A comédia da fama

Publicação: 2020-01-15 00:00:00 | Comentários: 0
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Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: Divulgaçãocolunacoluna

Já foi dito muitas vezes, Senhor Redator, que o brasileiro tem memória curta quando é para lembrar, valorizando ou não, as coisas do passado. Nestes dias de um tempo estranho não parece mais acesa a chama de um dos livros brasileiros mais bem humorados. Circulou ali, em meados de 2004, há 16 anos - a ‘Divina Comédia da Fama’, de Xico Sá. Olhou esse Brasil e percebeu como nasceram o purgatório, o paraíso e o inferno dos que sonham ser célebres.

O que parece ser apenas um tratado informal do riso, nascido da tradição galhofeira da vida social brasileira, metáfora do clássico ‘A Divina Comédia’, de Dante Alighieri, tão bem estudado por Câmara Cascudo nas influências na tradição oral, acaba sendo um dos retratos mais certeiros sobre a busca da celebridade neste Brasil inzoneiro. Como se a corrida na direção da fama levasse o homem a se perder na fumaça e na espuma, como adverte Dante.

Somos tão vocacionados para a conquista da fama, nem que seja de uma tola foto no jornal, que Xico Sá abre o livro com uma frase de Glauber Rocha, um gênio que o Brasil não entende ser genial: “Porra, como o mundo é imbecil! Como as pessoas precisam da fama para ir aguentando a barra”. Glauber fechou os olhos em 1981, mas se a frase que serve de epígrafe estivesse viva na memória coletiva talvez o brasileiro hoje compreendesse melhor o Brasil.

O nariz de cera, se é sempre mais sincero confessar, não resolve a crônica, mas ajuda.  As eleições no Brasil de 2018 alagaram nossas vidas como um tsunami. Em algum ponto do nosso mar territorial as placas tectônicas que sustentavam a política tradicional engastaram-se num atrito de força descomunal e o fenômeno gerou uma silenciosa revolta popular. Abertas as urnas os novos animais da floresta assumiram o poder e conquistaram a glória. De súbito.

Para fenômenos políticos de massa não há regra, manual, regulamento. Acontecem tão inexplicavelmente quanto passam. Quando e se passam. Até que passem, depurados por um lento processo de acomodação de barreiras, a vida é levada aos solavancos e não há como evitar. Dai o rosto atônito dos políticos, até dos mais experientes, desacostumados à quebra de velhos ritos de convivência. E novos ritos alimentam novos mitos, o que, de resto, não é novo.  

O resultado é que os efeitos reinventaram o campo de luta e só a alguns foi dado ter um olhar mais distante da praia onde quebram as ondas e borbulham as vítimas. Os políticos, senhores do tempo, treinados no longo aprendizado, esses sobreviverão. Sabem da arte da sobrevivência reposicionando-se na luta. Os outros, os filhos oportunistas do fenômeno, esses vão boiar como se soubessem nadar. Até que venha outra onda forte e leve tudo de roldão.

LETRAS - O ex-governador Geraldo Melo tem dedicado longas horas do seu tempo ao velho e belo comércio das palavras, como já diziam os clássicos: escreve. E ninguém sabe o quê.

EFEITO - Tem gente do trade certo de que passada a alta estação o governo vai constatar que o aumento de voos não foi a redução do querosene de aviação. É sazonal, típica do período.

MAIS - É que a promoção do turismo é hoje a venda competente através da internet e não de feiras de perto ou de longe. Em condições de igualdade o que diferencia é vender o destino.

DÚVIDA -  O ex-deputado Rogério Marinho, paga por ser célebre, a divulgação de sua dívida de R$ 1,3 milhão à Previdência ou seria por ser duro contra os fracos e só com os fracos?

AVISO -  O prefeito Álvaro Dias só tem um compromisso na agenda ao voltar da Holanda e reassumir a Prefeitura: sucesso no carnaval. É a última grande festa popular antes da eleição.

SÉCULO -  Neste 2020, completa cem anos de vida, vivo e lúcido, o professor João Wilson Mendes Melo. Ele ocupa a Cadeira 25 da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. Viva!

AINDA - Também é o século de Aluizio Alves, Vingt-un Rosado, Oriano de Almeida, Leão Fernandes, Veríssimo de Melo, Luiz Rabelo, professor Hermógenes e Nestor Santos Lima.

ESPERA - De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, depois de ouvir a lamúria do companheiro de mesa: “Viver é saber o que se espera e de quem se espera”. E virou a dose.

MEMÓRIAS - O conselheiro Manuel de Brito fechou com o selo Caravela, do editor José Correia, a edição de ‘Tempos Marcantes’, seu livro de memórias. Uma edição toda ilustrada com imagens de episódios e personagens de época. O prefácio é de Cassiano Arruda Câmara.

LAMPIÃO - Outro livro que já está no portfólio da Caravela para este 2020 é a pesquisa do escritor e historiador Rostand Medeiros, pesquisador da II Guerra no RN, sobre as trilhas do bando de Lampião no Estado. Rostand refez as trilhas e levantou os seus últimos registros.

MERMOZ - Também na agenda editorial de 2020, a biografia de Jean Mermoz, o piloto francês que realizou, há noventa anos, em 1930, a travessia aérea do Atlântico, fundando no Brasil o correio aéreo. A biografia do escritor Roberto Silva é a maior já feita aqui no Brasil.






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