''A concorrência é sempre boa para o cliente''

Publicação: 2018-04-15 00:00:00 | Comentários: 0
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Ricardo Araújo
Editor de Economia

Com vistas à ampliação da exploração do mercado nacional de aviação a partir das regiões Nordeste e Norte, as companhias aéreas Air France-KLM em parceria com a Gol Linhas Aéreas, iniciarão as operações de novas rotas internacionais a partir de maio. Com saídas semanais de Fortaleza para as cidades europeias de Paris e Amsterdam, as passagens aéreas para tais destinos tendem a ter o custo barateado em até 35% - comparado com o valor praticado nos aeroportos do Rio de Janeiro e São Paulo – e redução do tempo de voo em até seis horas.

Jean-Marc Pouchol, Diretor-geral da Air France-KLM para a América do Sul
Jean-Marc Pouchol, Diretor-geral da Air France-KLM para a América do Sul

Sem os diferenciais necessários para sediar o HUB da Air France-KLM no Nordeste, o Rio Grande do Norte ficou de fora do páreo. A baixa movimentação do Aeroporto Internacional Governador Aluízio Alves, em São Gonçalo do Amarante, foi um dos itens mal avaliados nos estudos encomendados pelas companhias aéreas. Com uma demanda interna maior, além da internacional, e por ter sido recentemente privatizado, o Aeroporto Internacional Pinto Martins, em Fortaleza, foi o escolhido como sede do empreendimento das gigantes internacionais da aviação.

Natal, porém, será um dos destinos de conexão dos passageiros através da Gol Linhas Aéreas, que movimentará a demanda interna a partir da saída e chegada dos voos internacionais operados pela Air France-KLM no aeroporto cearense. Na entrevista a seguir, o diretor-geral da Air France-KLM para a América do Sul, Jean-Marc Pouchol detalha as expectativas para o início das operações e os percentuais de redução de custos tarifários estimados com ampliação da oferta de voos.

Quais são as expectativas em torno dessa nova operação?
As perspectivas para a Air France-KLM são muito boas. É um projeto que começou há pouco mais de um ano. Nós começamos a estudar essa oportunidade em fevereiro do ano passado. Desde o primeiro dia da ideia, o projetamos em parceria com a Gol Linhas Aéreas. Surgiu de um brainstorming (chuva de ideias, em tradução livre) que tivemos com a companhia Gol. Sem ela, a Air France-KLM não teria essa nova operação até a Europa. Nossa ambição era a de aumentar, reforçar a nossa presença no mercado brasileiro com olhos para o Norte/Nordeste do Brasil. Hoje, quando se avalia a nossa presença em São Paulo ou no Rio de Janeiro, temos uma presença bem forte. Seja em termos de números de voos, de assentos que oferecemos até a Europa, o que chamamos de market share (divisão do mercado, em tradução livre). É o mais ou menos o mesmo quando se tem em consideração o Sul do Brasil, seja em Curitiba ou Porto Alegre, temos um market share bem forte, porque faz sentido sair de Porto Alegre e fazer uma conexão no Rio de Janeiro ou São Paulo antes de subir até a Europa. No contrário, quando se avalia a nossa posição atual, por exemplo em Natal, sinceramente hoje é bem fraco. Não faz sentido, para um cliente de Natal, descer até o Rio de Janeiro ou São Paulo e depois subir de novo para fazer a viagem até a Europa. Começamos um ano atrás com essa ambição de crescer e reforçar nossa presença no Norte do Brasil e avaliamos a possibilidade de implantar um HUB (centro de conexões) no Nordeste.

Quais são os diferenciais desse projeto?
O que diferencia o nosso projeto dos outros, é que desde o primeiro dia nós estabelecemos uma oferta completa através desse HUB com a Gol Linhas Aéreas e KLM e Air France. É a primeira vez na história do grupo Air France-KLM  que as duas companhias irão começar operações em Amsterdam e Paris simultaneamente. Quando a KLM ou Air France lança um nova rota, seja de Paris ou Amsterdam, depois a outra companhia segue dependendo do êxito da nova rota. Para esse projeto, a partir de maio, vamos iniciar os voos para as duas cidades desde o início. É a primeira vez, também, que vamos estabelecer um HUB com uma parceira, que é a Gol Linhas Aéreas. Normalmente, o que fazemos é iniciarmos uma rota e depois trabalhar com um parceiro para otimizar as vendas. Agora, é totalmente diferente. Desde o primeiro dia estamos pensando num HUB. O HUB é o fato de que quando um voo de Amsterdam chegar em Fortaleza, dentro de duas horas teremos um voo da companhia Gol que vai permitir cobrir seis destinos numa primeira fase: Manaus, Belém, Recife, Salvador, Natal e Brasília.

Por quais motivos o Aeroporto de Fortaleza foi escolhido entre os demais das regiões Norte e Nordeste?
Levamos em consideração quatro fatores. O primeiro era a distância entre a cidade e a Europa. Precisávamos de uma distância menor, para fazer mais sentido. Depois, precisávamos de uma localização diferente e mais centralizada para atender os seis destinos que falamos anteriormente. Isso para distribuir, depois, os passageiros até os seus destinos. Outro fator foi o potencial local. Para se estabelecer um HUB, se precisa do mínimo de demanda local para não se apoiar somente da alimentação dos destinos que estão se conectando. O quarto fator foi o aeroporto. No caso de Fortaleza, sabemos que a Fraport, a companhia alemã que acabou de tomar a concessão do aeroporto, irão investir coisa de R$ 2 bilhões para modernizar o aeroporto. E, também, a situação atual do aeroporto vai permitir otimizar essas operações da Air France-KLM e Gol para fazer que a conexão seja simples neste HUB. O fato de ser um aeroporto de porte médio, irá facilitar. Será mais fácil fazer a conexão em comparação com um aeroporto maior. Não quero dizer que isso é difícil em aeroportos maiores, porque já funcionam de uma forma que tudo dá certo. Já temos quase ¼ dos nossos clientes da Air France-KLM que quando chegam em São Paulo, eles fazem uma conexão. No início da parceria com a Gol, isso girava em torno dos 7%. Depois de quatro anos, passamos para ¼ do número de passageiros. A expectativa para Fortaleza é que tenhamos de 30% a 35% dos passageiros fazendo conexão. Ou seja, ainda mais do que já temos de porcentagem nos aeroportos do Rio de Janeiro e São Paulo.

O Aeroporto de Natal chegou a ser estudado como possível sede deste HUB da Air France-KLM no Nordeste?
Nós tínhamos um “bom problema” em nossas mãos. Todas as cidades eram uma opção. Mas, quando levamos em consideração os quatro fatores, decidimos que Fortaleza tinha um pouco mais de vantagem em relação às outras cinco cidades (Natal, Recife, Brasília, Manaus e Salvador).

O senhor acredita que haverá barateamento dos custos de passagens aéreas para a Europa a partir da operacionalização desse HUB?
Para os clientes de Natal, isso irá resultar em duas vantagens bem claras. A primeira é relativa ao tempo de voo. Ele irá poupar tempo. Hoje, quando se avalia o tempo de viagem total de Natal para Paris ou Amsterdam, o cliente vai ganhar, ao menos, quatro ou cinco horas. O cliente vai, também, poupar dinheiro. Mais ou menos em torno de 30%. Se fazendo a mesma comparação entre uma conexão no Rio de Janeiro ou em São Paulo e, a partir de maio, em Fortaleza, isso vai gerar uma economia de 30%. Com menos tempo de voo, haverá menos custos.

Haverá uma procura maior dos destinos brasileiros pelos turistas europeus a partir do início dessas operações?
Dentro do nosso estudo que fizemos ano passado, se estima a distribuição entre os clientes estrangeiros e brasileiros nos voos pela metade. Esperamos que metade dos clientes estrangeiros saídos da Europa e Ásia venham para o Brasil.

O início dessa operação em 2018, após dois anos e meio de forte recessão econômica no Brasil, foi uma decisão de risco ou de ousadia?
Risco eu diria que não. A ousadia, sim. Eu prefiro a ousadia. Quando começamos os estudos em fevereiro do ano passado, já estávamos vendo sinais positivos da retomada da economia brasileira e, sobretudo, a retomada da demanda brasileira para a Europa. Essa retomada começou em outubro de 2016. Desde esse momento, não parou. Mês após mês, temos um crescimento da demanda não somente na Air France-KLM, mas no mercado independente da economia. Quando vimos os primeiros sinais da retomada, não quisemos perder as oportunidades. Através desse projeto, um pouco ousado, mas hoje vemos os primeiros resultados. Vamos iniciar as operações em maio, mas as vendas começaram há seis meses. Já podemos ver o êxito desse projeto, pois as vendas ficaram acima das expectativas iniciais e, por isso, em fevereiro passado decidimos acrescentar uma frequência a mais para Paris em novembro. São três voos para Amsterdam, dois para Paris em maio e, em novembro, mais um para Paris.

Em quanto deverá girar o valor médio dessas passagens partindo do Brasil?
É difícil lidar com valores. O preço no setor aéreo depende da temporada, do dia, da demanda. É mais relevante falar da baixa média do valor. Haverá uma redução entre 30% e 35% se comparado com o voo saindo de São Paulo no mesmo período do ano passado. Quanto mais oferta, mais positivo para o cliente. Mais oportunidades de viagens com preços atraentes. A concorrência é sempre boa para o cliente e para as companhias também.


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