A cidade como ambiente museológico

Publicação: 2018-05-23 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Pensar o museu para além do espaço físico de um prédio institucional. Ampliar esse conceito para a cidade inteira, como se a cidade fosse um grande mapa a ser explorado por ações que promovam nossa maior relação com o lugar, com as pessoas e com nós mesmos. Mas sem esquecer um detalhe: tendo os próprios moradores como construtores da memória coletiva. Essa percepção permeou a abertura do 1º Seminário Museu, Cidade e Memória Afetiva, realizado, na manhã de terça-feira (22), na Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, na Cidade Alta.

Igreja Nossa Senhora do Rosário abriga seminário e lançamento do Museu da Memória Afetiva da Cidade do Natal
Igreja Nossa Senhora do Rosário abriga seminário e lançamento do Museu da Memória Afetiva da Cidade do Natal

Dois importantes nomes da área de museu no Brasil estiveram estiveram presentes no evento e palestraram sobre o tema: o presidente do Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), Marcelo Mattos Araújo, e Maria Inez Montovani, fundadora da Expomus, empresa brasileira especialista na área de museus. Marcelo ressaltou o maior protagonismo dos museus na sociedade contemporânea, fenômeno que é mundial. Já Maria Inez, apresentou casos bem sucedidos de iniciativas museológicas de grande impacto social em comunidades periféricas de São Paulo.  Os dois conversaram com o VIVER e a entrevista pode ser lida ao lado do texto.

Quem também participou do seminário foi a dupla Zé Bueno e Luiz Campos. Eles são os criadores do projeto Rios e Ruas, iniciativa surgiu em 2010 com o objetivo de redescobrir os “rios invisíveis” da metrópole paulistana por meio de oficinas, exposições e expedições a nascentes.  Segundo o arquiteto e urbanista Zé Bueno existe uma questão cultural na sociedade de ver os rios como problema e associá-los a esgotos. “Até urbanistas vêem os rios como problema. Para eles, o rio fede, atrai bichos, doenças, afeta o trânsito. E não precisa ser assim”, comenta.

Para mudar esse entendimento, a dupla aposta em atividades criativas, associadas à ocupação do espaço público e a criação de vínculos afetivos. O geógrafo e educador Luiz Campos lembrou uma das experiências do projeto: a expedição ao rio Saracura, no Centro de São Paulo. Na passagem pelo bairro de Bixiga, famoso por concentrar imigrantes de italianos, o público conhece a histórias de gente que já vivia na área antes dos imigrantes. No caso, negros libertos. São eles que guardam memórias da existência do rio.

“Esses negros por muito tempo carregavam o apelido de saracura, em referência ao nome do pássaro que vivia na várzea do rio. Há pouco anos, essa questão e a história do rio foi levada para o desfile de carnaval da escola de samba Vai-Vai, que é do bairro. O grupo ganhou o carnaval daquele ano com esse tema. E hoje, o termo saracura é motivo de orgulho”, conta Luiz Campos, ao ressaltar a importância da memória afetiva como agente promotor de transformações sociais. “A memória do rio está nas pessoas”.

Caçadores de rios invisíveis em Natal
Zé Bueno e Luiz Campos continuam em Natal. Nesta quarta-feira (23), ainda dentro da programação do Seminário, eles participarão do percurso “Rios e Rua Natal”. A atividade é gratuita. Os interessados devem comparecer a Igreja do Rosário no horário das 14h, quando um ônibus levará o grupo até o ponto de partida do passeio, no Barro Vermelho. Na região há afluentes do Rio Potengi praticamente esquecidos da população. E o objetivo da atividade é justamente conhecê-los e caçar histórias de quem vive ao redor desses afluentes.

Lançamento de museu virtual
O Seminário marcou o lançamento do Museu da Memória Afetiva do Natal (Mmac), um
'Quanto mais expandido, mais o museu faz sentido', diz Maria Inez, do EXpomus

No seminário se comentou do impacto de ações museológicas nas periferias. Gostaria que você falasse um pouco sobre esse ponto.
Existe uma tendência a se valorizar mais o centro histórico das cidades, os bairros melhor agraciados pelo poder público, os pontos turísticos. Para quem mora nas localidades periféricas a sensação é que se vive numa área sem significado para a cidade. Então trabalhos em área periféricas revertem essa expectativa e trazem uma valorização muito forte.

Para você, o que é mais importante para um museu, estrutura ou narrativa?
Em determinados contextos a narrativa é muito mais significativa. Independente das estruturas físicas e de organização, é a capacidade articulação entre conhecimento e emoções que gera o impacto. Pra mim, museu é um território. Não é um edifício. Para além do espaço físico. O prédio é simbólico. Nesse espaço se pode condensar algumas atividades de uma forma útil para a sociedade. Mas não é a única alternativa. Quanto mais expandidas e integradas as ações, mais o museu faz sentido.

Bate papo com Marcelo Mattos

Qual é o balanço inicial da Semana Nacional de Museus de 2018?
A semana de museus de 2018 foi a 16ª realizada. Ou seja, é um projeto consolidado. A continuidade do projeto é importante, porque promove mais adesões. Foi uma edição significativa e com tema instigante. O desafio da hiperconexão, e de como, a partir disso, os museus devem e podem explorar novas abordagem para atrair novos públicos, é algo importante. A diversificação dos públicos é o maior desafio que vejo nesse cenário contemporâneo brasileiro.

Marcelo Mattos, presidente do Ipram
Marcelo Mattos, presidente do Ipram

Como vê o papel dos museus hoje?
Os museus vem ganhando uma importância cada vez maior na sociedade contemporânea. Isso é um fenômeno mundial. Isso é um resultado da conscientização de quem trabalha em museus, do papel e potencial que essas instituições tem de contribuir para o desenvolvimento sustentável, do papel de diálogo dentro das comunidades, do potencial de contribuir com áreas como o do turismo cultural e da indústria criativa. Ou seja, há muitas formas de contribuir e isso faz com que os museus tenham ampliado sua presença na sociedade. E gradativamente esse reconhecimento vem acontecendo.

Num cenário de recursos escassos, que políticas o Ibram tem promovido?
A sociedade brasileira está vivendo restrições financeiras muito fortes. O problema dos museus não é só deles, é da cultura e de outras áreas. Mas o importante nesse momento é a consciência do trabalho em rede, do trabalho com as comunidades. Isso coloca alternativas que permitem superação desses problemas com a construção conjunta de soluções viáveis para esse momento de restrição que estamos atravessando.


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