A cidade poética do arquiteto do papelão

Publicação: 2018-06-15 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Com passagens pelo mundo do futebol e da moda, o carioca Sergio Cezar só foi se encontrar de verdade na arte. E imerso na arte, ele redefiniu completamente sua relação com o planeta. Aos 61 anos, conhecido como “Arquiteto de Papelão”, ele se dedica há pelo menos três décadas a transformar o lixo em esculturas. Suas obras, recriações poéticas de sobrados, cortiços, favelas, não apenas dão vida à materiais que as pessoas consideram inúteis, mas também atentam para questões arquitetônicas e urbanistas.

Periferia colorida numa maquete fez o cenário de abertura da novela “Duas Caras”. A obra deu visibilidade internacional ao artista
Periferia colorida numa maquete fez o cenário de abertura da novela “Duas Caras”. A obra deu visibilidade internacional ao artista

De passagem por Natal ao lado da esposa potiguar Isabelle Cabral, que participou do Festival Goiamum, Sergio conversou com o VIVER sobre sua carreira – que ganhou visibilidade internacional desde a peça criada para a vinheta de abertura da novela “Duas Caras” (2007-2008), da Globo. “Sem dúvidas aquele trabalho foi o mais importante que fiz. Foi uma experiência incrível, que me ajudou a redescobrir o valor da minha arte”, conta o artista.

A obra criada para a vinheta é uma favela em miniatura, com mais de 1500 habitações, numa área total de 64m². Tudo feito com papelão reciclado, latas de refrigerante e retalhos diversos. O trabalho foi encomendado pelo designer Hans Donner, o mago das aberturas de novelas da Globo. No vídeo de 70 segundos, se vê o crescimento da comunidade ao redor de dois luxuosos edifícios criados através de computação gráfica. A sequência intercala com imagens em preto-e-branco do próprio artistas nos momentos de fabricação da mini-favela.

“Cara, foram muitas casinhas, cada uma com seus detalhes. Eu criei de cabeça uma cidade para mais de 18 mil pessoas. Tudo feito em 28 dias, com uma equipe que montei com nove pessoas”, recorda Sergio. “Foi a primeira novela em HD transmitida no Brasil e a que teve a abertura mais longa. A novela foi um sucesso mundial, já passou em 200 países”.

Sergio Cezar encontrou na reciclagem o componente da sua arte
Sergio Cezar encontrou na reciclagem o componente da sua arte

A obra rendeu ao artista convites de exposição e palestra em países como EUA, Canadá, Alemanha, Portugal e Cuba, onde já participou de duas Bienais de Havana. Em todas as ocasiões ele promoveu oficinas, algo que está intrínseco no seu trabalho com a arte. “Em toda exposição eu tenho que fazer oficina. Tenho que mostrar a arte de reciclar o olhar, dar essa contribuição para as localidades que me recebem. Isso tem a ver com a minha origem. Meu pai era porteiro, minha mãe, doméstica. Eles são exemplos pra mim, porque tinham essa preocupação com o lixo e a limpeza dentro de casa e na comunidade”, diz.

A periferia poética
Além do viés ambiental das obras, é central no trabalho de Sergio a questão urbanística, arquitetônica e social, sobretudo no que concerne a periferia carioca. Com olhar poético e riqueza de detalhes, ele recria habitações que em conjunto traduzem um pouco do cotidiano de comunidades humildes.

“No meu trabalho eu observo essencialmente três coisas. O lixo, que é onde eu arranjo meu material; a história arquitetônica do Rio, que eu tenho a preocupação de dar vida nas minhas peças; e o modo como as pessoas se relacionam com as casas e a localidade, de onde eu me inspiro para dar movimento as obras”, explica o artista.

Na Bienal de Cuba, artista expôs prédios de Havana
Na Bienal de Cuba, artista expôs prédios de Havana

Embora retrate o ambiente da população pobre, Sergio afirma que seu trabalho não fala de miséria. “Eu retrato a poesia do pobre. A poesia que está nessas pessoas que a sociedade rejeita. Se você olhar legal, parece que aquelas casas estão desorganizadas, mas tem sempre um vasinho de planta, um detalhe poético”, conta. Como não coloca figuras em suas peças, ele diz dar movimento no trabalho a partir de três detalhes subliminares: a vassoura, as roupas no varal e os livros.

“A vassoura encostada num canto gera um movimento que a gente desenvolve na mente, imaginando quem colocou a vassoura ali, quem varreu ou vai varrer. Com a roupa no varal, roupas simples, eu mostro que as pessoas são limpas, cara. É uma maneira de quebrar a aquela ideia de sujeira, além de sinalizar que alguém lavou aquelas roupas, vai retirá-las do varal e passar para usar. E os livros, eles são a são educação”.

O contraste social
Uma das primeiras exposições de Sergio foi num shopping de elite na Zona Sul do Rio e foi sucesso de visitação, com circulação de 2 mil pessoas por semana. Os frequentadores se encantaram com aquela recriação artística da realidade que a maioria fingia não ver na cidade. “O trabalho acabou dando um choque neles. Atraindo a atenção daquela elite para aquilo que eles sempre preferiram não ver”, diz o carioca.

Detalhes que humanizam os cenários criados por ele
Detalhes que humanizam os cenários criados por ele

Perguntado sobre um movimento de fetichização das favelas que se vê expresso em projetos culturais e turísticos, ele é sucinto em dizer que se pudessem, aqueles moradores, embora capazes de encontrar alegria nas adversidades, prefeririam morar em outro lugar. “Ninguém gosta de morar onde não tem saneamento básico, onde não tem segurança, nem o mínimo de qualidade de vida. Ninguém gosta de morar em favela. Só gringo”, conta. “Acho aqueles Jipes que sobem a favela para fazer turismo parecido com Safari na África, onde se vê leão, elefante. Os turistas tirando fotos com os moradores como se estivessem diante de um animalzinho. Não acho legal. Claro que gera oportunidades para a comunidade, respeito isso. Mas é que me preocupo em ver além disso. Dentro das favelas há um outro mundo completamente diferente do asfalto”. 

De jogador de futebol a artista
Sérgio foi jogador de futebol, jogou no juvenil do Flamengo ao lado de Zico, Adílio, Júnior, Cantareli. E profissionalmente jogou no América do Rio, disputando campeonatos carioca e até brasileiros. “Fiz excursão na Europa por meio do esporte. Mas vi que o futebol não era o meu mundo”, diz. Precisando de dinheiro, ele se tornou segurança, trabalhando logo de cara para a modelo Luíza Brunet. “Era uma figura maravilhosa. Olhou pra mim e disse que eu não era segurança, e sim modelo. Me botou pra desfilar, fazer foto pra revista. Mas também vi que a moda não era meu mundo”.

Foi então que Sergio resolveu dar asas a um impulso artístico da infância. Largou tudo e se lançou nas artes plásticas. “Na arte eu já tentei parar, mas vi que não consigo. É a minha vida”, afirma. Como autodidata e dotado de um olhar atento, poético, voltado para às ruas, ao patrimônio arquitetônico, às pessoas, ao meio ambiente, ele construiu uma carreira de reconhecimento nacional e internacional.

Exposição em Natal
Por ser casado com uma potiguar, a produtora Isabelle Cabral, Sergio já veio várias vezes ao Rio Grande do Norte. Numa das oportunidades, chegou a ministrar uma oficina de criação de estampas a partir de relevos para o Festival Goiamum. Em suas andanças pelo estado, ele também atentou para as habitações simples de pescadores de São Miguel do Gostoso, Maracajau e Pipa, o que gerou a criação de algumas casinhas que estão em seu atelier no Rio de Janeiro. Em Natal, ele se inspirou especialmente nos ambulantes de Ponta Negra, com quem gosta de puxar papo, recriando carrinhos de drinques. Quem sabe na próxima vez que o artista vier a cidade, ele venha com uma exposição, em que, além dos casebres da periferia carioca, estejam à mostra peças do seu olhar poético voltado para o cotidiano potiguar. “Tenho muita vontade. Já quis expor aqui antes, mas não deu certo. Surgindo a oportunidade e conseguindo apoio, eu trago as obras para  uma exposição”, avisa.


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