Economia
'A BRF é um dos nossos parceiros no complexo Cajuína', diz Rogério Pereira Jorge
Publicado: 00:00:00 - 29/08/2021 Atualizado: 14:08:26 - 29/08/2021
Margareth Grilo
Editora Executiva

A AES Brasil, responsável pela construção do Complexo Eólico Cajuína, na região central do Rio Grande do Norte, firmou um Acordo de Investimento com a multinacional BRF, uma das maiores processadoras de alimentos do mundo. As duas companhias constituíram uma joint venture, com controle compartilhado, e devem investir juntas R$ 825 milhões em um bloco eólico com capacidade instalada de 160 megawatts dentro do complexo Cajuína, localizado entre as cidades de Angicos, Pedro Avelino, Lajes e Fernando Pedrosa. A previsão é de que as obras sejam iniciadas entre outubro e novembro deste ano, e o parque entre em operação em 2024. Inicialmente, a BRF investirá R$ 80 milhões, com um custo estimado de R$ 5,2 milhões por megawatts instalado, segundo fato relevante divulgado no último dia 17 deste mês. De acordo com o contrato de compra e venda de energia, com validade de 15 anos, 100% dos 80 megawatts/hora gerados serão consumidos pela BRFoods, subsidiária da BRF. A multinacional brasileira é apenas um dos investidores no Complexo Eólico Cajuína.

 No início deste ano, a AES Brasil firmou parceria com outras duas empresas, a Ferbasa - Ferro Ligas da Bahia, e a Minasligas, uma das maiores produtoras de ferro, silício e silício metálico no País. Em entrevista à TRIBUNA DO NORTE,  Rogério Pereira Jorge, diretor de Relacionamento com o Cliente da AES Brasil, explicou que Cajuína é um grande ‘condomínio’ de 1.500 megawatts de potência instalada e um investimento global de quase R$ 6 bilhões, e que para baratear custos a companhia adotou a estratégia de comercializar o empreendimento por blocos. “A ideia era ter disponibilidade para desenvolver os projetos de acordo com o que for vendendo para os clientes. Primeiro, negociamos com a Ferbasa que pegou 160 megawatts de potência instalada, a Minasligas, 80 megawatts, e agora a BRF está contratando 160 megawatts. A vantagem disso é que todo mundo acaba pagando mais barato”, afirma Rogério Jorge. Segundo ele, o desenvolvimento desses dois projetos já está mais avançado. Só o complexo Cajuína, segundo Rogério Jorge, deve aumentar em 30% a capacidade instalada de energia eólica no Estado, considerando que o Rio Grande do Norte tem 5,2 GW de potência instalada. Ele diz que o complexo é “superestratégico para a empresa”, porque permite criar um ‘cluster’ numa região que tem muito potencial de energia. Confira a entrevista.
Divulgação
AES Brasil firmou Acordo de Investimento com a BRF para construir parque no Complexo Eólico Cajuína. Multacional deve investir R$ 80 milhões

AES Brasil firmou Acordo de Investimento com a BRF para construir parque no Complexo Eólico Cajuína. Multacional deve investir R$ 80 milhões

Como surgiu a proposta de parceria com a BRF?
Nós temos um projeto gigante, 1.500 megawatts de potência instalada, é realmente um projeto de uma magnitude muito grande, de quase seis bilhões de reais. E, nesse contexto, qual foi nossa estratégia? Nós compramos um parque grande e vamos vendendo em pequenos blocos, de acordo com a necessidade dos clientes. A ideia era ter disponibilidade para desenvolver os projetos de acordo com o que for vendendo para os clientes. Então temos todo um processo de desenvolvimento desses projetos, e nós procuramos quem? Aqueles clientes que são de grande porte, com um engajamento, com uma responsabilidade social, com uma responsabilidade ambiental mais elevada, com interesse em investir em energias renováveis, no desenvolvimento das comunidades, na sustentabilidade do negócio, que possuem uma boa avaliação de crédito, bom nível de governança corporativa e com esses clientes nós desenvolvemos esses projetos para fornecer energia pra eles, através desse parque no Rio Grande do Norte.

E a BRF  é um desses clientes?
Sim, a BRF é um dos parceiros no complexo Cajuína. No começo do ano nós fechamos com outros dois clientes, a Ferbasa - Ferro Ligas da Bahia, uma empresa de capital aberto listada na Bolsa de Valores, e e a Minasligas, uma empresa do segmento de ferro daqui de Minas Gerais, e agora com a BRF, que é uma das maiores multinacionais do País, e uma das maiores – se não for a maior -  processadora de proteínas, principalmente, de aves, do mundo. A parceria ajuda os dois lados. A AES tem o objetivo de crescer no Brasil, através desse desenvolvimento de energias renováveis. Nós já temos hidrelétricas, temos energia eólica, temos as plantas solares, essa diversidade tem muito valor para AES, e a BRF também procura um desenvolvedor seguro, com reputação, com boa governança, para poder atender as necessidades de energia deles, principalmente, reduzindo impacto ambiental, garantindo que esses contratos vão ser cumpridos, garantindo que os parques vão ser construídos, e que o investimento que eles vão fazer vai ser bem utilizado. Então, eu diria que a principal essência dessa joint venture, dessa parceria, é a comunhão de propósitos que as duas empresas têm, tanto de tamanho, quanto de governança e de responsabilidade socioambiental.  

Na Joint Venture AES/BRF, qual será o papel de cada empresa? 
O principal papel da AES é desenvolver o projeto. Então, nós entramos com o fornecimento do projeto, com todo esse desenvolvimento, com a construção e operação do parque, além de a maior parte do capital dessa sociedade, a maior participação financeira. A AES tem  mais da metade de participação nesse empreendimento, e a BRF, por outro lado, além de investidora de uma parcela substancial também, bem relevante, ela promove o desenvolvimento porque contrata 100% da energia. Então, a participação da BRF é garantir o contrato de compra do volume gerado e ainda ser uma investidora de peso na sociedade junto com a AES. A AES constrói e opera, e BRFoods compra e investe. 

Quais os próximos passos para essa operação, até ela se efetivar?
Depois que é feita a assinatura dessa sociedade, existe uma série de aprovações decorrentes para que essa sociedade passe de fato a existir e poder começar a trabalhar, começar a construir. Então, agora com isso assinado tem uma série de aprovações junto à Junta Comercial, Cade, uma série de entidades do setor público que precisam aprovar para que a gente possa operar nessa sociedade. A nossa expectativa é fazer isso ao longo dos próximos dois, três meses, e lá para o mês de outubro, novembro já começar a construção do parque, começar as providencias, as contratações para a construção desse parque. 

Quais os prazos até a conclusão desse parque? Será feito por etapas? Explique sum pouco isso?
O parque começa a ser construído, agora, no último trimestre de 2021, e ele conclui 100% de sua entrada em operação ao longo do segundo semestre de 2023. Então, ao longo do segundo semestre as turbinas que forem ficando prontas vão entrando em operação, sendo que até o final de 2023 ele vai estar 100% em condição de operação.

O senhor pode detalhar melhor esse projeto em termos de infraestrutura e investimentos?
Esse projeto envolve 825 milhões de reais que vão ser constituídos parte com investimento da BRF, parte com investimento da AES, e outra parcela com financiamento ainda a ser contratado. Ainda vamos definir exatamente o número de aerogeradores, em função da topografia, da logística.  Ele é um parque distribuído entre as cidades de Angicos, Lajes e Fernando Pedrosa, naquela região.

Quantos empregos a construção desse complexo pode gerar? E após o início da operação?
Eu vou dar exemplo de um outro parque que está em estágio mais avançado, onde a gente já tem informações mais claras, e ele serve como referência por aqui não será diferente. Nós temos um outro parque no interior da Bahia, na cidade de Tucanos, o parque inclusive chama Tucano, e que ele está sendo construído e entra em operação agora no começo de 2022. Começou quase um ano antes e, ao longo da construção nós temos 600 pessoas trabalhando nesse empreendimento, 600 empregos diretos gerados naquela região, e estamos com uma série de iniciativas de desenvolver e capacitar a comunidade local, principalmente, mulheres, para poder garantir a operação do parque. Então, nós estamos levando treinamentos, cursos, escolas para aquela região do parque, para poder treinar a comunidade local, para que possa gerar renda, e que as pessoas possam cuidar da operação e manutenção desses parque. Com certeza, no Rio Grande do Norte, será dessa forma. Centenas e centenas de pessoas trabalhando ao longo da construção e, depois, o regime de operação e manutenção do parque utilizando mão-de-obra local. Tudo isso traz um progresso muito grande onde você desenvolve esse tipo de empreendimento, você passa a recolher impostos, você passa a desenvolver a comunidade, você melhora a infraestrutura da região, porque muitas vezes a gente precisa refazer vias públicas, trajetos, pontes, então por onde os parques vão passando, eles vão ali deixando uma herança de benfeitorias para que ele possa ser viabilizado, e ele vai operar ali por pelo menos 35 anos, gerando renda, emprego, tributo para aquela região, é um benefício muito grande.

Quando o parque estiver em operação, como será comercializada a energia produzida? A BRF participará da gestão?
Nessa obra da BRF, vai ser vendida exclusivamente para a BRFoods, que vai comprar e consumir 100% da energia gerada. Então, a comercialização dela está contratada 100% com a BR Foods.

Quanto às outras duas parcerias, como elas entram no projeto?
Cajuína é um grande ‘condomínio’ de 1.500 megawatts de potência. Ferbasa pegou 80 MW, Minasligas, 80 MW, agora a BR está pegando 160 MW. A vantagem disso é que todo mundo acaba pagando mais barato, consegue reduzir o custo. A gente não vai precisar compartilhar o custo de adequação das vias, das linhas de transmissão, da subestação, numa quantidade pequena de clientes, vamos diluir tudo isso numa escala enorme.

Dá para dizer em quanto esse custo reduz?
Não tem, porque você não tem uma margem de comparação. Mas sem dúvida nenhuma isso é um fator de aumento de competitividade, tanto é que muitos clientes estão comprando, já fechamos três clientes só este ano para Cajuína.

Essa procura tem sido espontânea, como ela acontece?
São tratativas de longuíssimo prazo. Nós estávamos conversando com a BRF há mais de um ano, a BRF já era nossa cliente nas hidrelétricas, de longo prazo. Pra você ter ideia, a AES tem quase 20% de quase toda a geração no mercado livre aqui da região Sudeste. Então, nós já temos um contato muito grande com grandes consumidores e nós estamos consistentemente discutindo eles o que mais a gente poderia fazer diferente para que eles possam ter acesso a uma energia mais limpa, mais competitiva, mas confiável, e nesse contexto, nessas conversas vão aparecendo essas oportunidades. É uma prospecção de longuíssimo prazo entre duas empresas que, normalmente, já têm um relacionamento. 

Em relação às outras duas parceria, em que fase estão os projetos? Já iniciariam as obras?
Os contratos estão 100% executados, desde o começo do ano, e já estão tocando a construção, as máquinas já foram compradas. Os primeiros foram Ferbasa e Minasligas. Esses foram negociados no primeiro trimestre de 2021, e as providências já estão em andamento e deve começar a construção dele ao longo do mês de setembro, começo de outubro. No caso da BRF fechamos a negociação agora em agosto, e as providencias começam mais para final do quarto trimestre. Mas é isso que você comentou é uma linha de produção, vai começar a chegar gerador, vai instalando. Essa obra vai continuar por muito tempo.

Em quanto o projeto deve aumentar a capacidade de produção de energia eólica do Estado?
Só Cajuína a gente estaria falando em 30% a mais de capacidade instalada, considerando que o Rio Grande do Norte tem 5,2 gigawatts de potência instalada. Cajuína tem 1,5  gigawatts.

A empresa considera o Complexo Cajuína estratégico?
Sim, é superestratégico. Primeiro que ele nos fortalece a ter um ‘cluster’, uma base avançada de operação numa região que tem muito potencial de energia, não só eólica, como solar, também. Recentemente nós adquirimos outros parques eólicos já em operação, um na região de Macau e Galinhos, e um outro em Areia Branca, mais recentemente, e começando a construção de Cajuína na região de Lajes-Angicos. Ou seja, com tudo isso nós passamos a ter uma presença muito importante na região que nos ajuda a alavancar ainda mais os projetos. Do ponto de vista de fonte, tanto a solar quanto a eólica são superestratégicas para AES por que a maior parte do nosso portfólio é de hidrelétricas, então ter outras fontes complementando a gestão hídrica nos ajuda a ter um protfólio mais eficiente, não depender tanto da chuva, não depender tanto do vento, não depender tanto do sol, então você tem um portfólio mais diversificado, você tem uma segurança maior.

Como avalia a contribuição do setor eólico para a matriz energética brasileira?
Ela é valiosíssima porque ela ajuda a garantir que o sistema possa dentro do possível economizar água nos reservatórios, enquanto não vem o período úmido, uma hidrologia um pouco melhor, então o País conta hoje com, provavelmente, 17% de toda a capacidade do País já é de energia eólica, e toda vez que essas máquinas estão gerando energia é uma água que deixou de ser consumida.


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