A cidade astral do Amai

Publicação: 2019-02-03 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Caçula entre os 16 irmãos, o primeiro entres os filhos que chegou à faculdade, Véscio Lisboa deixou a Serra de Martins para cursar Direito em Natal em 1970. A família botava a maior fé, veria um filho Doutor, pense num orgulho! Mas Véscio estava noutra, andava com uns papos de equilíbrio entre corpo, mente e espírito, tudo desdobramento dos livros que encontrava na finada livraria O Templário, na Cidade Alta.
Véscio Lisboa, cozinheiro
Véscio Lisboa, cozinheiro

Depois da formatura em Direito, Véscio pegou a estrada rumo a Salvador. Foi estudar sobre alimentação macrobiótica. Macro, de grande, bio, de vida, ótica, de visão: grande visão da vida. “Era a minha sacação”, lembra ele, o criador do restaurante Amai, pioneiro em Natal nesse lance de alimentação saudável.

O Amai marcou época na cidade. Funcionou entre 1977 e 1993. Passou por vários pontos, incluindo três anos na Ladeira do Sol, num período que a Praia dos Artistas vivia seu auge. Por lá passaram artistas locais e nacionais, gente como Caetano e Gil. Também aconteceram exposições de arte e desfile de moda. “Além de um centro de alimentação saudável e de meditação, era um espaço cultural, referência para artistas, andarilhos e hippies que chegavam na cidade”, diz Véscio orgulhoso.

Mas, em pleno apogeu, ele decidiu encerrar as atividades do Amai. A cozinha, sua paixão, acabou ficando em segundo plano com o crescimento do restaurante. A grande demanda administrativa o colocou numa rotina pesada e chata. Acabou o tesão. E nessa hora, Véscio decidiu ir para uma praia bem distante, quase intocada: Diogo Lopes.

Na praia passou mais de dez anos, mergulhou de cabeça na comunidade de pescadores, promoveu atividades artísticas – exercitando um lado seu que estava adormecido desde o tempo da faculdade de Direito, quando também foi ator e diretor com o grupo Teatro Mágico. Foi um período de bastante integração, de troca de conhecimentos e de desconexão com o urbano. Mas chegou o dia de voltar para a capital potiguar. Foi convidado a dirigir o Auto de Natal da Prefeitura e topou a missão. Após o espetáculo, acabou ficando na cidade.

Cozinhar, Véscio sempre seguiu fazendo, mas de forma particular, íntima, experimentando sabores, texturas e cores em encontros  em casa com amigos. Acontece que alguém acaba abrindo o bocão e de repente já se estava comentando que o Amai estava de volta. Véscio então assumiu a história e há um ano voltou à atividade, agora num ritmo mais moderado, em sua própria casa, onde os visitantes se servem na cozinha. Nesta entrevista à TRIBUNA DO NORTE, ele conta um pouco da sua trajetória e a do restaurante.

Os biscoitinhos da Yoko

A primeira vez que ouvi falar em macrobiótica foi lendo uma entrevista de John Lennon e Yoko na Rolling Stones, onde a Yoko falava de biscoitinhos macrobióticos. Quem me iniciou na macrobiótica foi um potiguar de Maracajaú que morava no Rio, Valter Berbi, que já passou para outra dimensão. Eu cursava Direito, mas nos primeiros anos do da faculdade eu estava em busca de ioga e de meditação. Natal tinha no Centro da Cidade, uma livraria chamada “O Templário”. Era uma referência para buscadores, pessoas que buscavam ler sobre filosofia, exoterismo, espiritualidade, meditação, zen budismo. Era uma livraria muito pequena, não cabia essa mesa em que estamos conversando, mas que no conteúdo era grande. Quando conclui o curso de Direito, mergulhei na busca por conhecimento dentro da filosofia e medicina oriental. Queria ser meu próprio cozinheiro e médico.

A família estranhou

Depois do curso fui pra Salvador, o centro mais avançado sobre esses estudos no Nordeste. Fiz contato com a associação macrobiótica internacional. Passei uns três anos lá. Voltei para Natal  porque sempre amei a cidade e eu queria divulgar o que aprendi. A essa altura já tinha mais gente interessada na macrobiótica. A família estranhou, demorou pra entender. Depois aceitaram. Todo mês vou Martins rever minha irmã, adoro a comida de lá. Hoje o pessoal só reclama da barba.

Amai uns aos outros

O Amai existiu de 1977 até o início dos anos 90. Não teve sede fixa. Passamos por oito lugares. Começou na rua Cordeiro Farias, na subida para o Centro de Turismo. Depois descemos para a Ladeira do Sol. Ficamos três anos lá, quando a Praia dos Artistas estava no auge. Era um point. Recebíamos gente do mundo inteiro. Andarilhos, hippies, turistas. As pessoas já chegavam com referências. E alguns até chegaram a se hospedar lá. Traziam saco de dormir. Eu recebia todo mundo. A época pedia isso. Depois passamos por outros lugares, como a Princesa Isabel, depois a rua da Igreja do Galo. Quando eu precisava trocar de ponto, botava um anúncio no jornal. “Procuro casa para alugar para instalação de restaurante natural Amai”. E o pessoal vinha me fazer propostas.

Jards Macalé

Na época do Festival do Forte teve uma história legal. O [cantor e compositor] Jards Macalé estava  na cidade e foi lá no Amai. Perguntou o que tinha de suco. Dissemos: cajá, cajú, manga, tamarindo... Ele interrompe e pede um soco com um pouquinho de tudo. Fizemos. Ele bebeu, aprovou e fez uma sugestão. “Você devia colocar esse suco no cardápio. E o nome seria 'Jards Macalé'”. A gente riu, mas ficou por isso mesmo. Nessa reabertura do Amai, a gente lembrou dessa história. Porque no final do expediente, quando sobra fruta, a gente junta tudo e faz suco pra gente. Mas recentemente a gente resolveu colocar no cardápio. Tá ali no quadro de sucos.

Macrobiótica à Nordeste

Foi importante a macrobiótica ter chegado no ocidente, no Brasil e no Nordeste. E chegando aqui, jamais poderia ter ficado como era. A macrobiótica era uma alimentação zen, praticada nos mosteiros budistas de 5 mil anos atrás, baseada numa visão para a evolução da mente, corpo e espírito, para o equilíbrio, a energia interior. Não dava para a gente comer aqui o que se come no Japão. Abóbora hokkaido, um jerimunzinho pesado, duro, que se produz nas montanhas geladas do Japão. Então houve adequações. Foi entrando o jerimum, a macaxeira, o quiabo, o maxixe. Mas tudo dentro do mesmo conceito.

Temporada em Diogo Lopes

Passei 15 anos em Diogo Lopes. É um lugar de rara beleza, com um povo maravilhoso. Eu me integrei a vida social da comunidade. Convive com pescadores, aprendi a preparar peixe como eles preparam. Desenvolvi projetos na área cultura e de educação. Conseguimos construir um teatro, salas de oficinas. Virei cidadão macauense. Construí minha casa do jeito que queria, em cima de uma duna. Eu estava certo que não viria mais para a cidade.  Pisava aqui entre dois e três anos, quando juntava um monte de coisas pra resolver e vinha aqui bem rápido, passava no máximo dois dias e me mandava.

Cozinha sob nova proposta

Quando parei com o Amai o restaurante estava muito grande, com mais de 20 funcionários. O barato era eu ser o cozinheiro. Mas eu não ia mais pra cozinha. Passava a manhã comprando os alimentos. Deixou de ser prazeroso. E jamais imaginei que voltaria a ter um restaurante de novo. Aqui hoje, o restaurante tem outra proposta. Entro na cozinha às 7h e saio às 14h30. Servimos 50 refeições por dia. Só funcionamos para almoço, de segunda à sexta. O bufet é na cozinha. As pessoas se servem direto no fogão. Tive problema com a anvisa, depois eles aceitaram que é a minha proposta. Recebo muita gente jovem, netos de quem já frequentou o antigo Amai. Não temos ninguém para receber o pagamento. Tem uma caixinha em cima da geladeira para deixar o valor do prato. A pessoa mesmo vai lá, põe o dinheiro, se tiver que pegar o troco pega.





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