“Cenário de guerra”, diz Cipriano Maia sobre colapso na rede pública e privada

Publicação: 2021-03-04 00:00:00
Felipe Salustino
Repórter
Ricardo Araújo
Editor

O sistema de Saúde da Grande Natal está em colapso diante das dificuldades em responder à alta demanda por leitos nas redes pública e privada, destinados ao tratamento da covid-19 na região. A avaliação é do titular da Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap/RN), Cipriano Maia. Ele afirma que a rede de saúde, em todo o Rio Grande do Norte, vive um momento de saturação total, com agravamento do quadro na capital e cidades circunvizinhas.

Créditos: Alex RégisMovimentação de ambulâncias transferindo pacientes entre unidades de saúde em Natal e Região é intensa. Faltam leitos críticosMovimentação de ambulâncias transferindo pacientes entre unidades de saúde em Natal e Região é intensa. Faltam leitos críticos

Segundo Cipriano Maia, o cenário que se configura no Estado é o de uma “tragédia”. 

“Estamos numa situação de colapso na Região Metropolitana, exatamente porque o sistema de Saúde não consegue dar respostas, no momento oportuno, para a necessidade de leitos. O crescimento da demanda de forma exacerbada levou a um descompasso entre oferta e procura (de leitos). É uma tragédia que está se configurando com a saturação total do sistema de Saúde e sem alternativas de curto a médio prazo para que a gente supere isso”, relata o secretário.

Desde a terça-feira (2), o índice de ocupação dos leitos críticos nos hospitais públicos de Natal e do interior, registra um quantitativo superior a 94%, o mais alto desde o começo da pandemia no Rio Grande do Norte. De acordo com a Plataforma Regula RN, 60 pessoas aguardavam por leitos críticos no início da tarde dessa quarta-feira (3), sendo a maioria (58), na Região Metropolitana. Os outros dois pacientes em espera eram da Região Oeste do Estado.

Na contramão da alta procura, apenas 17 leitos para tratar pacientes acometidos pela forma mais grave da doença estavam disponíveis. O secretário Cipriano Maia afirma que a Sesap continua trabalhando com a expansão de leitos para tentar desafogar a rede de assistência pública, mas que, no momento, não há solução imediata para o problema. 

“Não há muito o que fazer. Nós estamos tentando melhorar o giro de ocupação dos leitos, encaminhando pacientes em condições de deixar a UTI para cuidados semi-intensivos, mas há limites. A situação está assim em todo o país. Não há leitos suficientes para uma demanda exponencial. Nenhum sistema de Saúde no mundo dá conta do cenário que estamos vivendo, principalmente pela complexidade que os leitos críticos exigem, com trabalho e equipamentos especializados, algo que já é escasso”, assume o secretário.

Segundo o titular da Sesap, nenhum paciente infectado pelo novo coronavírus no Rio Grande do Norte está sem assistência médica. “Enquanto esperam por uma UTI, os pacientes permanecem internados em Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), em leitos de estabilização ou sob o cuidado de outros serviços disponibilizados pelo Estado. Temos a perspectiva de abrir, até a próxima semana, um conjunto de novos leitos. Estamos no processo de aquisição de equipamentos e de pessoal”, garante a Maia.

Créditos: Augusto bBezerraCipriano Maia relata dificuldades em abrir novos leitos no RNCipriano Maia relata dificuldades em abrir novos leitos no RN

Lockdown
Na terça-feira (2), membros da Sesap e do Comitê Científico de enfrentamento à covid-19 no Rio Grande do Norte se reuniram para avaliar o atual momento da crise sanitária no Estado. A  infectologista Marise Reis, que integra o Comitê, disse que, dentre as discussões do encontro, estavam o debate sobre a implementação de medidas mais restritivas do que as já existentes para tentar frear a disseminação do novo coronavírus. A médica não quis especificar, entretanto, quais medidas seriam essas, mas explicou que um documento deverá ser divulgado até esta quinta-feira (4), com as novas recomendações.

“O Comitê já discute a necessidade de ampliar medidas restritivas. São decisões muito difíceis de serem adotadas, levando em consideração o nosso contexto social e econômico, mas nesse momento, são essas medidas que vão frear a transmissão do vírus, além da vacina, que ainda não está acessível para todos”, informou. Questionada se as medidas envolviam a recomendação de um possível lockdown, a médica explicou que não teria condições de antecipar a informação.

“Estamos discutindo sobre as restrições e não posso antecipar nada. O Comitê Geral faz a reunião, discute o problema e leva mais 48h para elaborar um documento, fechar a discussão e publicar. Provavelmente, esse documento vai estar disponível nesta quinta”, resumiu. “O que estamos discutindo são restrições recomendadas e utilizadas internacionalmente e com resultados que frearam a transmissão em contextos de pico, como o que nós estamos vivendo”, encerrou.

O secretário de Saúde, Cipriano Maia, que também participou da reunião na terça-feira, não comentou o assunto. Segundo ele, a Sesap só irá se pronunciar após o Comitê Científico divulgar o resultado das deliberações acerca das novas medidas a serem recomendadas no âmbito da crise atual.

Governadora
Em entrevista ao programa Foro de Moscow, disponível no Youtube, a governadora Fátima Bezerra afirmou que as novas medidas devem ser anunciadas até sexta-feira (5).

“O ideal era uma medida a nível nacional, por isso que na reunião com o presidente da Câmara, Arthur Lira, defendi as medidas sugeridas pelo CONASS. Um pacto nacional em defesa da vida", afirmou a governadora.

Conass cobra medidas mais severas aos gestores
Na passagem do dia 2 para o dia 3 de março, a Sesap registrou 1.248 novos casos de covid-19 no Rio Grande do Norte (de 168.171 para 169.419). O aumento de confirmações da infecção pelo novo coronavírus se reflete no estrangulamento atual das unidades de saúde públicas e privadas com leitos específicos para a doença. Na tarde dessa quarta-feira (3), dos 21 hospitais acompanhados pela plataforma Regula RN, 15 estavam com ocupação em 100%. Outros quatro entre 90% e 93,3% e somente um, o Hospital Infantil Maria Alice Fernandes, em Natal, com 20%.

“Do que eu tenho acompanhado, estamos numa situação muito delicada. Temos tendência de aumento de casos e de ocupação de leitos. Esse momento é mais crítico”, comenta Alessandra Lucchesi, subcoordenadora de Vigilância Epidemiológica da Sesap/RN. Conforme detalhou, o perfil dos pacientes que recorrem a um leito crítico para tratamento da doença é similar ao primeiro pico da pandemia no Estado: adulto, com comorbidades, com destaque para os idosos.

Conforme a plataforma Regula RN, no início da noite dessa quarta-feira, 61 pacientes com perfil crítico estavam na lista à espera de um leito de UTI, mas somente 15 estavam disponíveis. “Isso gera uma grande pressão sobre os leitos. Hoje, a gente não vê queda nos casos confirmados. Nós temos uma alta de confirmação de casos e 15% desses apresentam piora e demandam internação. Há necessidade de adoção de medidas mais restritivas”, aponta Lucchesi.

O presidente do Conselho Nacional dos Secretário de Saúde (Conass), Carlos Lula, em carta à nação brasileira, destacou que “o atual cenário da crise sanitária vivida pelo país agrava o estado de emergência nacional e exige medidas adequadas para sua superação”. O presidente ressaltou que “o recrudescimento da epidemia em diversos estados leva ao colapso de suas redes assistenciais públicas e privadas e ao risco iminente de se propagar a todas as regiões do Brasil”.

Para Alessandra Lucchessi, o isolamento social é a medida mais efetiva diante do caos atual no sistema de saúde. “O programa de vacinação avança muito devagar. A saída é tirar pessoas de circulação. O isolamento social é a única medida sanitária efetiva, ao lado do uso de máscara e higienização das mãos com álcool a 70%”, frisou. 

A Carta 
"O Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) manifestou-se pela adoção imediata de medidas para evitar o iminente colapso nacional das redes pública e privada de saúde através de uma carta. Veja principais pontos:

a) Maior rigor nas medidas de restrição das atividades não essenciais, de acordo com a situação epidemiológica e capacidade de atendimento de cada região, avaliadas semanalmente a partir de critérios técnicos, incluindo a restrição em nível máximo nas regiões com ocupação de leitos acima de 85% e tendência de elevação no número de casos e óbitos. Para tanto, são necessárias:

A proibição de eventos presenciais como shows, congressos, atividades religiosas, esportivas e correlatas em todo território nacional;

A suspensão das atividades presenciais de todos os níveis da educação do país;

O toque de recolher nacional a partir das 20h até as 6h da manhã e durante os finais de semana;

O fechamento das praias e bares;

A adoção de trabalho remoto sempre que possível, tanto no setor público quanto no privado;

A instituição de barreiras sanitárias nacionais e internacionais, considerados o fechamento dos aeroportos e do transporte interestadual;

A adoção de medidas para redução da superlotação nos transportes coletivos urbanos;

A ampliação da testagem e acompanhamento dos testados, com isolamento dos casos suspeitos e monitoramento dos contatos;

b) O reconhecimento legal do estado de emergência sanitária e a viabilização de recursos extraordinários para o SUS, com aporte imediato aos Fundos Estaduais e Municipais de Saúde para garantir a adoção de todas as medidas assistenciais necessárias ao enfrentamento da crise;

c) A implementação imediata de um Plano Nacional de Comunicação, com o objetivo de reforçar a importância das medidas de prevenção e esclarecer a população;

d) A adequação legislativa das condições contratuais que permitam a compra de todas as vacinas eficazes e seguras disponíveis no mercado mundial;

e) A aprovação de um Plano Nacional de Recuperação Econômica, com retorno imediato do auxílio emergencial."

Fonte: Conass – Carta dos Secretários Estaduais de Saúde à Nação Brasileira

Convocação
Diante da ampliação dos leitos Covid no Rio Grande do Norte, a Sesap anunciou a convocação de 81 servidores temporários para atuar no enfrentamento à pandemia. São enfermeiros, fisioterapeutas, técnicos de enfermagem, copeiros, farmacêuticos, farmacêuticos bioquímicos e biomédicos, técnicos em radiologia, auxiliares de cozinha, higienistas hospitalares e maqueiros que atuarão na linha de frente.

A convocação foi publicada no Diário Oficial da terça-feira (02), e considera os editais números 001/2020 e 002/2020 e atende ao Plano de Contingência Hospitalar para o Enfrentamento ao Covid-19. Os profissionais deverão assinar o contrato no período de dez dias úteis, contatos com a data da publicação.
Os candidatos convocados deverão digitalizar os documentos listados na convocação, e enviar o arquivo em PDF para o link:
 https://selecao.saude.rn.gov.br/selecao/, além de informar o(s) telefones atualizados após o processo ser aberto para ser avisado quanto à assinatura de documentos e a lotação. Para informações, devem ligar: (84) 9 8137-4229.