A carta do Monsenhor

Publicação: 2015-12-27 00:00:00 | Comentários: 0
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Woden Madruga [woden@terra.com.br]

Sábado outro, 19, esteve em Queimadas, meu amigo José Ivo de Souza, Dedé, prefeito uns três mandatos ou mais de Lagoa de Velhos, bom papo, contador de histórias e estórias,  compositor e seresteiro nas noites vagas. Me entregou um envelope e foi dizendo: “Aí dentro está o discurso que o Monsenhor Expedito fez na inauguração do Canal do Pataxó, na presença do presidente FHC”.  Começo de novembro citei aqui este discurso  em forma de carta que ele havia entregue a FHC, como o próprio registra em seu livro “Diário da Presidência”: “ O monsenhor Expedito, que me impressionou muito,  fez uma carta a mim, defendendo a posição deles na questão da água. Inauguramos não só o canal de Pataxó como também o começo de outra obra para uma adutora no baixo do Açu.”

Transcrevo-o discurso na íntegra. Os políticos de hoje, lendo- o, poderiam aprender muita coisa sobre o Nordeste, começando pela seca:

“Exmos. Srs. Presidente da República, Governador do Estado, representantes do Poder Legislativo e Judiciário, demais autoridades. Meus senhores:

A presença do Sr. Presidente da República Fernando Henrique Cardoso inaugurando o Canal do Pataxó, tem um significado muito grande para todos nós. Daí a alegria de toda a população do Estado. Até a natureza, costumeiramente sisuda e áspera se revestiu caprichosamente, vaidosamente, para esta solenidade. Não faltou a flor do pereiro nem do mandacaru para perfumar os ares desses tabuleiros de São Rafael.

Falando a nação, V. Excia. pediu que esquecêssemos o passado e olhássemos o dia de amanhã, que será mais bonito. Peço licença a V. Excia. para me reportar ao passado, só essa vezinha, para provar como a visita de Presidentes de República nos tem sido benéfica.

Em 1958, abateu-se sobre o Nordeste devastadora seca, quando foi iniciada a construção da barragem de Pataxó, daqui a 9 Km. Em vigente o regime da famigerada “INDÚSTRIA DA SECA”: pagava-se o trabalhador, apelidado de “cassaco”, mediante “vale” no “Barracão “ de algum afilhado político, que terminava milionário. A imprensa denunciava, mas sem resultado.

Certo dia, eu e mais 6 colegas, à frente nosso bispo Dom Eugênio Sales, atual cardeal no Rio de Janeiro, viemos verificar de perto aquela desumanidade: os ricos ficando mais ricos às custas dos pobres cada vez mais pobres. Saltamos à sombra de um juazeiro, árvore símbolo da resistência nordestina: quanto mais verão mais verde fica! fomos logo vistos por aquele formigueiro humano no canteiro de obras, em meio a centenas de jumentos e caminhões. Alguns cassacos maltrapilhos, empoeirados, olhos fundos, vieram ao nosso encontro. Um deles, parecendo ser o líder, foi logo desfiando o rosário de injustiças, recebendo o salário em mercadoria de 2ª classe, com direito de ver a família, em fim de semana, para levar a a”REMISSÃO”, e terminou dizendo: “Seu Vigário, tire de nós dessa escravidão, pelo amor de Deus! ” Eu e meus companheiros fomos tomos de indignação. Tinha razão o poeta dos escravos: “Senhor Deus dos desgraçados! / Dizei-me Vós, Senhor Deus / Se a loucura, se é verdade / Tanto horror perante os céus! ”

Assumimos o compromisso de responder a interpelação de Zé Nordestino, aquele cassaco anônimo do Pataxó. Pouco tempo depois, Dom Eugênio foi ao Rio de Janeiro e, com Dom Helder, informou ao presidente Juscelino, que ficou indignado e nomeou um general para coordenador a assistência aos flagelados. Acabou-se a Indústria do” Barracão”. Mas, anos depois, começou a Indústria do “CAMINHÃO-PIPA”.

Em outubro daquele ano, os bispos de governadores do Nordeste, reunidos em Campina Grande, com o economista Celso Furtado, lançaram a ideia de ser criado um organismo oficial, para planejar o desenvolvimento da região. No ano seguinte, foi criada a SUDENE. Juscelino veio a Natal encerrar o encontro dos governadores e bispos do Nordeste.

Em 1962, tivemos a presença de outro Presidente da República. João Goulart veio a Angicos, aqui bem pertinho, no governo Aluísio Alves, encerrar um curso de alfabetização de adultos, em 40 horas, de Paulo Freire. Em 1983, o Presidente João Figueiredo veio inaugurar essa Barragem Armando Ribeiro, com 2 bilhões e 400 milhões de metros cúbicos. Hoje, 29/03/96, o Presidente Fernando Henrique Cardoso inaugura o CANAL DO PATAXÓ.

Agora, Excia., nós podemos olhar o dia de amanhã, que será mais bonito. Essa sua profecia se realizará, se Deus quiser, pois o segredo dessa esfinge azul está desvendado. De suas entranhas sobe um clamor surdo, crescente e ameaçador:  tirem-me daqui e me levem pelas adutoras, a todos os recantos do Rio Grande do Norte, que o dia de amanhã não será só bonito; será lindo!

E Zé Nordestino, onde vai ficar? – ele representante legítimo de “MORTE E VIDA SEVERINA, de fome um pouco por dia, de  fraqueza  e doença que é a Morte Severina, ataca gente de qualquer idade até gente não nascida!”.  O governador Garibaldi Alves garante que 50% das terras irrigáveis são destinadas ao assentamento de pequenos agricultores, aquele que, com menos de 100 hectares são responsáveis pela maior produção de alimentos básicos, neste país, na faixa de 80% e empregam 84,4% de mão de obra, segundo o censo Agro-Pecuário. Confiamos no jovem governador porque teve a coragem de iniciar a reforma administrativa tão desejada por V. Excia.

Que beleza, Sr. Presidente, o sertão do Nordeste com água! Aqui, estão as melhores terras do mundo, classificadas em 01 pelo Projeto RADAM, em 1973. Aqui, quando o inverno é regular tem 65 dias de chuva e 300 de sol, possibilitando até três colheitas de irrigação. E a grande barragem rosnando: “Presidente, me leve daqui para as cidades e para os campos, através das adutoras. Já estão me chamando ELEFANTE AZUL, que só serve para poucos e me evaporar, durante o ano. Presidente: V. Excia., semanas atrás, pediu uma trégua. Que não seja longa de mais, pois já estamos com água na boca.... Acho que todo brasileiro responsável, que não radicalize posições, lhe dá um voto de confiança. E eu disse a Zé Nordestino: Zé, o homem é sério. Quando jovem, ele se empenhou pelas ideias de libertação do povo. E quem assim procedeu e foi cozinhado no sofrimento e no exilio não perde o rumo nunca mais!

Tudo isso que lhe falei está detalhado nesta fita de vídeo que lhe ofereço. Sei que não vai ter tempo para vê-la. Dê a dona Ruth e seus meninos. É a CAMPANHA COMO CONVIVER COM A SECA”, as adutoras, a transposição de 2,5% de águas do São Francisco, para as nascentes do Jaguaribe, no Ceará e, daí, por gravidade, aos grandes reservatórios Orós-Castanhão (CE), Armando Ribeiro-Apodi (RN), Coremas-Mãe D’Água (PB)

Esse projeto foi aprovado pelo Congresso Nacional e sancionado pelo presidente Itamar Franco, na gestão do ministro Aluísio Alves, no extinto Ministério da Integração, para estar pronto em 2 anos, como solução definitiva, com empréstimo de 3 anos de carência, mais barato do que o governo gasta no atendimento de um ano de seca. Aí sim, Sr. Presidente, é que o Nordeste será lindo. Não terá mais 40% de analfabetos, nem 22% de indigentes. “JUSTIÇA E PAZ SE ABRAÇARÃO” e Fernando Henrique Cardoso, nosso irmão, será lembrado no bronze da HISTÓRIA, como o LIBERTADOR.

Pataxó, 29 de março de 1996

Mons. Expedito Sobral de Medeiros”

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