A completude do artista Dorian Gray Caldas

Publicação: 2017-01-24 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter
Cinthia Lopes
Editora

Artista incansável, que se manteve ativo por 70 anos, não apenas pintando as cores e a alma natalense, mas traduzindo em poemas olhares sobre o cotidiano da cidade, Dorian Gray também foi crítico de arte e alcançou reconhecimento nacional e internacional. O potiguar faleceu na noite de segunda-feira (23), às 18h30, no Natal Hospital Center. Considerado o maior artista vivo do Rio Grande do Norte, Dorian tinha 86 anos e estava há 12 dias internado com pneumonia e problemas renais. De acordo com a neta Isabel Caldas, a princípio sua morte foi decorrente de um infarto fulminante. “Ele andava meio fraquinho, mas, antes de se internar, cumpria sua rotina diária: pintava, lia, apesar das limitações. Só não estava mais escrevendo”, recorda Isabel. O corpo do artista será velado nesta terça-feira (24), a partir das 7h, na Pinacoteca do Estado (Cidade Alta). Às 15h30 será celebrada uma missa de corpo presente, com cortejo de despedida saindo às 16h30 para o cemitério Morada da Paz, em Emaús.
Adriano AbreuDorian Gray Caldas: 1930 - 2017Dorian Gray Caldas: 1930 - 2017

Nascido em Natal, em 16 de fevereiro de 1930, Dorian ganhou reconhecimento no Brasil e no exterior por seus trabalhos com pintura, escultura, cerâmica, tapeçaria, desenho e poesia. A estreia nas artes visuais foi em 1950, junto com os pintores e grandes amigos Newton Navarro e Ivon Rodrigues, no 1º Salão de Arte Moderna de Natal, evento organizado pelo trio e que gerou grande repercussão nos círculos culturais na cidade. Seu lançamento público na literatura foi 11 anos depois, com a publicação de “Instrumento de sonho”, em 1961 – ao todo foram 37 livros, dentre poesia, prosa e ensaios e críticas.

Segundo o amigo de longa data, o poeta Sanderson Negreiros, Dorian era um trabalhador incansável. “Às vezes, só pra testar, eu ligava para ele domingo à noite. Lá me falavam que ele estava acordado, pintando”, lembra o poeta, amigo de Dorian desde os 14 anos. “A gente vinha se falando quase que diariamente por telefone. Seus últimos cinco anos foram difíceis de saúde. Foi um longo sofrimento”.

Com uma produção artística vasta, o tema principal de suas telas era Natal, de onde fez registros das praias, do Canto do Mangue, do Beco da Quarentena, das pessoas, pescadores, folclore, dentre outros, como as marinhas em aquarela que vinha pintando ultimamente. “Poucos amaram tanto Natal como ele. Enquanto Newton Navarro se virou para o sertão potiguar, Dorian se debruçou sobre a cidade onde viveu a vida toda. Inclusive na mesma casa há pelo menos 70 anos. Era lá que recebia os amigos e artistas que o procuravam em busca de conselhos”, diz Negreiros..

Para o artista plástico, escritor e médico Iaperi Araújo, Dorian era um artista múltiplo, que não apenas produziu seus trabalhos, como contribui com a cultura potiguar, publicando ensaios e críticas. “Ele introduziu a gravura, a tapeçaria, a cerâmica na arte potiguar. Por sua arte não naif e até certo ponto abstrata, chocou a provinciana Natal do início dos anos 1950. Foi o último remanescente da arte moderna na cidade”, comenta. “Perdemos um artista das cores, que pintava a cidade, a alma do povo potiguar”.

Contemporâneo da época de escola, o jornalista Wolden Madruga ressalta as qualidades  do amigo. “Jogava em todas as posições. Participou dos principais movimentos de arte da cidade. Era uma figura humana muito agradável, não fazia parte de grupos de intriga, tão comum no meio das artes”, diz.

Woden lembra um lado pouco conhecido de Dorian: “Ele era um seresteiro, gostava de cantar”, diz. Sanderson confirma essa viés musical do amigo. “Cantava parecido com Orlando Silva. Nos últimos anos sua voz estava fraca, mas ainda cantava”.

Retrato poético
Em julho do ano passado, Dorian Gray reuniu sua produção poética em dois grandes volumes na antologia “Do Outro Lado da Sombra – Poesia Quase Completa”. Obra traz 10 livros de poemas, na primeira parte, e outros quatro, sendo dois de poesias inéditas, no segundo. A publicação oferece um panorama sobre as principais facetas do Dorian poeta, escritor capaz de se debruçar sobre os mais variados temas, com foco numa linguagem acessível e atrelada ao cotidiano.

Por ocasião do lançamento, ele recebeu a reportagem do VIVER em sua casa, em Petrópolis. Durante a conversa, a morte surgiu como tema, tratada por ele sempre de modo subjetivo e metafórico. “A morte é um tema que me inquieta. Mas não consome muito. Ela é uma incógnita. Um dia vou saber o que acontece. O que tem para além dessa vida. Até lá, vou seguir produzindo. Enquanto tiver forças, vou me expressar”, disse à época.

Casa pode virar espaço cultural
Durante a entrevista, Dorian ainda falou sobre o desejo antigo de transformar a casa em que sempre viveu, na rua Ana Neri, no Tirol, em um espaço cultural. Com o interior todo ocupado por pinturas, suas e de outros artistas, além de livros, do chão ao teto, a ideia era se mudar para um espaço menor, um flat, fazendo da casa atelier, o Residencial Dorian Gray Arte e Cultura. “Ainda vou botar uma placa aqui e transforma o lugar. Quero conviver com a arte de maneira que eu receba pessoas, gente interessada em arte que precisa fazer consultas. Aqui tem muito material e quero disponibilizar isso. Sou esse artista e poeta que faz as coisas porque ama. E minha poesia é esse estar no mundo em contato com as pessoas”, comentou.

Autoridades comentam a morte do artista
“A cultura do Rio Grande do Norte sofre com a morte de Dorian Gray Caldas, uma perda irreparável. Dorian era um homem de diversas artes. Ele esculpia, trabalhava com cerâmica, fazia tapeçaria, era poeta, escritor, mas, sobretudo, desenhava e pintava. Lamento profundamente a notícia e envio aos familiares e amigos de Dorian Gray o meu mais profundo pesar. O Brasil perde um dos seus grandes artistas”, declarou o senador Garibaldi Alves, por e-mail.

“O Rio Grande do Norte perde um símbolo, não somente da cultura, mas do caráter, da lisura, da fidalguia e da humanidade. Um dos maiores artistas do nosso tempo. O Governo do RN e a Fundação José Augusto estão profundamente tristes com a perda irreparável desse grande artífice das artes. Nós sempre renderemos eternas homenagens a esse inegável ícone do nosso RN. É um dia muito triste para todos nós”, comentou a diretora geral da Fundação José Augusto, Isaura Amélia Rosado.

Para o Secretário Municipal de Cultura Dácio Galvão, foi “uma grande perda, um artista que deixa lacuna, único. Me recordo de uma visita do poeta Haroldo de Campos ao ateliê de Dorian e a conversa deles sobre poesia visual. Dorian revelou também Luiz Rabello como poeta não verbal ainda nos anos 1960. Perdemos um dos grandes nomes da nossa cultura".

Foi um “Artista maiúsculo do nosso Estado. Dorian Gray Caldas se notabilizou pelo amor às artes, em suas múltiplas vertentes. Reconhecido dentro e fora do Rio Grande do Norte, inclusive internacionalmente, é sem dúvida um orgulho potiguar. Sua partida deixa um vácuo irreparável nas artes plásticas", declarou em mensagem o prefeito Carlos Eduardo.

Dorian Gray Caldas no século XXI

2016
Após alguns meses distante da cena pública, embora em plena produção artística e literária, Dorian Gray Caldas lança, aos 86 anos, a coletânea “Do outro lado da sombra: poesia quase completa”, em dois volumes, reunindo produção poética a partir de 1961. A obra sai com chancela do IFRN

2014
Aos 84 anos, Dorian Gray continuava a produzir. Tanto que realiza neste ano a exposição “Caminhos da Modernidade”,  apresenta sua safra atualizada, sob a curadoria da  filha Dione Caldas Xavier, também artista plástica, e da professora do Instituto Federal Mára Mattos. Nessa série, o artista refaz os seus caminhos pictóricos entre belas marinhas, com as praias, jangadas, casarões, autos festivos, personagens folclóricos e o cotidiano natalense. Ela atualiza sua assinatura para Dgray, como já fazia nas tapeçarias

2012
Suas percepções vão além das telas e desenhos. Autor de 37 livros, aos 82 anos lançou uma série de ensaios e artigos reunidos em duas obras: “A hora única” (ANL e BNB) e “A necessidade do mito” (Editora da UFRN/Sesc). Segundo o crítico, jornalista e escritor Nelson Patriota, “A necessidade do mito” é a mais ampla investigação feita entre nós sobre o tema do imaginário, nas veredas abertas pela “Geografia dos Mitos Brasileiros”, de Luís da Câmara Cascudo, e que dá prosseguimento a uma pesquisa mitológica que Dorian vem empreendendo há décadas com alguns resultados concretos anteriores, como “Encantados: lendas e mitos do Brasil” e “O Traço, a Cor e o Mito”.

2011
 Um dos raros exemplares da área urbana recebeu o devido tratamento restaurador pelas mãos Dorian Gray. A convite do IFRN, ele recuperou quatro painéis-murais  da antiga Cefet, pintados por ele e Newton Navarro em 1967. Dois de sua autoria e os outros do amigo e contemporâneo. Sob o tema “Leitura e Trabalho”, Dorian e Newton expressaram suas influências modernistas. O trabalho, de indiscutível valor histórico, está sendo restaurando com os mesmos materiais usados há 43 anos.

2008
Reconhecido como o mais completo artista potiguar, Dorian Gray Caldas é outorgado com o título de Doutor Honoris Causa, pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. O título foi concedido pelas significativas contribuições às áreas de conhecimento nela ministradas.

2005
O artista expõe pela primeira vez ao lado da filha, na coletiva “A arte brasileira em dois tempos”, que reuniu 30 obras de pai e filha. A exposição ficou em temporada no shopping Orla Sul .



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