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Artigos
A ciência e a educação que salvam vidas
Publicado: 00:00:00 - 23/07/2022 Atualizado: 01:14:21 - 23/07/2022
Elize Massard da Fonseca*
Professora em administração pública da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas
*É organizadora do livro “Coronavirus Politics: The Comparative Politics and Policy of COVID-19” (ed. University of Michigan Press) 

A ciência brasileira tem sido exemplar no enfretamento a crises de saúde pública, porém nunca foi tão desvalorizada e incompreendida como no contexto atual. 

Mesmo com a falta de investimento, durante a pandemia do COVID-19, os cientistas brasileiros mantiveram posição de destaque no sequenciamento genético do vírus em tempo recorde, colaboraram em ensaios clínicos de vacinas e medicamentos, e foram responsáveis pelo desenvolvimento autóctone de testes de diagnóstico. Graças as capacidades tecnológicas acumuladas é que o Butantã e BioManguinhos se tornaram parceiros relevantes para receber a tecnologia das vacinas contra o novo coronavírus. Ou seja, a ciência brasileira teve papel fundamental na cadeia de valor global para desenvolver produtos que salvam vidas.

A construção de expertise tecnológica requer, por sua vez, compromissos de longo prazo para financiar infraestruturas de pesquisa e formar recursos humanos. Nossos cientistas cultivaram seus conhecimentos navegando em águas turbulentas ao longo dos anos. Por exemplo, outros projetos relevantes de transferência de tecnologia, como o acordo da Merck Sharpe & Dome e o Butantan para produção da vacina contra o HPV, foram paralisados ??devido à falta de investimento na construção de uma nova fábrica. 

Enquanto países como China, Cuba, Índia e Rússia desenvolveram suas próprias vacinas contra o novo coronavírus, as vacinas brasileiras – Versamune e ButanVac – patinam para sair da fase de ensaios clínicos; desacreditadas pelo próprio governo que não alocou recursos suficientes para pesquisa e desenvolvimento. 

A descrença na ciência para o enfrentamento do coronavírus veio na esteira do negacionismo científico e dos movimentos conspiratórios no combate ao aquecimento global; tal comportamento busca minar a legitimidade do conhecimento científico e as instituições associadas.
 
Enfraquecer a ciência, demitir autoridades governamentais e desacreditar nos dados causaram atrasos na resposta do país às mudanças climáticas do mesmo modo que no enfrentamento ao covid-19. A consequência, no entanto, é o triste número de mortes desnecessárias e o título humilhante que o Brasil recebeu por ser o epicentro da pandemia na América Latina.

Se por um lado caberá ao próximo governo resgatar o apoio e financiamento a ciência e tecnologia em saúde; por outro, precisamos urgentemente ir além de pedir aos líderes que levem a ciência a sério – uma estratégia que quase certamente falhará se os líderes tiverem incentivos para ignorar esses apelos. É fundamental advogar pela inclusão de abordagens sólidas e baseadas em evidências para a própria comunicação científica como meio de educar a população sobre a desinformação e os perigos da pseudociência.

Com as eleições à vista, precisamos cobrar dos candidatos o apoio a ciência e uma educação que habilite o cidadão para desvendar o universo da ciência e que aperfeiçoe seus parâmetros críticos.

Este artigo foi escrito para a campanha #ciêncianaseleições, que celebra o Mês da Ciência.

* Artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor

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