premeditações. A política também não abriga a pseudociência da astrologia. Alerta. Alguns dos reflexos lançados pelas urnas foram avisos. Em política, a eloquência se revela no silêncio e no ruído. Basta não tapar os ouvidos.    







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