A conexão íntima com Ponta Negra de Carlos Fialho

Publicação: 2019-12-15 00:00:00
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Ramon Ribeiro
Tádzio França
Repórteres

Desde cedo o escritor Carlos Fialho percebeu sua conexão íntima com Ponta Negra. Um lugar que, além da praia e das belezas naturais, estimula a mistura de pessoas,  origens, raças e estilos de vida – o avesso do que uma parte da sociedade privilegiada natalense aprecia. “Eu me incomodava muito com o preconceito da classe média natalense, que estigmatizava a praia como um reduto de pessoas desclassificadas, de segunda classe”, diz. Ponta Negra por uma questão de classe!

Créditos: CedidaCarlos FialhoCarlos Fialho
O editor, publicitário e escritor Carlos Fialho é um apaixonado por Ponta Negra, por que além da praia e das belezas naturais, para ele o bairro estimula a mistura de pessoas, origens, raças e estilos de vida. A percepção dessa democrática Ponta Negra e a aversão ao preconceito de uma parcela de natalenses, o influenciaram a escrever divertidas crônicas de costumes

A percepção da democrática Ponta Negra também o influenciou como cronista dos costumes locais. Através de textos em livros, jornais e sites, Fialho já pintou e bordou com a sociedade da capital potiguar, criando sátiras como um apocalipse zumbi em Natal, traçou perfis de figuras como o “maconheiro militante”, a “patricinha cultural”, o “raqueiro” e o “DJ playboy”, refletiu sobre termos como “galado”, e analisou costumes, a exemplo do hábito de veranear.

Apesar de se definir como um “emprecariado” - “aquele que vai aos eventos de coaches de empreendedorismo na Arena das Dunas ou no Midway e sai de lá se sentindo o próprio Flávio Rocha” - o escritor conseguiu o feito de publicar quase 200 livros por sua editora, a  Jovens Escribas. Aliás, o livro mais vendido da casa é dele mesmo, “Crônicas na Escola”, de 2016. Apesar de ácido, o humor de Fialho também é ensolarado – assim como o bairro que ele adotou para ser sua área eterna.

Classe: Ponta Negra
Eu era frequentador de Ponta Negra desde mais novo. Ia à praia, mas também às casas de amigos, festas de rock em locais como o Bar do Buraco e tantos outros rolés. Muito cedo, descobri que aquela era a parte que me cabia deste latifúndio urbano chamado Natal. Eu também me incomodava com o preconceito da classe média natalense, moradora do Plano Palumbo e de bairros mais centrais, que estigmatizavam a praia como um reduto de pessoas desclassificadas, de segunda classe. Isso também me motivou, pois eu sempre me senti muito mais à vontade estando junto exatamente do tipo de gente que a elite econômica da nossa cidade odeia: pessoas mais ligadas à cultura, a causas sociais, à educação, com uma visão de mundo mais ampla e não voltada única e exclusivamente para o próprio umbigo. Tudo isso você encontra em Ponta Negra. É o que resta de civilização nesta cidade.

 Aniversário na praia
O hábito de fazer isso no dia do aniversário é simbólico, me dá uma sensação bacana de passagem de fase, de celebração por ter vivido mais um ano e fazer isso de frente pro mar me traz satisfação, alegria. Um dia típico de praia pra mim é de banho de mar, comidas e bebidas à beira-mar, conversa com os amigos e muita brincadeira com as crianças. Não tenho o hábito de ler na praia, pois minha concentração na leitura pode acabar atrapalhando os vendedores de CDs e pendrives com músicas do Grafith que costumam passar pela orla.

O resto
A separação territorial que elaborei com a cartografia do coração se dá por mera constatação: Natal realmente se divide entre Ponta Negra e o resto. É fato. A convivência com pessoas de perfis variados, uma diversidade de tipos humanos, classes sociais, muitas origens conferem ao bairro uma atmosfera democrática que não se vê nos ambientes pasteurizados das vizinhanças elitizadas ou dos sufocantes e excludentes ares dos shopping-centers e restaurantes da zona além-Roberto Freire.

Turista acidental
Um dia eu estava parado em frente a uma padaria que eu frequento e veio um senhor me pedir dinheiro num inglês de sotaque britânico impecável. Ele me falou que havia sido assaltado, levado uma facada, feito boletim de ocorrência e que estava precisando de dinheiro, etc. Nitidamente, ele estava mentindo, até porque estava de ótimo humor para quem acabara de ser esfaqueado, mas me contou uma história tão ricamente elaborada que dei uma grana pra ele. Não foi caridade, foi prestação de serviço. Paguei pela narrativa.

Morro do Careca
Assim como o Morro, a vegetação que povoa minha superfície vem escasseando rapidamente e logo eu próprio estarei careca também. O Morro do Careca é lindo de se ver, de se contemplar de mostrar ao mundo o quanto somos abençoados por uma natureza exuberante. Nunca parei pra pensar em representações mais profundas dele especificamente. Acredito que neste sentido, o Parque das Dunas represente mais um sentimento de resistência, uma vez que teima em existir numa cidade que cresce ao seu redor ao sabor da especulação imobiliária e da ganância desenfreada de uma classe empresarial técnica, porém inculta.

Inspiração
Para mim, sempre foi muito inspirador porque um cronista se alimenta da realidade ao seu redor e como boa parte dos ambientes que frequento ficam no bairro, certamente foi o local que mais serviu de palco para minhas histórias. Desde o meu primeiro livro, “Verão Veraneio” (2004), venho revisitando o bairro nas mais variadas histórias e situações absurdas.

Humor a sério
Temos uma cultura autodepreciativa que é muito brasileira, né? Pela receptividade que minhas crônicas sempre tiveram, posso interpretar que o natalense gosta sim de rir de si mesmo. No entanto, desconfio que boa parte das pessoas que gostam do que eu escrevi sobre os perfis natalenses não tenha entendido direito, o que escancara outra característica do brasileiro médio: a má interpretação de texto decorrente do déficit de leitura. Mas aí seria preciso fazer um estudo mais detalhado. A literatura aqui não pode ser classificada como necessariamente séria. Temos uma rica variedade de escritores que seguem caminhos diversos. Observe o erotismo e a irreverência na obra de Nei Leandro de Castro, ou o retrato fiel da nossa cidade traçado por Alex Nascimento. Acredito que a minha geração trouxe ainda mais leveza ao cenário quando surgiram nomes como Carito, Regina Azevedo, Alice Carvalho, Pablo Capistrano, Márcio Benjamin, Bia Madruga e tantos outros.

Mergulho no Brasil  
Tenho vários projetos iniciados, que estão parados no momento. Não estou escrevendo nada, e explico por quê: estou tentando entender o Brasil e o mundo. Tenho lido livros como “A classe média no espelho” de Jessé de Souza, “Como as democracias morrem”, “Sapiens” e assistido peças como “A invenção do Nordeste”, “Meu Seridó” e filmes como “Bacurau”. Espero emergir deste mergulho com algo bacana a criar e produzir. Mas por enquanto, estou absorvendo o conteúdo necessário, pois tenho percebido que o mundo está como está porque tem muita gente falando demais sem ter nada a dizer. Então, concluí que é momento de calar, pensar, interpretar.