A cidade da alegria

Publicação: 2017-12-31 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Desde que chegou a Natal, aos 12 anos, vindo de sua cidade natal Serra de São Bento, Lula Belmont encontrou na Cidade Alta a sua área. Antes do bairro histórico ele morou com a família no Barro Vermelho e Potilândia, mas sempre procurou andar pela região central de Natal – sua mãe tinha uma lanchonete na rua Coronel Cascudo. A agitação do comércio de rua o fascinava, mas não tanto quanto a noite, horário em que ele investiu todas suas fichas.

Com 59 anos, o produtor cultural e empresário Lula Belmont, faz história na cidade desde o início dos anos 80
Com 59 anos, o produtor cultural e empresário Lula Belmont, faz história na cidade desde o início dos anos 80

Com 59 anos, o produtor cultural, empresário, ex-jogador de vôlei, faz história na Cidade Alta desde o início dos anos 80, com a Boate Broadway, depois com o Vice-Versa até os dias hoje, com o Bardallos, passando por um dos mais longevos casos de sucesso do carnaval de Natal: o tradicional desfile d'As Kengas, do qual é um dos fundadores e que em 2018 completa 35 anos ininterruptos de festa. “As Kengas sempre foi um espetáculo de rua no carnaval da cidade”, diz o produtor, em entrevista à TRIBUNA DO NORTE, enquanto atende os primeiros clientes que chegam para almoçar no poético Bardallos – entre eles, o poeta Volonté, batendo papo, e o artista Falves Silva, tomando uma cerveja.

Na conversa, Lula conta um pouco da história por trás do bloco mais colorido do carnaval de Natal, além de lembrar de várias passagens de sua trajetória de produtor cultural, muito atuante nos anos 80, quando a cena transformista da cidade (quando o termo drag queen ainda não era usado) vivia período de grande efervescência.

Teatro de Revista e cena transformista
No início dos anos 80 se fazia na cidade o resgate do Teatro de Revista, gênero que fez sucesso no Café Teatro Frenesi. O teatro ficava na rua Dr Barata, na Ribeira, no prédio histórico onde originalmente funcionou a loja A Samaritana. A fachada do prédio ainda está lá, com risco de cair. Muitas transformistas de Natal passavam por lá. Eu cheguei a trabalhar no local por um tempo. Tínhamos um espetáculo que ficou dois anos em cartaz com casa cheia. De lá, todo mundo subia pra rua Felipe Camarão, point alternativo da Cidade Alta.

Boate Broadway
Na rua Felipe Camarão dava todo tipo de gente, mas o público GLS era bem presente. Lá tinha a boate Equus e vários barzinhos ao redor, como o BarBaridade. As transformistas viviam pela área. Quando a Equus mudou de nome para Broadway, assumi o lugar. Foi uma grande experiência. Nessa época aconteceu no Palácio dos Esportes o concurso Mr Gay. Deu muita gente e o pessoal foi todo pra Broadway depois. Foi uma loucura de gente. No outro dia, a imprensa chamou aquela movimentação na rua de “Orgia Gay”, botaram umas fotos de seringa, tudo inventado pelos jornais. Com a repercussão, o movimento na rua enfraqueceu.

Vice-Versa
Em 1984 abri o espaço Vice-Versa, na rua Coronel Cascudo, onde mamãe chegou a ter uma lanchonete. Funcionava quase em frente onde hoje é o Bar de Nazaré. Na época de bares por perto tinha o de Nazir (hoje Bar da Meladinha) e o de Odete. O Vice-Versa era meio como o Bardallos é hoje, em termo de programação. A arte era algo bem forte, fazíamos exposições. Nos domingos aconteciam shows de rock, lançamos muitas bandas alternativas da cidade. Tínhamos um karaoke que era sucesso. Chegamos a promover um concurso de melhor voz. No início o Vice-Versa foi uma mistura de pessoas, gêneros e linguagens.

A boate fecha as portas
Quando fechei o Vice-Versa, em 1992, o espaço já tinha um perfil mais GLS.  Por causa de uma reforma sem fim, ficamos seis meses fechados. A Cidade Alta deu uma esvaziada com o crescimento de outros bairros e a chegada dos shoppings, então o movimento caiu muito. Ao mesmo tempo, a Vogue abriu no Alecrim e o público GLS migrou pra lá. Depois do Vice-Versa foquei na produção cultural, o que já fazia em paralelo ao trabalho das boates. Produzi espetáculos infantis, balés, exposições, trabalhos locais e nacionais.

Produção Cultural
Um grande trabalho realizado foi a montagem do espetáculo “A Missão”, do grupo Stabanada, em 1988. Eu ainda tinha o Vice-Versa. Era um texto de Heiner Miller, inédito no Brasil, sobre a Revolução Francesa. Compramos os direitos de montagem e rodamos o país com o espetáculo, participamos de mais de 20 festivais, ganhamos prêmios. Foi um trabalho incrível! Em Natal, chegamos a ficar dois meses em cartaz no teatrinho do Centro de Turismo. Depois nunca mais foi montado.

As Kengas
No final dos anos 70 e início dos 80 o carnaval de Natal deu uma aquecida. Em 1983 a turma que ia para Olinda e Salvador ficou pela cidade e organizamos As Kengas para sair no domingo. Era tudo bem alternativo, com o pessoal saindo fantasiado. Começamos com uma charanga, concentrando em frente a Broadway, depois descemos para a Praia dos Artistas, que era para onde os blocos da cidade iam. Passamos chapéu para pagar os músicos.

“Invasão” das Kengas
As Kengas começou a crescer mesmo em 1986, quando tivemos o patrocínio do Motel Tahiti. O motel espalhou umas 12 faixas pela cidade anunciando que “As Kengas vão invadir a cidade”. Em 1987 encontramos o formato ideal que até hoje mantemos, com o desfile e show na rua. O baile surgiu só em 1988 e foi sucesso instantâneo. A festa acontecia no Centro de Turismo, depois levamos para o Clube do América. Também passamos a eleger as madrinhas do bloco. Elke Maravilha, Márcia Cabrita, Preta Gil, Monique Evans, Cissa Guimarães, todas já passaram pelas Kengas como madrinhas. Nosso desfile sempre foi um espaço bem misturado, com gays e héteros se fantasiando, gente de todas as camadas sociais e idades comparecendo.

Valsa com os marinheiros
Nos 15 anos d'As Kengas, claro, o tema da festa foi de debutante. Na época tinha um navio estrangeiro ancorado no porto. Os marinheiros, todos gringos, de uniforme, subiram para assistir ao desfile e foi aquela loucura quando eles chegaram Levamos eles pro palco para dançar. Noutro ano, depois de anunciada a Kenga vencedora do desfile, se descobriu que ela era mulher. As outras concorrentes ficaram revoltadas, não deixaram ela ser coroada, jogaram latinha de cerveja no palco. Mas ela ganhou, então a coroamos. De problema, uma vez uma igreja evangélica que ficava próximo ao local do nosso desfile pediu para Vilma, prefeita de Natal na época, para que levássemos a festa para outro local. Vilma não permitiu. Disse que chegamos primeiro no lugar.

Bardallos
Na época do Vice-Versa, quando ele virou boate, já pensava num espaço que funcionasse mais cedo, estilo happy hour. Em 2004 surgiu a oportunidade de alugar o ponto onde funcionou o Abech Club, de Pedro Abech, na rua Gonçalves Lêdo, por trás da loja Leader. Abrimos sem alarde. Quando a Leader comprou o espaço, fomos para o ponto onde até hoje estamos. Nosso primeiro evento foi uma exposição. Era ano de Copa, fizemos uma mostra de trabalhos com o tema “Arte e Futebol”, com um time de 11 artistas. Foi com ela que o bar ficou conhecido, ganhou fama de bar-galeria. Depois foi chegando o pessoal da música lançando discos, a turma do chorinho, os escritores e por aí vai.

Cidade Alta enfraquecida
A Cidade Alta enfraqueceu muito. Boates como as dos anos 80 não cabem mais. Mas penso em abrir um espaço que comporte shows maiores dos que o que promovemos no Bardallos. Um espaço fechado, com estrutura boa de som, um lugar que não nos preocupemos com horários. Por enquanto não estou podendo ir atrás disso, mas surgindo uma folga vejo a possibilidade realizar esse desejo.


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